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Sonhos e brincadeiras da São Caetano dos anos 1960

Metade da década de 1950, tinha eu 14 anos, fui jogar no Vila São José


Ademir Medici
Do Diário do Grande ABC

19/02/2011 | 00:00


Francisco Batista de Oliveira

(Serra Azul (SP) 1925 - São Caetano 8-2-2011)

Hoje quem faz Memória é o jornalista e radialista Oswaldo Lavrado, ex-Diário (rádio e jornal). Ele narra uma estranha aposta, feita quando menino no seu bairro, Vila São José. O epílogo foi confirmado aqui em Memória, quando ele viu no obituário o nome do amigo Francisco Batista de Oliveira.

O texto original foi publicado no Blog do Edward de Souza, igualmente jornalista e radialista que foi nosso colega de Diário e hoje está de volta à sua Franca.

Uma aposta que ninguém queria ganhar

Texto: Oswaldo Lavrado

Metade da década de 1950, tinha eu 14 anos, fui jogar no Vila São José, clube de futebol de São Caetano até hoje existente, cujo vice-presidente Francisco Batista de Oliveira, 15 anos mais velho que eu, era uma espécie de conselheiro e ídolo de todos no clube e no bairro. Chico para uns, Chicão para outros, era um negro alto, forte, nascido em Serra Azul, na região de Ribeirão Preto, entre Serrana e São Simão. Criado em Colina, próximo a São José do Rio Preto, Francisco veio morar em São Caetano em meados dos anos 1940, onde se instalou com os pais e irmãos na Avenida Bela Vista, bairro Belvedere, casou e constituiu família. De postura altiva, tinha como marca o caráter, honestidade, dignidade, ética e moral inabaláveis. Um negrão pedra 90, como se dizia então, para identificar uma pessoa com comportamento e ações quase perfeitas.

Como em todo lugar, os jovens formavam sua batota de amigos mais chegados. Por acaso, ou não, fiquei amigo do Chicão, no grupo formado por Antônio Cola, Pedro Depintor, Kioshi Niushi, José Rossi (Zuza), Antonio Matias de Souza, Luiz Dala Justina e outros. O Chicão, o mais velho, era uma espécie de guru de todos, e eu o mais jovem. As noites de sábado (à época o happy hour era somente nesse dia), as baladas consistiam em pegar um cinema - Vitória, Max ou Lido - todos no Centro de São Caetano, nossa cidade, e hoje extintos e depois uma pizza regada a guaraná ou tubaína na pizzaria Autonomista, onde hoje é a sede da Casas Bahia. Detalhe: nas sessões noturnas dos cinemas os homens só entravam vestidos com terno e gravata.

Pois bem, em uma dessas rodinhas da turma, um sábado à tarde, no Bar do Zezé, principal ponto de encontro na Vila São José, sem assunto melhor, pegamos uma discussão sobre a morte. Bobagem de um grupo que decididamente não tinha algo mais importante a fazer no momento. Alguém levantou a pinimba tipo "acho que você não vai durar muito" e outras ‘previsões' macabras.

Em determinado momento, no pega entre eu e o Chicão, falei: "Você é mais velho, portanto deve morrer primeiro". Totalmente abstêmio e pouco fumante (uma carteira por semana), saúde em dia nos seus 30 anos, Chicão não deixou barato e desafiou: "Vamos apostar então quem morre primeiro". Não ficou definido o objeto da aposta e nem poderia. Um absurdo, pois certamente nenhum dos dois queria ganhar e muito menos perder. E o derrotado, como pagaria? Todos nos divertimos com a brincadeira que deveria ser solenemente esquecida na sequência. O assunto jamais foi ventilado pela cretinice do tema, porém ficou, em silêncio, incrustado na memória de ambos.

O tempo passou, cheguei à presidência do Vila São José, Chicão afastou-se do clube, mudei para São Bernardo, onde estou até hoje, e nosso contato desapareceu quase que por completo. Esporadicamente recebia alguma notícia por meio do professor Luís Carlos Maia, tipo amigo-irmão, com o qual mantenho contato mais frequente. Por meu precário estado de saúde, com correrias semanais aos hospitais aqui do Grande ABC, cheguei a imaginar que partiria antes, apesar da diferença de 15 anos entre nós.

