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O alerta da ciência

A revista científica Nature acaba de divulgar dois novos estudos científicos que associam a emissão de gases


Wilson Marini

21/02/2011 | 00:00


 A revista científica Nature acaba de divulgar dois novos estudos científicos que associam a emissão de gases estufa produzidos pela industrialização e a probabilidade de precipitação pesada e consequente risco de enchentes.

Esse tem sido um tema polêmico e que tem gerado investimentos elevados em pesquisas noExterior. Avaliar até que ponto as tragédias naturais como as enchentes podem ter causas recentes ligadas à interferência humana e não são apenas cíclicas. Isso ajudaria a prevenir a repetição de problemas.

Céticos de todos os lados, inclusive parcela considerável dos cientistas, alegam que grandes fenômenos naturais com chuvas, assim como terremotos, maremotos e tsunamis, sempre ocorreram e que seriam necessários mais estudos antes de se culpar definitivamente a atual civilização pelo que ocorre de drástico na natureza.

A tradição cristã associada ao dilúvio ajudou a cristalizar esse conceito. Afinal, ao tempo de Noé e de sua barcaça salvadora, não existiam indústrias, automóveis e nem a população do planeta era na escala de bilhões. E porque choveu tanto, 40 dias e 40 noites, sem parar?, perguntam os céticos.

A razão principal desse comportamento de incredulidade é o excesso de rigor dos fundamentos da ciência cartesiana, baseada na lógica, segundo a qual seria necessária uma série histórica mais longa (algumas décadas, talvez) antes de se estabelecer uma relação de causa e efeito entre ação do homem e alterações nos padrões meteorológicos construídos ao longo de milênios.

Aos poucos, porém, a própria ciência, que é dinâmica, vai desmistificando a questão e trazendo novos dados que apontam na direção da responsabilidade do homem sobre o seu futuro nesta e nas próximas gerações. Daí a importância de estudos como os divulgados esta semana.

A esse respeito, diz o secretário municipal do Verde e do Meio Ambiente de São Paulo, médico sanitarista Eduardo Jorge Martins Alves Sobrinho: "É certo que não se pode ligar os temporais dos últimos anos mecanicamente ao aquecimento global, mas é certo também que eventos deste tipo serão cada vez mais frequentes com a atual tendência de subida da temperatura".

Efeito estufa

As pesquisas mencionadas pela Nature na quinta-feira (17/2) reforçam a importância da participação humana em eventos climáticos extremos. As informações foram divulgadas pela agência Fapesp, de São Paulo, especializada em divulgação científica, segundo a qual "o excesso de chuva em áreas urbanizadas pode ter efeitos dramáticos para as populações locais, como se vê todo verão em alguma região do Brasil".

O Interior de São Paulo que o diga. Poucas são as cidades médias que escapam do verão sem algum grande evento -- enchentes, inundações, deslizamentos e muitas vezes, mortes. O que era exceção até há alguns anos se transformou num padrão que tende a se repetir, e cada vez com maior intensidade. Esse é o alerta que vêm da ciência.

De acordo com pesquisadores canadenses citados por Nature, os aumentos induzidos pelo homem na emissão de gases que causam o efeito estufa contribuíram para o aumento nos eventos de precipitação pesada observados em cerca de dois terços das áreas analisadas na última metade do século 20. Outro estudo, da Universidade Oxford, indica que as emissões antropogênicas no século 20 aumentaram o risco de enchentes no Reino Unido em mais de 90%.

Solo permeável

As nossas cidades sofrem hoje erros de planejamento no passado. O crescimento da população, a ocupação de áreas impróprias para habitação e sem infra-estrutura e as mudanças climáticas, tornam necessária e urgente a tomada de medidas do Poder Público. Cidades do Interior se orgulhavam até recentemente quando atingiam índices altos de asfaltamento das vias, pois isso era sinal de "progresso". Araçatuba chegou a se auto-denominar "capital do asfalto", mas não é a única. Agora, sofre a maioria delas para tapar os buracos e conter as águas das enxurradas.

Legislação local

Os códigos de uso do solo deixaram de prever medidas simples, que facilitariam a absorção da água pelo solo, como a previsão de "calçadas ecológicas", o plantio maciço de árvores, a formação de bosques naturais em plena área urbana e ao seu redor (como os dois bosques na área central de Maringá, no Paraná) e a reserva de áreas naturais em novas obras públicas e privadas. São medidas que não dependem da mãe natureza, da globalização e nem dos governos federal ou estadual. A visão deve ser global, mas a ação é local. Prefeitos, secretários municipais e vereadores têm a autoridade e o dever de legislar e executar novas políticas públicas para aumentar a permeabilidade em suas cidades. Vão esperar quanto tempo mais para se mexer? Tudo isso, além da conscientização dos moradores em relação à atitudes cidadãs como a preservação dos bueiros, poderá poupar vítimas e tornar a vida urbana menos traumática nas águas de janeiro, fevereiro e todos os meses.



