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Fomo, carência bem real


Marcela Munhoz
Do Diário do Grande ABC

05/06/2011 | 07:00


Quando as redes sociais não existiam, não tinha essa de ficar trocando de balada só porque alguém avisou pela rede que a outra estava mais legal. As fofocas rolavam solta só no dia seguinte. Quem foi, aproveitou. Quem não foi, perdeu!

"Hoje as possibilidades são tantas que quanto mais informações e opções, mais difícil é decidir. É tentador e ao mesmo tempo confuso. Fica fácil perder o controle", alerta o psicólogo Cristiano Nabuco de Abreu, do Núcleo de Dependentes em Internet do Hospital das Clínicas. É aí que surge aquela angústia de que poderia estar fazendo algo tão bacana quanto o amigo virtual. Tem-se a sensação de que todo mundo está curtindo mais e é bem mais feliz do que você.

Alguns especialistas estão chamando esta eterna insatisfação de Fomo, que vem do termo em inglês Fear of Missing Out (Medo de Perder Algo). "É a vontade de querer tudo e agora, ao mesmo tempo. Esta geração tem dificuldade de abrir mão de uma coisa por outra", explica o psicólogo Guilherme Ohl, do Núcleo de Pesquisa em Psicologia e Informática da PUC.

O problema é que, quando a grande atração da noite é o que rola no mundo virtual, fica impossível aproveitar o momento e as pessoas de verdade. Quantas vezes você já não viu (ou até fez igual) gente mais preocupada em gravar o show inteirinho pelo celular ou máquina fotográfica do que aproveitar a música do artista que está ali ao vivo?

O mesmo é observado enquanto rola um encontro familiar bacana e o participante está mais interessado em ver quem atualizou as fotos ou acompanhar o que a galera está fazendo. "É a tentativa de fazer com que o mundo virtual seja bem mais interessante do que o real", ressalta Ohl. "Quando alguém acorda no meio da noite para checar mensagens e tem dificuldades de se desconectar do mundo virtual, é porque precisa de ajuda", explica.

Para Nabuco, o termo Fomo é só mais uma invenção. O que importa é que a internet não é a grande culpada por tudo isso. "Na verdade, é o palco da vez para nossos problemas. Quem já era ansioso, invejoso, exibicionista, inseguro, depressivo, tímido e com baixa autoestima antes da internet, vai continuar sendo só que de forma potencializada."

 

Sorriso a cada curtir - Na era da geração Big Brother, em que a exposição já faz parte da rotina - assim como estudar e escovar os dentes -, a gente sente necessidade incontrolável de participar de um grupo e, principalmente, ser aprovado por ele. Tem quem só aceita mais amigos - mesmo sem conhecê-los - para ser popular. E mais: tem quem troque de gosto ou minta sobre algo - como bombar a balada, mesmo que não esteja tudo isso - só para se sentir querido e ganhar ‘Curtir' (no Face) e ‘RT' (no Twitter).

"O mundo virtual é baseado na capacidade de fazer tudo sem custo algum, além do anonimato, da possibilidade de ser quem não é e do fácil acesso. Por isso, para alguns, a mentira acaba virando uma coisa normal", explica o psicólogo Cristiano Nabuco.

O exibicionismo também faz parte do jogo. Quer mais do que a enorme quantidade de fotos que as pessoas publicam todos os dias na internet? Todas têm uma coisa em comum: são tiradas dos melhores ângulos e de momentos mais legais. Ninguém posta uma imagem com o cabelo desarrumado, de uma vibe deprê ou balada desanimada.

Realmente ninguém é tão feio quanto na foto 3x4, nem tão bonito quanto no Face, nem tão interessante quanto no Twitter. "O mundo virtual é bem mais legal. A gente está sempre feliz, mesmo que não esteja. Também ajuda a se comunicar melhor; pessoalmente, sou bem mais tímida", confessa Natalia Poltronieri, 15 anos.

 

Muito cuidado com o vício - O Brasil tem 56 milhões de internautas. Calcula-se que 4,5 milhões apresentem sintomas de dependência. Muitos especialistas chegam a comparar a dependência tecnológica com a de drogas, com a diferença de que a primeira é comportamental e a segunda, química.