Na última quarta-feira (9 de fevereiro), logo pela manhã, toca o telefone em casa. Era o professor que, com alguma cautela, informou: "Lavrado, o Chicão morreu segunda-feira e já foi sepultado (terça, 8). Na sexta-feira (11), leio na seção Fúnebre do Diário: "Francisco Batista de Oliveira, 85 anos, sepultado no Cemitério das Lágrimas".

Acredito que no subconsciente a gente matutava sobre essa aposta infeliz envolvendo um adolescente (no caso eu), e um cara já experiente (Chicão). Uma bobeira juvenil, um pega que certamente nenhum dos dois queria ganhar e muito menos perder. Não haveria vencido nem vencedor. Ganhei (ironia) e perdi: Francisco, um dos maiores caracteres que conheci e um dos melhores amigos que tive na vida, foi em minha adolescência espelho e indicador de conduta para o futuro. Agora, é uma lacuna impossível de ser preenchida.

Certamente não cobrarei a aposta, mesmo porque não foi uma vitória; fica como pagamento a lição de vida que assimilei com Chicão e que moldou minha existência. O reconhecimento eterno de uma amizade inabalável. Este relato, de uma história real, apenas lembra ações descontraídas de uma juventude descompromissada que, escondidas no baú da memória, um dia retornam à realidade, irreversível, impessoal e verdadeira. Sei que está com Deus, Francisco.

Domingo, 19 de fevereiro de 1961

Destaque - Deslumbrante e maravilhoso desfile consagrou definitivamente o Carnaval de Santo André: Ocara campeão

DIÁRIO HÁ 30 ANOS

Quinta-feira, 19 de fevereiro de 1981

Manchete - UGT (União Geral dos Trabalhadores) espanhola faz advertência contra julgamento de Lula: reportagem do jornalista Carlos Alberto Balista.

Primeiro Plano (Eduardo Camargo) - Severas críticas à política habitacional.

Carnaval 81 (Claudia Muller) - Polícia invade ensaio da Escola de Samba Unidos do Taboão, em São Bernardo.

Trabalhadores

Nasce em 19 de fevereiro:

1906 - Américo Constâncio, de São Sebastião (SP). Operário da Cotelessa.

FONTE: 1º livro geral de registro dos associados do Sindicato dos Químicos do ABC.

MUNICÍPIOS PAULISTAS

Hoje é o aniversário de Osasco, Taboão da Serra e Severínia.

EM 19 DE FEVEREIRO DE...

1876 - Inspetor-geral da Instrução Pública comunica ao Tesouro Municipal de São Paulo o exercício dos professores públicos de primeiras letras de São Bernardo.

1921 - Circula o primeiro número da atual Folha de S.Paulo, então denominada Folha da Noite.

1951 - Historiador Wanderley dos Santos nasce em São Paulo. Escreveu Antecedentes Históricos do ABC Paulista: 1550-1892.

SANTOS DO DIA

Álvaro de Córdova, Conrado de Piacenza e Gabino.

Hoje também é o dia de José Antonio de Maria Ibiapina, o Padre Ibiapina (1806-1883), santo popular do Nordeste brasileiro. 

Fontes: Folhinha do Sagrado Coração de Jesus, Vozes, 2011; site paulinas.org.br .

FALECIMENTOS

SANTO ANDRÉ

Maria José Novita Martins, 93. Natural de Santos (SP). Dia 13. Crematório de Vila Alpina, Capital.

Rinaldo Garzin, 82. Natural de Ibitinga (SP). Dia 14. Cemitério de Camilópolis.

Manuel Araújo Carvalho, 85. Natural de Tutóia (MA). Dia 15. Cemitério do Curuçá.

Maria da Penha Bezerra, 83. Natural de Serra Talhada (PE). Dia 15. Cemitério Santo André.

Josefina Domingos Cardial Bevenuto, 63. Natural de União dos Palmares (AL). Dia 15. Cemitério do Curuçá.

SÃO BERNARDO

Antonio Caetano dos Santos, 80. Natural de Itabuna (BA). Anteontem. Cemitério de Vila Euclides.

Milton Luiz da Silva, 78. Natural de Resende (RJ). Dia 16. Cemitério de Vila Euclides.

Marlene Aparecida de Oliveira Cardoso, 70. Natural de Barra Mansa (RJ). Dia 16. Cemitério de Vila Euclides.

SÃO CAETANO

(Cemitério da Cerâmica).

Antonieta Augusta Pires Ribeiro, 80. Dia 7.

Irma Itália Grecchi, 72. Dia 11.

