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Para onde vai o sangue que doamos


Rodrigo Cipriano
Do Diário do Grande ABC

06/11/2005 | 07:43


Mês passado, Maria Conceição Monteiro, 91 anos, foi submetida a uma transfusão de sangue. Estava com anemia, proveniente de uma gastrite, e foi internada no Hospital Assunção, em São Bernardo. “Nem por sonho passava por minha cabeça que poderia precisar de sangue”, conta a aposentada.

Maria Conceição é a ponta final de um longo processo de tratamento. Antes de chegar à dona Maria o sangue foi fracionado. Ou seja, dividido em compostos destinados a diferentes tratamentos. Hemácias, que reforçam as defesas do organismo, são usadas em pacientes que serão submetidos a cirurgia ou que, como a dona Maria, estão com anemia. Plaquetas, responsáveis pela cicatrização, valem ouro para aqueles que têm problemas na medula ou têm cancer tratado por radioterapia.

Para se ter idéia da importância desse composto, há um tipo de doação só de plaquetas. O processo é bem mais demorado que uma doação de sangue simples. Leva em torno de uma hora e meia e é feito numa máquina parecida com a de diálise. Os requisitos para esse tipo de doação são os mesmos de uma coleta tradicional. A única exigência a mais é de que o doador tenha pelo menos 150 mil plaquetas por milímetro cúbico de sangue – nível considerado normal para uma pessoa saudável.


Em todo Grande ABC, existe apenas uma máquina que faz esse processo de coleta. Fica no Hospital Estadual de Santo André, o Mário Covas. A quantidade de plaquetas obtida nesse processo é sete vezes maior que o conseguido através da doação tradicional, pelo fracionamento. “Poucas pessoas sabem de todo esse processo. A maioria pensa que o sangue doado segue direto para o receptor”, diz Fábio Lima Lino, responsável técnico pelo banco de sangue do Mário Covas.

O banco recebe em torno de 1,3 mil doações ao mês. Desse total, entre 1 mil e 1,1 mil são aproveitadas. O material perdido é a média de doações que não atendem aos padrões de qualidade do hemograma, espécie de raio X pelo qual toda bolsa de sangue é submetida. A rejeição, na maioria das vezes, se dá pela omissão de doenças ou medicamentos que o doador esteja tomando.

E a lista de restrição é grande. A maioria dos remédios para tratamento cardíaco altera a qualidade do sangue. Doenças como hepatite, malária, diabetes e, é claro, Aids, também inviabilizam o aproveitamento do sangue. Todo esse perfil é rastreado antes da doação, durante uma entrevista. Cerca de um mês após a coleta, o doador recebe uma carteirinha com seu tipo sangüíneo e as doenças das quais ele eventualmente seja portador.

Para Fábio Lino, responsável pelo banco de sangue do hospital Mário Covas, o número de doadores só não é maior por conta dos “mitos” criados em torno da doação. “É uma porção de histórias que estão mais do que provadas que não condizem com a realidade. O risco de pegar doenças, que o sangue engrossa. Tudo isso gera ansiedade no possível doador”, afirma Lino.


E se no Hospital Mário Covas, responsável pela distribuição de sangue para toda rede pública de saúde do Grande ABC, o número de doações é suficiente, outros centros de coleta amargam as conseqüências do preconceito. Os hemocentros do hospitais Brasil, em Santo André, e São Bernardo, na cidade vizinha, sofrem com a falta de doadores.

Responsáveis pela distribuição de sangue para a rede particular de saúde da região, os dois centros, juntos, recebem por mês cerca de 1,4 mil doações – 500 a menos que o necessário. Mas para toda regra há exceções. O estudante de engenharia Gerson Falopa Filho, 22 anos, doou sangue pela primeira vez aos 18. Não parou mais. Tornou-se um dos doadores de sangue mais assíduos do Hospital Mário Covas.

Gerson nunca precisou de uma transfusão de sangue. Nunca teve familiares ou amigos em situação de risco, à merce de doações. Sua motivação é a certeza de que ao doar sangue ele pode ajudar a salvar outras vidas. “As pessoas sabem disso, mas acho que têm medo de doar. Bobagem, não dói nada e é super-seguro.” A estimativa é de que apenas 30% dos doadores dos bancos de sangue repitam o ritual com freqüência. O restante das coletas é feita de maneira esporádica. E, na maioria dos casos, a pessoa faz uma única doação. Nunca mais volta ao hemocentro.

O que mais impressiona é que o Hospital Mário Covas, onde o estudante de engenharia faz suas doações, fica cerca de 40 minutos distante, de carro, da Vila Formosa, em São Paulo, onde Gerson mora com a família. “Mesmo assim vale a pena”, afirma. Sorte do hemocentro, que distribui o sangue recolhido para toda a rede pública de saúde do Grande ABC. Isso porque o tipo sangüíneo de Gerson é O-, conhecido como doador universal. Na prática, qualquer pessoa, sem restrição, pode receber seu sangue.