Vicia porque, além do virtual ser mais interessante, a enorme quantidade de informações deixa o cérebro sempre alerta. A combinação dos dois satisfaz o desejo humano de ter sempre companhia e interação social. Para ser considerado dependente eletrônico é preciso se encaixar, no mínimo, em cinco dos oito itens abaixo.

Se responder sim para mais do que cinco, procure ajuda: Dependentes em Internet do Hospital das Clínicas (3069-6975), Orientação e Atendimento a Dependentes da Unifesp (5579-1543) e Núcelo de Psicologia e Informática da PUC (3670-8497). Confira:

Preocupação excessiva com o que rola na web;

Necessidade de ficar sempre mais tempo conectado para se sentir satisfeito;

Tem de se esforçar para ficar menos tempo ligado;

Permanece mais tempo do que o combinado e programado;

Mente sobre a quantidade de horas que fica na rede;

Fica irritado/depressivo quando não há como entrar em conexão;

Usa a internet para se sentir mais feliz;

Afastou-se das relações sociais e familiares.

 

24 horas ligado - "Participo de todas as redes sociais, mas não gosto de colocar foto, só informações. Já saí de uma festa para ir a outra só porque vi pela internet que estava bombando. É ruim porque, de tão conectado, posso estar perdendo a oportunidade de conhecer gente nova. Quando não consigo entrar na web, me sinto angustiado e desatualizado." Leonardo Duarte, 16.

 

Sempre tem mais - Já fiquei acompanhando os comentários pelas redes sociais de uma festa que tinha comprado ingresso, mas não pude ir. Fico conectada de manhã até de madrugada e faço várias coisas ao mesmo tempo. Por mais que tenha conversado na escola, sempre tem mais para fofocar. Gosto quando as pessoas curtem o que posto." Natalia Poltronieri, 15.

 

Gosto que me vejam - "O que mais faço é acompanhar as notícias dos amigos na net. Sigo vários grupos, como o da antiga escola e cursos. Quando não estou em casa, costumo ficar ligada pelo celular. Tenho curiosidade de saber o que os outros estão fazendo e também gosto que as pessoas me vejam. Ficaria muito angustiada se não pudesse me conectar." Carolina Cavalcante, 16.



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Fomo, carência bem real

Marcela Munhoz
Do Diário do Grande ABC

05/06/2011 | 07:00


Quando as redes sociais não existiam, não tinha essa de ficar trocando de balada só porque alguém avisou pela rede que a outra estava mais legal. As fofocas rolavam solta só no dia seguinte. Quem foi, aproveitou. Quem não foi, perdeu!

"Hoje as possibilidades são tantas que quanto mais informações e opções, mais difícil é decidir. É tentador e ao mesmo tempo confuso. Fica fácil perder o controle", alerta o psicólogo Cristiano Nabuco de Abreu, do Núcleo de Dependentes em Internet do Hospital das Clínicas. É aí que surge aquela angústia de que poderia estar fazendo algo tão bacana quanto o amigo virtual. Tem-se a sensação de que todo mundo está curtindo mais e é bem mais feliz do que você.

Alguns especialistas estão chamando esta eterna insatisfação de Fomo, que vem do termo em inglês Fear of Missing Out (Medo de Perder Algo). "É a vontade de querer tudo e agora, ao mesmo tempo. Esta geração tem dificuldade de abrir mão de uma coisa por outra", explica o psicólogo Guilherme Ohl, do Núcleo de Pesquisa em Psicologia e Informática da PUC.

O problema é que, quando a grande atração da noite é o que rola no mundo virtual, fica impossível aproveitar o momento e as pessoas de verdade. Quantas vezes você já não viu (ou até fez igual) gente mais preocupada em gravar o show inteirinho pelo celular ou máquina fotográfica do que aproveitar a música do artista que está ali ao vivo?

O mesmo é observado enquanto rola um encontro familiar bacana e o participante está mais interessado em ver quem atualizou as fotos ou acompanhar o que a galera está fazendo. "É a tentativa de fazer com que o mundo virtual seja bem mais interessante do que o real", ressalta Ohl. "Quando alguém acorda no meio da noite para checar mensagens e tem dificuldades de se desconectar do mundo virtual, é porque precisa de ajuda", explica.