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O alerta da ciência

A revista científica Nature acaba de divulgar dois novos estudos científicos que associam a emissão de gases

Wilson Marini

21/02/2011 | 00:00


 A revista científica Nature acaba de divulgar dois novos estudos científicos que associam a emissão de gases estufa produzidos pela industrialização e a probabilidade de precipitação pesada e consequente risco de enchentes.

Esse tem sido um tema polêmico e que tem gerado investimentos elevados em pesquisas noExterior. Avaliar até que ponto as tragédias naturais como as enchentes podem ter causas recentes ligadas à interferência humana e não são apenas cíclicas. Isso ajudaria a prevenir a repetição de problemas.

Céticos de todos os lados, inclusive parcela considerável dos cientistas, alegam que grandes fenômenos naturais com chuvas, assim como terremotos, maremotos e tsunamis, sempre ocorreram e que seriam necessários mais estudos antes de se culpar definitivamente a atual civilização pelo que ocorre de drástico na natureza.

A tradição cristã associada ao dilúvio ajudou a cristalizar esse conceito. Afinal, ao tempo de Noé e de sua barcaça salvadora, não existiam indústrias, automóveis e nem a população do planeta era na escala de bilhões. E porque choveu tanto, 40 dias e 40 noites, sem parar?, perguntam os céticos.

A razão principal desse comportamento de incredulidade é o excesso de rigor dos fundamentos da ciência cartesiana, baseada na lógica, segundo a qual seria necessária uma série histórica mais longa (algumas décadas, talvez) antes de se estabelecer uma relação de causa e efeito entre ação do homem e alterações nos padrões meteorológicos construídos ao longo de milênios.

Aos poucos, porém, a própria ciência, que é dinâmica, vai desmistificando a questão e trazendo novos dados que apontam na direção da responsabilidade do homem sobre o seu futuro nesta e nas próximas gerações. Daí a importância de estudos como os divulgados esta semana.

A esse respeito, diz o secretário municipal do Verde e do Meio Ambiente de São Paulo, médico sanitarista Eduardo Jorge Martins Alves Sobrinho: "É certo que não se pode ligar os temporais dos últimos anos mecanicamente ao aquecimento global, mas é certo também que eventos deste tipo serão cada vez mais frequentes com a atual tendência de subida da temperatura".

Efeito estufa

As pesquisas mencionadas pela Nature na quinta-feira (17/2) reforçam a importância da participação humana em eventos climáticos extremos. As informações foram divulgadas pela agência Fapesp, de São Paulo, especializada em divulgação científica, segundo a qual "o excesso de chuva em áreas urbanizadas pode ter efeitos dramáticos para as populações locais, como se vê todo verão em alguma região do Brasil".

O Interior de São Paulo que o diga. Poucas são as cidades médias que escapam do verão sem algum grande evento -- enchentes, inundações, deslizamentos e muitas vezes, mortes. O que era exceção até há alguns anos se transformou num padrão que tende a se repetir, e cada vez com maior intensidade. Esse é o alerta que vêm da ciência.

De acordo com pesquisadores canadenses citados por Nature, os aumentos induzidos pelo homem na emissão de gases que causam o efeito estufa contribuíram para o aumento nos eventos de precipitação pesada observados em cerca de dois terços das áreas analisadas na última metade do século 20. Outro estudo, da Universidade Oxford, indica que as emissões antropogênicas no século 20 aumentaram o risco de enchentes no Reino Unido em mais de 90%.

Solo permeável

As nossas cidades sofrem hoje erros de planejamento no passado. O crescimento da população, a ocupação de áreas impróprias para habitação e sem infra-estrutura e as mudanças climáticas, tornam necessária e urgente a tomada de medidas do Poder Público. Cidades do Interior se orgulhavam até recentemente quando atingiam índices altos de asfaltamento das vias, pois isso era sinal de "progresso". Araçatuba chegou a se auto-denominar "capital do asfalto", mas não é a única. Agora, sofre a maioria delas para tapar os buracos e conter as águas das enxurradas.

Legislação local

Os códigos de uso do solo deixaram de prever medidas simples, que facilitariam a absorção da água pelo solo, como a previsão de "calçadas ecológicas", o plantio maciço de árvores, a formação de bosques naturais em plena área urbana e ao seu redor (como os dois bosques na área central de Maringá, no Paraná) e a reserva de áreas naturais em novas obras públicas e privadas. São medidas que não dependem da mãe natureza, da globalização e nem dos governos federal ou estadual. A visão deve ser global, mas a ação é local. Prefeitos, secretários municipais e vereadores têm a autoridade e o dever de legislar e executar novas políticas públicas para aumentar a permeabilidade em suas cidades. Vão esperar quanto tempo mais para se mexer? Tudo isso, além da conscientização dos moradores em relação à atitudes cidadãs como a preservação dos bueiros, poderá poupar vítimas e tornar a vida urbana menos traumática nas águas de janeiro, fevereiro e todos os meses.

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