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Primeira vacinada na região, faxineira vê trabalho como ato de amor

Denis Maciel/DGABC Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra

Funcionária do hospital de campanha de Santo André, Luzia da Silva recebeu primeira dose da Coronavac na terça


Bia Moço
Do Diário do Grande ABC

24/01/2021 | 00:01


Primeira pessoa vacinada contra a Covid-19 no Grande ABC, a auxiliar de higiene Luzia Quitéria de Jesus da Silva, 28 anos, foi escolhida por compor a equipe que trabalha dentro do hospital de campanha montado no Complexo Esportivo Pedro Dell’Antonia, em Santo André. Ainda tentando assimilar a importância de ter recebido a primeira dose da Coronavac, que promete imunizar contra o coronavírus, ela revelou que várias vezes se sentiu impotente diante de tantas internações que presenciou no hospital, e disse que seu trabalho é “ato de amor ao próximo”.

“A limpeza é um dos setores mais importantes de um hospital, e depositei todo meu amor, do fundo do meu coração, no meu trabalho. Como não podia ajudar fazendo mais para as pessoas que estavam internadas, decidi que a limpeza bem feita seria minha doação diária”, contou Luzia, bastante emocionada.

Diante das circunstâncias, higienizar a ala de pessoas confirmadas com infecção por coronavírus mexeu com ela, inclusive, emocionalmente. A faxineira contou que iniciou seu serviço na limpeza da pandemia ainda em março, na UPA (Unidade de Pronto Atendimento) do Jardim Ciprestes, mesmo bairro onde mora, no município andreense e, em abril, começou a ser responsável pela higiene do covidário do hospital de retaguarda, montado na Vila Pires, onde revela ter visto “muitas vidas se perdendo”, sobretudo nos primeiros meses da pandemia, quando até pensou em desistir do emprego.

“Houve momentos que cheguei a falar para minha supervisora que não sabia se aguentaria continuar no serviço. Voltei para casa chorando diversas vezes, muitas mesmo, já que ver o sofrimento das pessoas infectadas, e presenciar mortes diariamente, me deixou muito mal”, revelou a faxineira.

Além disso, o fato de morar sozinha com o filho Luan, 7, preocupava Luzia, que passou a se dividir entre a rotina materna e a limpeza de área de alto de risco de contaminação. “Peguei Covid em junho e fiquei dez dias internada, exatamente no local onde trabalho. Em dezembro, fui contaminada de novo e passei para o meu filho. Tem sido um período muito difícil (trabalhar no covidário), mas sei que (os doentes) precisam de mim”, explicou a faxineira.

Funcionária de empresa terceirizada que presta serviços para a Prefeitura, Luzia ressalta que a gratidão dos pacientes é o que a motiva diariamente. “Todos os dias os internados agradecem pelo trabalho que eu faço. Quando um paciente morre, é muito triste fazer a desinfecção do leito, mas faço isso com sentimento de que todos ali foram guerreiros”, contou Luzia, dizendo que o filho também a incentiva. “Ele sabe que estou fazendo o bem, e me espera todos os dias ansioso”, afirmou.

Embora Luzia sinta que hoje faz parte de uma equipe interdisciplinar que lutou contra a pandemia em Santo André, seu sonho é poder fazer o mesmo, e quem sabe ainda melhor, em sua terra natal, Manari, em Pernambuco. Depois de dez meses na linha de frente do combate ao coronavírus, Luzia decidiu terminar os estudos para poder ser enfermeira. “Parei de estudar na antiga 8ª série (hoje o 9º ano), e hoje quero voltar para a escola e terminar o ensino médio. Sempre sonhei em ser professora, mas, depois de trabalhar no covidário, penso em ser enfermeira para poder cuidar das pessoas”, revelou.

Fiquei muito emocionada com a vacina, conta Luzia

Moça simples de sorriso largo, a primeira vacinada contra a Covid no Grande ABC, Luzia Quitéria de Jesus da Silva, 28 anos, assume que ficou “envergonhada” ao se ver nos noticiários, e conta que se sentiu privilegiada ao ser escolhida, como se fosse subir em um pódio.

“Quase todos os lugares do Brasil iniciaram a vacinação com profissionais da saúde mesmo. Mas Santo André me escolheu, por estar na linha de frente, mesmo sendo faxineira. Fiquei muito emocionada”, explicou, pontuando que o trabalho da limpeza deveria ser mais valorizado. “Se não for o pessoal da faxina, o espaço, além de contaminado, fica sujo e mais desagradável”, reforçou Luzia.

Sem medo de “virar jacaré”, como supôs o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), ao se referir ao imunizante da Pfizer, Luzia contou que ter pego Covid por duas vezes a deixou ansiosa pela imunização. “Medo tive quando peguei a doença. A vacina vai ser o começo de um recomeço”, garantiu, indicando que as pessoas não sintam medo. “Não vejo a hora de tirar essa máscara e ter a vida normal de volta. A vacina vai ser muito boa para a população. Espero que todos tomem e deixem esse medo de lado”, desejou.

Luzia pensava que os anticorpos adquiridos com a contaminação seriam suficientes para impedir nova infecção. Em junho, ela precisou ser internada por ter 50% do pulmão comprometido e voltou a sentir os sintomas em dezembro. Agora, Luzia acredita que a vacina forme um escudo para lhe proteger da doença. “Não vai me fazer mal, e com certeza vai me proteger”, afirmou.