Helenita Rozendo, 67. Dia 13.



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Sonhos e brincadeiras da São Caetano dos anos 1960

Metade da década de 1950, tinha eu 14 anos, fui jogar no Vila São José

Ademir Medici
Do Diário do Grande ABC

19/02/2011 | 00:00


Francisco Batista de Oliveira

(Serra Azul (SP) 1925 - São Caetano 8-2-2011)

Hoje quem faz Memória é o jornalista e radialista Oswaldo Lavrado, ex-Diário (rádio e jornal). Ele narra uma estranha aposta, feita quando menino no seu bairro, Vila São José. O epílogo foi confirmado aqui em Memória, quando ele viu no obituário o nome do amigo Francisco Batista de Oliveira.

O texto original foi publicado no Blog do Edward de Souza, igualmente jornalista e radialista que foi nosso colega de Diário e hoje está de volta à sua Franca.

Uma aposta que ninguém queria ganhar

Texto: Oswaldo Lavrado

Metade da década de 1950, tinha eu 14 anos, fui jogar no Vila São José, clube de futebol de São Caetano até hoje existente, cujo vice-presidente Francisco Batista de Oliveira, 15 anos mais velho que eu, era uma espécie de conselheiro e ídolo de todos no clube e no bairro. Chico para uns, Chicão para outros, era um negro alto, forte, nascido em Serra Azul, na região de Ribeirão Preto, entre Serrana e São Simão. Criado em Colina, próximo a São José do Rio Preto, Francisco veio morar em São Caetano em meados dos anos 1940, onde se instalou com os pais e irmãos na Avenida Bela Vista, bairro Belvedere, casou e constituiu família. De postura altiva, tinha como marca o caráter, honestidade, dignidade, ética e moral inabaláveis. Um negrão pedra 90, como se dizia então, para identificar uma pessoa com comportamento e ações quase perfeitas.

Como em todo lugar, os jovens formavam sua batota de amigos mais chegados. Por acaso, ou não, fiquei amigo do Chicão, no grupo formado por Antônio Cola, Pedro Depintor, Kioshi Niushi, José Rossi (Zuza), Antonio Matias de Souza, Luiz Dala Justina e outros. O Chicão, o mais velho, era uma espécie de guru de todos, e eu o mais jovem. As noites de sábado (à época o happy hour era somente nesse dia), as baladas consistiam em pegar um cinema - Vitória, Max ou Lido - todos no Centro de São Caetano, nossa cidade, e hoje extintos e depois uma pizza regada a guaraná ou tubaína na pizzaria Autonomista, onde hoje é a sede da Casas Bahia. Detalhe: nas sessões noturnas dos cinemas os homens só entravam vestidos com terno e gravata.

Pois bem, em uma dessas rodinhas da turma, um sábado à tarde, no Bar do Zezé, principal ponto de encontro na Vila São José, sem assunto melhor, pegamos uma discussão sobre a morte. Bobagem de um grupo que decididamente não tinha algo mais importante a fazer no momento. Alguém levantou a pinimba tipo "acho que você não vai durar muito" e outras ‘previsões' macabras.

Em determinado momento, no pega entre eu e o Chicão, falei: "Você é mais velho, portanto deve morrer primeiro". Totalmente abstêmio e pouco fumante (uma carteira por semana), saúde em dia nos seus 30 anos, Chicão não deixou barato e desafiou: "Vamos apostar então quem morre primeiro". Não ficou definido o objeto da aposta e nem poderia. Um absurdo, pois certamente nenhum dos dois queria ganhar e muito menos perder. E o derrotado, como pagaria? Todos nos divertimos com a brincadeira que deveria ser solenemente esquecida na sequência. O assunto jamais foi ventilado pela cretinice do tema, porém ficou, em silêncio, incrustado na memória de ambos.

O tempo passou, cheguei à presidência do Vila São José, Chicão afastou-se do clube, mudei para São Bernardo, onde estou até hoje, e nosso contato desapareceu quase que por completo. Esporadicamente recebia alguma notícia por meio do professor Luís Carlos Maia, tipo amigo-irmão, com o qual mantenho contato mais frequente. Por meu precário estado de saúde, com correrias semanais aos hospitais aqui do Grande ABC, cheguei a imaginar que partiria antes, apesar da diferença de 15 anos entre nós.