 Colaborou Gabriel Batista


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Para onde vai o sangue que doamos

Rodrigo Cipriano
Do Diário do Grande ABC

06/11/2005 | 07:43


Mês passado, Maria Conceição Monteiro, 91 anos, foi submetida a uma transfusão de sangue. Estava com anemia, proveniente de uma gastrite, e foi internada no Hospital Assunção, em São Bernardo. “Nem por sonho passava por minha cabeça que poderia precisar de sangue”, conta a aposentada.

Maria Conceição é a ponta final de um longo processo de tratamento. Antes de chegar à dona Maria o sangue foi fracionado. Ou seja, dividido em compostos destinados a diferentes tratamentos. Hemácias, que reforçam as defesas do organismo, são usadas em pacientes que serão submetidos a cirurgia ou que, como a dona Maria, estão com anemia. Plaquetas, responsáveis pela cicatrização, valem ouro para aqueles que têm problemas na medula ou têm cancer tratado por radioterapia.

Para se ter idéia da importância desse composto, há um tipo de doação só de plaquetas. O processo é bem mais demorado que uma doação de sangue simples. Leva em torno de uma hora e meia e é feito numa máquina parecida com a de diálise. Os requisitos para esse tipo de doação são os mesmos de uma coleta tradicional. A única exigência a mais é de que o doador tenha pelo menos 150 mil plaquetas por milímetro cúbico de sangue – nível considerado normal para uma pessoa saudável.


Em todo Grande ABC, existe apenas uma máquina que faz esse processo de coleta. Fica no Hospital Estadual de Santo André, o Mário Covas. A quantidade de plaquetas obtida nesse processo é sete vezes maior que o conseguido através da doação tradicional, pelo fracionamento. “Poucas pessoas sabem de todo esse processo. A maioria pensa que o sangue doado segue direto para o receptor”, diz Fábio Lima Lino, responsável técnico pelo banco de sangue do Mário Covas.

O banco recebe em torno de 1,3 mil doações ao mês. Desse total, entre 1 mil e 1,1 mil são aproveitadas. O material perdido é a média de doações que não atendem aos padrões de qualidade do hemograma, espécie de raio X pelo qual toda bolsa de sangue é submetida. A rejeição, na maioria das vezes, se dá pela omissão de doenças ou medicamentos que o doador esteja tomando.

E a lista de restrição é grande. A maioria dos remédios para tratamento cardíaco altera a qualidade do sangue. Doenças como hepatite, malária, diabetes e, é claro, Aids, também inviabilizam o aproveitamento do sangue. Todo esse perfil é rastreado antes da doação, durante uma entrevista. Cerca de um mês após a coleta, o doador recebe uma carteirinha com seu tipo sangüíneo e as doenças das quais ele eventualmente seja portador.

Para Fábio Lino, responsável pelo banco de sangue do hospital Mário Covas, o número de doadores só não é maior por conta dos “mitos” criados em torno da doação. “É uma porção de histórias que estão mais do que provadas que não condizem com a realidade. O risco de pegar doenças, que o sangue engrossa. Tudo isso gera ansiedade no possível doador”, afirma Lino.


E se no Hospital Mário Covas, responsável pela distribuição de sangue para toda rede pública de saúde do Grande ABC, o número de doações é suficiente, outros centros de coleta amargam as conseqüências do preconceito. Os hemocentros do hospitais Brasil, em Santo André, e São Bernardo, na cidade vizinha, sofrem com a falta de doadores.

Responsáveis pela distribuição de sangue para a rede particular de saúde da região, os dois centros, juntos, recebem por mês cerca de 1,4 mil doações – 500 a menos que o necessário. Mas para toda regra há exceções. O estudante de engenharia Gerson Falopa Filho, 22 anos, doou sangue pela primeira vez aos 18. Não parou mais. Tornou-se um dos doadores de sangue mais assíduos do Hospital Mário Covas.

Gerson nunca precisou de uma transfusão de sangue. Nunca teve familiares ou amigos em situação de risco, à merce de doações. Sua motivação é a certeza de que ao doar sangue ele pode ajudar a salvar outras vidas. “As pessoas sabem disso, mas acho que têm medo de doar. Bobagem, não dói nada e é super-seguro.” A estimativa é de que apenas 30% dos doadores dos bancos de sangue repitam o ritual com freqüência. O restante das coletas é feita de maneira esporádica. E, na maioria dos casos, a pessoa faz uma única doação. Nunca mais volta ao hemocentro.

O que mais impressiona é que o Hospital Mário Covas, onde o estudante de engenharia faz suas doações, fica cerca de 40 minutos distante, de carro, da Vila Formosa, em São Paulo, onde Gerson mora com a família. “Mesmo assim vale a pena”, afirma. Sorte do hemocentro, que distribui o sangue recolhido para toda a rede pública de saúde do Grande ABC. Isso porque o tipo sangüíneo de Gerson é O-, conhecido como doador universal. Na prática, qualquer pessoa, sem restrição, pode receber seu sangue.

 Colaborou Gabriel Batista

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