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Fidel


Gislaine Gutierre
Do Diário do Grande ABC

31/12/2006 | 18:08


Seu nome tem tamanho peso e significado que nunca surge num diálogo ou texto sem causar polêmica ou fomentar acalorados debates. Aos 80 anos de idade e afastado do poder desde julho do ano passado por razões de saúde, Fidel Castro tem agora publicado não apenas um livro, mas um registro histórico de seu pensamento a respeito das mais famosas e controversas ocorrências que envolvem Cuba, em quase 50 anos de história. É Fidel Castro: Biografia a Duas Vozes (Boitempo Editorial, 624 págs., R$ 66), resultado das cem horas de entrevista ao franco-espanhol Ignacio Ramonet, a mais longa já concedida a um jornalista pelo líder cubano.

Quase tudo o que já foi falado sobre ele – da façanha de ser vitorioso na revolução às acusações de violação de direitos humanos; da suposta fortuna que possuiria, ao seu envolvimento com a crise dos mísseis de 1962; da guinada à esquerda na América Latina às atitudes do governo Bush – é defendido, atacado ou explicado pelo próprio em 27 capítulos com perguntas e respostas.

Fidel Castro se revela dono de uma memória prodigiosa (a entrevista ocorreu em 2005). Tem números, datas, nomes e diálogos na ponta da língua. Demonstra seu profundo amor pelo país, pelo povo e pelas idéias que o fizeram construir uma nação calcada sobre valores bem diferentes daqueles que norteiam o império norte-americano de George Bush.

A eterna farda verde-oliva, que na última década ele vinha abandonando em encontros oficiais, não poderia ser mais perfeita ao homem que a veste. Ao hábito, Fidel encontra uma resposta prosaica: “Com o uniforme não preciso colocar gravata todos os dias...”. Mas não é só isso. Ao longo de todo o livro, ele demonstra ser um estrategista militar. Não seria diferente para um líder que iniciou a revolução com sete fuzis e derrotou um exército de 80 mil homens.

Hoje, exatamente, completam-se 48 anos da revolução cubana. Mas o que de tão especial haveria nesse sujeito para que se tornasse o líder que é, atravessando dez diferentes governantes norte-americanos e sobrevivendo ao duro – e condenado – embargo comercial decretado em 1962 e que impede a melhoria de vida do povo cubano? Ingênuo crer que seria um único motivo.

Filho de um latifundiário, Fidel não teve uma vida de sutilezas e delícias na fazenda. Ainda menino, foi enviado a Santiago de Cuba para estudar.

Morava na casa de uma professora, onde passou fome e sequer foi mandado à escola. Mais tarde, estudou em internato de jesuítas. E não foram poucas as vezes em que seu espírito rebelde se manifestou.

Na cidade, porém, vislumbrou um mundo maior – e mais injusto. Quando entrou na faculdade de Direito, julgava-se um “ignorante político”. Foi ali, no entanto, que se aproximou mais da política. Foi combater a ditadura de Trujillo na República Dominicana e participou do Bogotazo, na Colômbia, entre outras atividades, até chegar ao famoso assalto ao Quartel Moncada. Fidel revela, nesta entrevista, que queria assaltar outro quartel, imediatamente após a frustrada operação.

Tenaz, foi preparar a revolução no México, onde conheceu o argentino Che Guevara, do qual fala com enorme admiração e a quem tentou advertir sobre os riscos de uma operação na Bolívia, onde Che foi assassinado em 1967.

Fidel parece possuir mais vidas que um gato. Poderia ter morrido em Moncada, após o desembarque do Granma ou nos mais de 600 atentados que o próprio contabiliza. Ele relata um dos episódios mais dramáticos, após o desembarque na ilha, quando adormece num canavial sob uma rajada de tiros disparados desde os aviões de Batista.

Quando parecia que haviam triunfado, os revolucionários viram que governar seria bem mais complicado. Fidel por um bom tempo administrou um barril de pólvora. A crise dos mísseis em 1962 quase fez o mundo ir pelos ares e Fidel não poupa críticas à atitude dos soviéticos que sequer o envolveu nas negociações. Também aponta uma atitude irresponsável e sabotadora dos Estados Unidos em relação às crises migratórias – como a de Mariel, em 1980, quando milhares de “balseros” se lançaram no mar rumo à Flórida.

Apesar de sua incontestável liderança e carisma, recusa qualquer tipo de personalismo. Não há uma avenida ou edifício com seu nome em Cuba nem qualquer retrato oficial. Só lhe interessa manter os princípios da revolução. Idéias que ele acredita serem imortais.