Para Nabuco, o termo Fomo é só mais uma invenção. O que importa é que a internet não é a grande culpada por tudo isso. "Na verdade, é o palco da vez para nossos problemas. Quem já era ansioso, invejoso, exibicionista, inseguro, depressivo, tímido e com baixa autoestima antes da internet, vai continuar sendo só que de forma potencializada."

 

Sorriso a cada curtir - Na era da geração Big Brother, em que a exposição já faz parte da rotina - assim como estudar e escovar os dentes -, a gente sente necessidade incontrolável de participar de um grupo e, principalmente, ser aprovado por ele. Tem quem só aceita mais amigos - mesmo sem conhecê-los - para ser popular. E mais: tem quem troque de gosto ou minta sobre algo - como bombar a balada, mesmo que não esteja tudo isso - só para se sentir querido e ganhar ‘Curtir' (no Face) e ‘RT' (no Twitter).

"O mundo virtual é baseado na capacidade de fazer tudo sem custo algum, além do anonimato, da possibilidade de ser quem não é e do fácil acesso. Por isso, para alguns, a mentira acaba virando uma coisa normal", explica o psicólogo Cristiano Nabuco.

O exibicionismo também faz parte do jogo. Quer mais do que a enorme quantidade de fotos que as pessoas publicam todos os dias na internet? Todas têm uma coisa em comum: são tiradas dos melhores ângulos e de momentos mais legais. Ninguém posta uma imagem com o cabelo desarrumado, de uma vibe deprê ou balada desanimada.

Realmente ninguém é tão feio quanto na foto 3x4, nem tão bonito quanto no Face, nem tão interessante quanto no Twitter. "O mundo virtual é bem mais legal. A gente está sempre feliz, mesmo que não esteja. Também ajuda a se comunicar melhor; pessoalmente, sou bem mais tímida", confessa Natalia Poltronieri, 15 anos.

 

Muito cuidado com o vício - O Brasil tem 56 milhões de internautas. Calcula-se que 4,5 milhões apresentem sintomas de dependência. Muitos especialistas chegam a comparar a dependência tecnológica com a de drogas, com a diferença de que a primeira é comportamental e a segunda, química.

Vicia porque, além do virtual ser mais interessante, a enorme quantidade de informações deixa o cérebro sempre alerta. A combinação dos dois satisfaz o desejo humano de ter sempre companhia e interação social. Para ser considerado dependente eletrônico é preciso se encaixar, no mínimo, em cinco dos oito itens abaixo.

Se responder sim para mais do que cinco, procure ajuda: Dependentes em Internet do Hospital das Clínicas (3069-6975), Orientação e Atendimento a Dependentes da Unifesp (5579-1543) e Núcelo de Psicologia e Informática da PUC (3670-8497). Confira:

Preocupação excessiva com o que rola na web;

Necessidade de ficar sempre mais tempo conectado para se sentir satisfeito;

Tem de se esforçar para ficar menos tempo ligado;

Permanece mais tempo do que o combinado e programado;

Mente sobre a quantidade de horas que fica na rede;

Fica irritado/depressivo quando não há como entrar em conexão;

Usa a internet para se sentir mais feliz;

Afastou-se das relações sociais e familiares.

 

24 horas ligado - "Participo de todas as redes sociais, mas não gosto de colocar foto, só informações. Já saí de uma festa para ir a outra só porque vi pela internet que estava bombando. É ruim porque, de tão conectado, posso estar perdendo a oportunidade de conhecer gente nova. Quando não consigo entrar na web, me sinto angustiado e desatualizado." Leonardo Duarte, 16.

 

Sempre tem mais - Já fiquei acompanhando os comentários pelas redes sociais de uma festa que tinha comprado ingresso, mas não pude ir. Fico conectada de manhã até de madrugada e faço várias coisas ao mesmo tempo. Por mais que tenha conversado na escola, sempre tem mais para fofocar. Gosto quando as pessoas curtem o que posto." Natalia Poltronieri, 15.

 

Gosto que me vejam - "O que mais faço é acompanhar as notícias dos amigos na net. Sigo vários grupos, como o da antiga escola e cursos. Quando não estou em casa, costumo ficar ligada pelo celular. Tenho curiosidade de saber o que os outros estão fazendo e também gosto que as pessoas me vejam. Ficaria muito angustiada se não pudesse me conectar." Carolina Cavalcante, 16.

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