Fechar
Publicidade

Sexta-Feira, 13 de Dezembro

|

Max º Min º
Clima da Região Trânsito Assine Clube do Assinante Diário Virtual Login

Setecidades

setecidades@dgabc.com.br | 4435-8319

'Só queria dar ao meu
filho uma vida normal'


Camila Galvez
Do Diário do Grande ABC

10/07/2011 | 07:00


Sete de março de 2010. Era para ser um dia de diversão. O menino de 3 anos ganhou de presente uma moto elétrica e ficou empolgado. Como sua família mora em apartamento, na Zona Norte da Capital, a mãe, a encarregada de Recursos Humanos Adriana Mary Hayashi, 30 anos, resolveu levar o pequeno para passear no Parque Chico Mendes, em São Caetano.

"Quero comer esfiha, garotinha", ele pediu, do jeito carinhoso que costuma chamá-la, mas ela não deixou. "Achei que era melhor comer comida, porque ele ia brincar e gastar energia", relembrou. Adriana e seu namorado decidiram levá-lo para almoçar na Galeteria São Caetano, na Avenida Goiás. A criança não tinha ideia de que seu passeio se transformaria em tragédia.

De UTI foram seis meses. Cirurgias: 56. As cicatrizes são incontáveis, espalhadas por seu rosto, tronco e membros. A criança foi vítima de um incêndio no réchaud da galeteria, um suporte para travessas que fica sob um fogareiro aceso com álcool. "O problema foi que um ajudante de garçom veio reanimar o fogo, que não estava totalmente apagado. Quando ele jogou o álcool, o fogo pegou dentro do galão de seis litros e cuspiu em cima da gente como se fosse um lança-chamas", explicou a mãe.

O fogo atingiu os três, mas o menino foi o mais prejudicado: teve 54% do corpo queimado, porcentagem que, após diversas complicações e infecções, subiu para 81%. "Mamãe, eu vou morrer?", ele perguntou enquanto a ambulância o levava ao Hospital e Maternidade Márcia Braido, em São Caetano, para o atendimento de emergência. "Não, filhinho, Papai do Céu não vai deixar", respondeu Adriana.

Internação

O tempo em que o pequeno permaneceu internado foi de agonia para Adriana. Ela não comia, não descansava. Perdeu a conta de quantas vezes dormiu sentada nos bancos de hospitais. Não sabe dizer como suportou a ida de seu filho ao centro cirúrgico ao menos três vezes por semana. "Nunca sabia se ele ia sair vivo", recordou.

Acompanhava 24 horas o estado de saúde do filho. "O monitor da UTI era minha televisão. Não conseguia fazer nada longe dele", disse. Muito menos trabalhar. Adriana perdeu oportunidade de emprego por causa da tragédia. A dedicação teve de ser exclusiva ao menino, que chamava por ela assim que voltava de cada cirurgia.

A internet virou sua melhor amiga. Era por meio dos sites de busca que pesquisava nomes de bactérias, princípios ativos de medicamentos e novos tratamentos para queimaduras. O computador era também sua janela para o mundo, seu meio de comunicação com aqueles que estavam do lado de fora daquele pesadelo.

Orações

"A gente sempre acreditou que ele ia sobreviver", garantiu a avó da vítima, a dona de casa Adélia Massako Hayashi, 62. A família é budista e, no tempo em que o menino esteve internado, se dedicou a diversas correntes de oração.

O garoto enfrentou choque séptico, trombose, duas paradas cardíacas e precisou fazer uma traqueostomia, pois teve a deglutição prejudicada pelas queimaduras. "Vi o médico reanimá-lo em uma das vezes. Imagina o meu coração, como ficou", disse Adriana.

A mãe viu pessoas com situação melhor que de seu filho morrerem durante o tratamento. Jovens, adultos, idosos, não importava. A queimadura pode ser fatal mesmo se apenas 30% do corpo for atingido. "Queimaduras geralmente são casos de descuido ou desconhecimento. Não encontrei ninguém que tivesse passado pelo que passei", afirmou.