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Fidel

Gislaine Gutierre
Do Diário do Grande ABC

31/12/2006 | 18:08


Seu nome tem tamanho peso e significado que nunca surge num diálogo ou texto sem causar polêmica ou fomentar acalorados debates. Aos 80 anos de idade e afastado do poder desde julho do ano passado por razões de saúde, Fidel Castro tem agora publicado não apenas um livro, mas um registro histórico de seu pensamento a respeito das mais famosas e controversas ocorrências que envolvem Cuba, em quase 50 anos de história. É Fidel Castro: Biografia a Duas Vozes (Boitempo Editorial, 624 págs., R$ 66), resultado das cem horas de entrevista ao franco-espanhol Ignacio Ramonet, a mais longa já concedida a um jornalista pelo líder cubano.

Quase tudo o que já foi falado sobre ele – da façanha de ser vitorioso na revolução às acusações de violação de direitos humanos; da suposta fortuna que possuiria, ao seu envolvimento com a crise dos mísseis de 1962; da guinada à esquerda na América Latina às atitudes do governo Bush – é defendido, atacado ou explicado pelo próprio em 27 capítulos com perguntas e respostas.

Fidel Castro se revela dono de uma memória prodigiosa (a entrevista ocorreu em 2005). Tem números, datas, nomes e diálogos na ponta da língua. Demonstra seu profundo amor pelo país, pelo povo e pelas idéias que o fizeram construir uma nação calcada sobre valores bem diferentes daqueles que norteiam o império norte-americano de George Bush.

A eterna farda verde-oliva, que na última década ele vinha abandonando em encontros oficiais, não poderia ser mais perfeita ao homem que a veste. Ao hábito, Fidel encontra uma resposta prosaica: “Com o uniforme não preciso colocar gravata todos os dias...”. Mas não é só isso. Ao longo de todo o livro, ele demonstra ser um estrategista militar. Não seria diferente para um líder que iniciou a revolução com sete fuzis e derrotou um exército de 80 mil homens.

Hoje, exatamente, completam-se 48 anos da revolução cubana. Mas o que de tão especial haveria nesse sujeito para que se tornasse o líder que é, atravessando dez diferentes governantes norte-americanos e sobrevivendo ao duro – e condenado – embargo comercial decretado em 1962 e que impede a melhoria de vida do povo cubano? Ingênuo crer que seria um único motivo.

Filho de um latifundiário, Fidel não teve uma vida de sutilezas e delícias na fazenda. Ainda menino, foi enviado a Santiago de Cuba para estudar.

Morava na casa de uma professora, onde passou fome e sequer foi mandado à escola. Mais tarde, estudou em internato de jesuítas. E não foram poucas as vezes em que seu espírito rebelde se manifestou.

Na cidade, porém, vislumbrou um mundo maior – e mais injusto. Quando entrou na faculdade de Direito, julgava-se um “ignorante político”. Foi ali, no entanto, que se aproximou mais da política. Foi combater a ditadura de Trujillo na República Dominicana e participou do Bogotazo, na Colômbia, entre outras atividades, até chegar ao famoso assalto ao Quartel Moncada. Fidel revela, nesta entrevista, que queria assaltar outro quartel, imediatamente após a frustrada operação.

Tenaz, foi preparar a revolução no México, onde conheceu o argentino Che Guevara, do qual fala com enorme admiração e a quem tentou advertir sobre os riscos de uma operação na Bolívia, onde Che foi assassinado em 1967.

Fidel parece possuir mais vidas que um gato. Poderia ter morrido em Moncada, após o desembarque do Granma ou nos mais de 600 atentados que o próprio contabiliza. Ele relata um dos episódios mais dramáticos, após o desembarque na ilha, quando adormece num canavial sob uma rajada de tiros disparados desde os aviões de Batista.

Quando parecia que haviam triunfado, os revolucionários viram que governar seria bem mais complicado. Fidel por um bom tempo administrou um barril de pólvora. A crise dos mísseis em 1962 quase fez o mundo ir pelos ares e Fidel não poupa críticas à atitude dos soviéticos que sequer o envolveu nas negociações. Também aponta uma atitude irresponsável e sabotadora dos Estados Unidos em relação às crises migratórias – como a de Mariel, em 1980, quando milhares de “balseros” se lançaram no mar rumo à Flórida.

Apesar de sua incontestável liderança e carisma, recusa qualquer tipo de personalismo. Não há uma avenida ou edifício com seu nome em Cuba nem qualquer retrato oficial. Só lhe interessa manter os princípios da revolução. Idéias que ele acredita serem imortais.

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