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Polêmico e politicamente ativo


Ricardo Lísias
Especial para o Diário

06/06/2006 | 08:36


Autor de uma obra gigantesca, que vai do manifesto político, passando pela filosofia contemporânea à poesia, e que chega à sociologia da ciência, o português Boaventura de Souza Santos é um nome polêmico. Além de ser politicamente muito ativo (participando, por exemplo, dos Fóruns Sociais Mundiais com bastante freqüência), o que sempre torna o intelectual alvo de controvérsia, Santos refletiu com cuidado e inteligência sobre um tema que, ainda hoje, é tabu: o do conhecimento científico. Ao discutir o livro Introdução a uma ciência pós-moderna, os Seminários avançados fogem um pouco da linha que vinham seguindo, mas continua tocando no eixo central da discussão, o jogo dos paradigmas no mundo contemporâneo.

Logo de início, Santos apresenta a distinção entre conhecimento e senso comum e demonstra como esse último, tendo sido lido a partir dos parâmetros do primeiro, acaba sempre diminuído e menosprezado. Depois de um exame dos modelos sociológicos e do percurso que teriam tomado das ciências sociais rumo às naturais, e também da análise das diferenças entre ciência e tecnologia (ou seja, conhecimento e aplicação), o livro parte para um exame do universo científico, observando como ele também, como toda comunidade, está sujeito a contextos e determinações.

Logo fica claro que um dos problemas da ciência moderna era a separação entre o desenvolvimento científico e sua aplicação, o que afastava o discurso científico de qualquer preocupação ética. Além disso, o discurso científico moderno colocava-se como socialmente superior, ou ao menos distinto, dos outros discursos da sociedade, muito justamente porque não via motivos para se colocar em debate.

Boaventura de Souza Santos propõe outro paradigma em que, agora, a ciência daria destaque semelhante à descoberta e à aplicação, o que tornaria seu discurso sobretudo ético. Seria esse o cerne da ciência pós-moderna que dá título ao livro. A proposta ainda insiste na contextualização do cientista como uma figura que participa de comunidades mais amplas e, assim, inevitavelmente é obrigado a tomar partido e zelar pelo equilíbrio do poder. Já ficou claro que para o pós-modernismo também a ciência, antes "protegida" desse tipo de debate, é um discurso político.

Tal transformação permitiria que a ciência desenvolvesse um know-how ético que teria papel fundamental na aplicação dos conflitos. A solução de tais conflitos, sempre provisória, deverá focar a aplicação consciente do conhecimento científico, nunca esquecendo que o fim e o começo são parte de um mesmo processo. No caso, uma das razões da polêmica do pensamento de Boaventura de Souza Santos está justamente na proposta de que haja um trânsito que parta das comunidades científicas, sempre muito fechadas e auto-complacentes, para o exterior, amplo e de interesses múltiplos. Por fim, fica claro que o pensamento pós-moderno entende o discurso científico, mesmo com suas especificidades e exigências próprias, apenas como mais um discurso, sem qualquer privilégio hierárquico.

Vale destacar ainda que Boaventura de Souza Santos publicou também alguns volumes de poesia, um deles, inclusive, com um manifesto curioso: “a escrita INKZ”. Mais do que estimar o alcance estético de seus versos – que possivelmente não será curto – tal atividade obviamente anuncia outra característica do nosso tempo, aquele que sustenta o intelectual como um manipulador de diversos gêneros diferentes, muitas vezes os confundindo ou, mais, diluindo-os.



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Polêmico e politicamente ativo

Ricardo Lísias
Especial para o Diário

06/06/2006 | 08:36


Autor de uma obra gigantesca, que vai do manifesto político, passando pela filosofia contemporânea à poesia, e que chega à sociologia da ciência, o português Boaventura de Souza Santos é um nome polêmico. Além de ser politicamente muito ativo (participando, por exemplo, dos Fóruns Sociais Mundiais com bastante freqüência), o que sempre torna o intelectual alvo de controvérsia, Santos refletiu com cuidado e inteligência sobre um tema que, ainda hoje, é tabu: o do conhecimento científico. Ao discutir o livro Introdução a uma ciência pós-moderna, os Seminários avançados fogem um pouco da linha que vinham seguindo, mas continua tocando no eixo central da discussão, o jogo dos paradigmas no mundo contemporâneo.

Logo de início, Santos apresenta a distinção entre conhecimento e senso comum e demonstra como esse último, tendo sido lido a partir dos parâmetros do primeiro, acaba sempre diminuído e menosprezado. Depois de um exame dos modelos sociológicos e do percurso que teriam tomado das ciências sociais rumo às naturais, e também da análise das diferenças entre ciência e tecnologia (ou seja, conhecimento e aplicação), o livro parte para um exame do universo científico, observando como ele também, como toda comunidade, está sujeito a contextos e determinações.

Logo fica claro que um dos problemas da ciência moderna era a separação entre o desenvolvimento científico e sua aplicação, o que afastava o discurso científico de qualquer preocupação ética. Além disso, o discurso científico moderno colocava-se como socialmente superior, ou ao menos distinto, dos outros discursos da sociedade, muito justamente porque não via motivos para se colocar em debate.

Boaventura de Souza Santos propõe outro paradigma em que, agora, a ciência daria destaque semelhante à descoberta e à aplicação, o que tornaria seu discurso sobretudo ético. Seria esse o cerne da ciência pós-moderna que dá título ao livro. A proposta ainda insiste na contextualização do cientista como uma figura que participa de comunidades mais amplas e, assim, inevitavelmente é obrigado a tomar partido e zelar pelo equilíbrio do poder. Já ficou claro que para o pós-modernismo também a ciência, antes "protegida" desse tipo de debate, é um discurso político.

Tal transformação permitiria que a ciência desenvolvesse um know-how ético que teria papel fundamental na aplicação dos conflitos. A solução de tais conflitos, sempre provisória, deverá focar a aplicação consciente do conhecimento científico, nunca esquecendo que o fim e o começo são parte de um mesmo processo. No caso, uma das razões da polêmica do pensamento de Boaventura de Souza Santos está justamente na proposta de que haja um trânsito que parta das comunidades científicas, sempre muito fechadas e auto-complacentes, para o exterior, amplo e de interesses múltiplos. Por fim, fica claro que o pensamento pós-moderno entende o discurso científico, mesmo com suas especificidades e exigências próprias, apenas como mais um discurso, sem qualquer privilégio hierárquico.

Vale destacar ainda que Boaventura de Souza Santos publicou também alguns volumes de poesia, um deles, inclusive, com um manifesto curioso: “a escrita INKZ”. Mais do que estimar o alcance estético de seus versos – que possivelmente não será curto – tal atividade obviamente anuncia outra característica do nosso tempo, aquele que sustenta o intelectual como um manipulador de diversos gêneros diferentes, muitas vezes os confundindo ou, mais, diluindo-os.

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