A angústia deu lugar a resignação em 5 de agosto de 2010, quando o menino, já com quatro anos, saiu da UTI. Ele passaria mais um mês internado. Deixaria o hospital com apenas nove quilos, diversas marcas espalhadas por seu corpo e o desafio de retomar sua vida.

Trauma

Um ano e quatro meses depois, o pequeno ainda precisa de 25 cirurgias plásticas para tentar minimizar a aparência das cicatrizes espalhadas por seu corpo frágil. Cada uma delas custa, em média, R$ 5.000, pagos pela família. "O convênio não cobre porque considera que são procedimentos estéticos. Os anteriores eles bancaram."

Depois, a criança terá de fazer tratamentos dentários, pois sua arcada foi afetada pelas queimaduras, além de cirurgias para reconstruir as orelhas carbonizadas.

O menino faz terapia com psicólogos uma vez por semana. É assim que aprende a lidar com o fato de ser diferente das outras crianças. Deve voltar para a escola em agosto, mas não para a mesma em que estudou até o dia do acidente. "Vai ser junto com a minha namoradinha", ele contou baixinho, como se fosse segredo.

A namoradinha é uma amiga que acompanhou todo o tratamento e visitou o menino no hospital. "Ela diz que ele é lindo. Que não importa as cicatrizes, que ele continua lindo", afirmou Adriana. Mas o garoto teme o retorno, por isso não quis voltar à escola onde os alunos o conheciam desde que ele tinha 1 ano e meio.

Ele não sente mais dores nem precisa tomar medicamentos, mas as marcas daquele dia ficarão para sempre em sua pele. E em sua consciência. O menino não chega perto do fogão. Tem medo de fogos de artifício e do forno à lenha de pizzarias. E se sente muito inseguro se a mãe não estiver por perto. "Só queria dar a ele uma vida normal". Esse é o sonho de Adriana daqui pra frente.



Comentários

Atenção! Os comentários do site são via Facebook. Lembre-se de que o comentário é de inteira responsabilidade do autor e não expressa a opinião do jornal. Comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros poderão ser denunciados pelos usuários e sua conta poderá ser banida.

'Só queria dar ao meu
filho uma vida normal'

Camila Galvez
Do Diário do Grande ABC

10/07/2011 | 07:00


Sete de março de 2010. Era para ser um dia de diversão. O menino de 3 anos ganhou de presente uma moto elétrica e ficou empolgado. Como sua família mora em apartamento, na Zona Norte da Capital, a mãe, a encarregada de Recursos Humanos Adriana Mary Hayashi, 30 anos, resolveu levar o pequeno para passear no Parque Chico Mendes, em São Caetano.

"Quero comer esfiha, garotinha", ele pediu, do jeito carinhoso que costuma chamá-la, mas ela não deixou. "Achei que era melhor comer comida, porque ele ia brincar e gastar energia", relembrou. Adriana e seu namorado decidiram levá-lo para almoçar na Galeteria São Caetano, na Avenida Goiás. A criança não tinha ideia de que seu passeio se transformaria em tragédia.

De UTI foram seis meses. Cirurgias: 56. As cicatrizes são incontáveis, espalhadas por seu rosto, tronco e membros. A criança foi vítima de um incêndio no réchaud da galeteria, um suporte para travessas que fica sob um fogareiro aceso com álcool. "O problema foi que um ajudante de garçom veio reanimar o fogo, que não estava totalmente apagado. Quando ele jogou o álcool, o fogo pegou dentro do galão de seis litros e cuspiu em cima da gente como se fosse um lança-chamas", explicou a mãe.

O fogo atingiu os três, mas o menino foi o mais prejudicado: teve 54% do corpo queimado, porcentagem que, após diversas complicações e infecções, subiu para 81%. "Mamãe, eu vou morrer?", ele perguntou enquanto a ambulância o levava ao Hospital e Maternidade Márcia Braido, em São Caetano, para o atendimento de emergência. "Não, filhinho, Papai do Céu não vai deixar", respondeu Adriana.