Na última quarta-feira (9 de fevereiro), logo pela manhã, toca o telefone em casa. Era o professor que, com alguma cautela, informou: "Lavrado, o Chicão morreu segunda-feira e já foi sepultado (terça, 8). Na sexta-feira (11), leio na seção Fúnebre do Diário: "Francisco Batista de Oliveira, 85 anos, sepultado no Cemitério das Lágrimas".

Acredito que no subconsciente a gente matutava sobre essa aposta infeliz envolvendo um adolescente (no caso eu), e um cara já experiente (Chicão). Uma bobeira juvenil, um pega que certamente nenhum dos dois queria ganhar e muito menos perder. Não haveria vencido nem vencedor. Ganhei (ironia) e perdi: Francisco, um dos maiores caracteres que conheci e um dos melhores amigos que tive na vida, foi em minha adolescência espelho e indicador de conduta para o futuro. Agora, é uma lacuna impossível de ser preenchida.

Certamente não cobrarei a aposta, mesmo porque não foi uma vitória; fica como pagamento a lição de vida que assimilei com Chicão e que moldou minha existência. O reconhecimento eterno de uma amizade inabalável. Este relato, de uma história real, apenas lembra ações descontraídas de uma juventude descompromissada que, escondidas no baú da memória, um dia retornam à realidade, irreversível, impessoal e verdadeira. Sei que está com Deus, Francisco.

Domingo, 19 de fevereiro de 1961

Destaque - Deslumbrante e maravilhoso desfile consagrou definitivamente o Carnaval de Santo André: Ocara campeão

DIÁRIO HÁ 30 ANOS

Quinta-feira, 19 de fevereiro de 1981

Manchete - UGT (União Geral dos Trabalhadores) espanhola faz advertência contra julgamento de Lula: reportagem do jornalista Carlos Alberto Balista.

Primeiro Plano (Eduardo Camargo) - Severas críticas à política habitacional.

Carnaval 81 (Claudia Muller) - Polícia invade ensaio da Escola de Samba Unidos do Taboão, em São Bernardo.

Trabalhadores

Nasce em 19 de fevereiro:

1906 - Américo Constâncio, de São Sebastião (SP). Operário da Cotelessa.

FONTE: 1º livro geral de registro dos associados do Sindicato dos Químicos do ABC.

MUNICÍPIOS PAULISTAS

Hoje é o aniversário de Osasco, Taboão da Serra e Severínia.

EM 19 DE FEVEREIRO DE...

1876 - Inspetor-geral da Instrução Pública comunica ao Tesouro Municipal de São Paulo o exercício dos professores públicos de primeiras letras de São Bernardo.

1921 - Circula o primeiro número da atual Folha de S.Paulo, então denominada Folha da Noite.

1951 - Historiador Wanderley dos Santos nasce em São Paulo. Escreveu Antecedentes Históricos do ABC Paulista: 1550-1892.

SANTOS DO DIA

Álvaro de Córdova, Conrado de Piacenza e Gabino.

Hoje também é o dia de José Antonio de Maria Ibiapina, o Padre Ibiapina (1806-1883), santo popular do Nordeste brasileiro. 

Fontes: Folhinha do Sagrado Coração de Jesus, Vozes, 2011; site paulinas.org.br .

FALECIMENTOS

SANTO ANDRÉ

Maria José Novita Martins, 93. Natural de Santos (SP). Dia 13. Crematório de Vila Alpina, Capital.

Rinaldo Garzin, 82. Natural de Ibitinga (SP). Dia 14. Cemitério de Camilópolis.

Manuel Araújo Carvalho, 85. Natural de Tutóia (MA). Dia 15. Cemitério do Curuçá.

Maria da Penha Bezerra, 83. Natural de Serra Talhada (PE). Dia 15. Cemitério Santo André.

Josefina Domingos Cardial Bevenuto, 63. Natural de União dos Palmares (AL). Dia 15. Cemitério do Curuçá.

SÃO BERNARDO

Antonio Caetano dos Santos, 80. Natural de Itabuna (BA). Anteontem. Cemitério de Vila Euclides.

Milton Luiz da Silva, 78. Natural de Resende (RJ). Dia 16. Cemitério de Vila Euclides.

Marlene Aparecida de Oliveira Cardoso, 70. Natural de Barra Mansa (RJ). Dia 16. Cemitério de Vila Euclides.

SÃO CAETANO

(Cemitério da Cerâmica).

Antonieta Augusta Pires Ribeiro, 80. Dia 7.

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