Internação

O tempo em que o pequeno permaneceu internado foi de agonia para Adriana. Ela não comia, não descansava. Perdeu a conta de quantas vezes dormiu sentada nos bancos de hospitais. Não sabe dizer como suportou a ida de seu filho ao centro cirúrgico ao menos três vezes por semana. "Nunca sabia se ele ia sair vivo", recordou.

Acompanhava 24 horas o estado de saúde do filho. "O monitor da UTI era minha televisão. Não conseguia fazer nada longe dele", disse. Muito menos trabalhar. Adriana perdeu oportunidade de emprego por causa da tragédia. A dedicação teve de ser exclusiva ao menino, que chamava por ela assim que voltava de cada cirurgia.

A internet virou sua melhor amiga. Era por meio dos sites de busca que pesquisava nomes de bactérias, princípios ativos de medicamentos e novos tratamentos para queimaduras. O computador era também sua janela para o mundo, seu meio de comunicação com aqueles que estavam do lado de fora daquele pesadelo.

Orações

"A gente sempre acreditou que ele ia sobreviver", garantiu a avó da vítima, a dona de casa Adélia Massako Hayashi, 62. A família é budista e, no tempo em que o menino esteve internado, se dedicou a diversas correntes de oração.

O garoto enfrentou choque séptico, trombose, duas paradas cardíacas e precisou fazer uma traqueostomia, pois teve a deglutição prejudicada pelas queimaduras. "Vi o médico reanimá-lo em uma das vezes. Imagina o meu coração, como ficou", disse Adriana.

A mãe viu pessoas com situação melhor que de seu filho morrerem durante o tratamento. Jovens, adultos, idosos, não importava. A queimadura pode ser fatal mesmo se apenas 30% do corpo for atingido. "Queimaduras geralmente são casos de descuido ou desconhecimento. Não encontrei ninguém que tivesse passado pelo que passei", afirmou.

A angústia deu lugar a resignação em 5 de agosto de 2010, quando o menino, já com quatro anos, saiu da UTI. Ele passaria mais um mês internado. Deixaria o hospital com apenas nove quilos, diversas marcas espalhadas por seu corpo e o desafio de retomar sua vida.

Trauma

Um ano e quatro meses depois, o pequeno ainda precisa de 25 cirurgias plásticas para tentar minimizar a aparência das cicatrizes espalhadas por seu corpo frágil. Cada uma delas custa, em média, R$ 5.000, pagos pela família. "O convênio não cobre porque considera que são procedimentos estéticos. Os anteriores eles bancaram."

Depois, a criança terá de fazer tratamentos dentários, pois sua arcada foi afetada pelas queimaduras, além de cirurgias para reconstruir as orelhas carbonizadas.

O menino faz terapia com psicólogos uma vez por semana. É assim que aprende a lidar com o fato de ser diferente das outras crianças. Deve voltar para a escola em agosto, mas não para a mesma em que estudou até o dia do acidente. "Vai ser junto com a minha namoradinha", ele contou baixinho, como se fosse segredo.

A namoradinha é uma amiga que acompanhou todo o tratamento e visitou o menino no hospital. "Ela diz que ele é lindo. Que não importa as cicatrizes, que ele continua lindo", afirmou Adriana. Mas o garoto teme o retorno, por isso não quis voltar à escola onde os alunos o conheciam desde que ele tinha 1 ano e meio.

Ele não sente mais dores nem precisa tomar medicamentos, mas as marcas daquele dia ficarão para sempre em sua pele. E em sua consciência. O menino não chega perto do fogão. Tem medo de fogos de artifício e do forno à lenha de pizzarias. E se sente muito inseguro se a mãe não estiver por perto. "Só queria dar a ele uma vida normal". Esse é o sonho de Adriana daqui pra frente.

Ao acessar você concorda com a nossa Política de Privacidade.


Para continuar, faça o seu login:


  • Aceito receber novidades e ofertas do Diário do Grande ABC e parceiros por
    correio eletrônico, mala direta, SMS ou outros meios de comunicação.


Ou acesse todo o conteúdo de forma ilimitada:

Veja como ter acesso a todo o conteúdo de forma ilimitada:

Copyright © 1995-2017 - Todos direitos reservados

;