Médico e consultor da SBI (Sociedade Brasileira de Infectologia), Leonardo Weissmann explicou que, embora o risco de reinfecção no curto prazo (nos primeiros meses após a infecção inicial) pareça baixo, há casos esporádicos documentados e, por isso, mesmo quem já teve Covid deve tomar a vacina pelo risco de formas graves da doença, e de reinfecção. “A vacina parece conferir uma imunidade mais específica. Por isso, mesmo quem já teve a doença deve se vacinar”, afirmou.

A ESCOLHA

Superintendente dos hospitais de campanha, Victor Chiavegato explicou que a escolha de Luzia para ser a primeira vacinada de Santo André foi pensada para mostrar a importância de quem atua na limpeza. “Nós quisemos que o primeiro vacinado fosse um trabalhador da limpeza para quebrar esse paradigma de que só são profissionais da saúde médicos e enfermeiros”, afirmou, explicando que quando o hospital foi montado, foi necessário unir trabalhadores de diversos setores para que, de fato, funcionasse.

“Temos uma equipe interdisciplinar que engloba, inclusive, a equipe da limpeza. A Luzia faz tudo e, ainda assim, está sempre feliz”, elogiou Chiavegato. 

Com exemplo da mãe, Luan, 7 anos, sonha em ser médico

Com apenas 7 anos, Luan Novais Silva sonha em ser médico. Filho da primeira pessoa vacinada do Grande ABC, Luzia Quitéria de Jesus da Silva, 28, ele acredita que “se fosse um doutor, menos pessoas morreriam”, e pretende pegar firme nos estudos para, um dia, também fazer parte da história, assim aconteceu com sua mãe ao receber a primeira dose da vacina e ter o ato registrado pela imprensa.

“Quero ser médico para salvar muitas vidas. Gosto de cuidar das pessoas”, garantiu o menino, que diz sentir muito orgulho da mãe, que atua como faxineira no hospital de campanha de Santo André. “Eu sei que ela limpa a parte das pessoas que estão com Covid. E muita gente morreu por essa doença”, lamentou Luan.

Luzia contou que o garoto fala em ser médico desde quando tinha 3 anos, mas que foi durante a pandemia que a determinação do garoto se mostrou maior, principalmente ao ver o esforço diário da mãe. 

“Eu evito ligar a televisão para que ele não fique ouvindo (o noticiário) sobre as mortes por Covid. Mas do pouco que vê, ou que me ouve falar, fica muito envolvido, não tem jeito”, explicou a mãe, dizendo que ele quer superar sua dificuldade na leitura.

“Eu acho muito difícil ler. Mas tenho certeza que um dia eu vou melhorar, porque vou ser o doutor Luan”, projetou o menino, que ainda convidou a equipe de reportagem do Diário a, um dia, se consultar com ele. 

Fotos: Denis Maciel/DGABC



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Primeira vacinada na região, faxineira vê trabalho como ato de amor

Funcionária do hospital de campanha de Santo André, Luzia da Silva recebeu primeira dose da Coronavac na terça

Bia Moço
Do Diário do Grande ABC

24/01/2021 | 00:01


Primeira pessoa vacinada contra a Covid-19 no Grande ABC, a auxiliar de higiene Luzia Quitéria de Jesus da Silva, 28 anos, foi escolhida por compor a equipe que trabalha dentro do hospital de campanha montado no Complexo Esportivo Pedro Dell’Antonia, em Santo André. Ainda tentando assimilar a importância de ter recebido a primeira dose da Coronavac, que promete imunizar contra o coronavírus, ela revelou que várias vezes se sentiu impotente diante de tantas internações que presenciou no hospital, e disse que seu trabalho é “ato de amor ao próximo”.

“A limpeza é um dos setores mais importantes de um hospital, e depositei todo meu amor, do fundo do meu coração, no meu trabalho. Como não podia ajudar fazendo mais para as pessoas que estavam internadas, decidi que a limpeza bem feita seria minha doação diária”, contou Luzia, bastante emocionada.

Diante das circunstâncias, higienizar a ala de pessoas confirmadas com infecção por coronavírus mexeu com ela, inclusive, emocionalmente. A faxineira contou que iniciou seu serviço na limpeza da pandemia ainda em março, na UPA (Unidade de Pronto Atendimento) do Jardim Ciprestes, mesmo bairro onde mora, no município andreense e, em abril, começou a ser responsável pela higiene do covidário do hospital de retaguarda, montado na Vila Pires, onde revela ter visto “muitas vidas se perdendo”, sobretudo nos primeiros meses da pandemia, quando até pensou em desistir do emprego.

“Houve momentos que cheguei a falar para minha supervisora que não sabia se aguentaria continuar no serviço. Voltei para casa chorando diversas vezes, muitas mesmo, já que ver o sofrimento das pessoas infectadas, e presenciar mortes diariamente, me deixou muito mal”, revelou a faxineira.

Além disso, o fato de morar sozinha com o filho Luan, 7, preocupava Luzia, que passou a se dividir entre a rotina materna e a limpeza de área de alto de risco de contaminação. “Peguei Covid em junho e fiquei dez dias internada, exatamente no local onde trabalho. Em dezembro, fui contaminada de novo e passei para o meu filho. Tem sido um período muito difícil (trabalhar no covidário), mas sei que (os doentes) precisam de mim”, explicou a faxineira.

Funcionária de empresa terceirizada que presta serviços para a Prefeitura, Luzia ressalta que a gratidão dos pacientes é o que a motiva diariamente. “Todos os dias os internados agradecem pelo trabalho que eu faço. Quando um paciente morre, é muito triste fazer a desinfecção do leito, mas faço isso com sentimento de que todos ali foram guerreiros”, contou Luzia, dizendo que o filho também a incentiva. “Ele sabe que estou fazendo o bem, e me espera todos os dias ansioso”, afirmou.

Embora Luzia sinta que hoje faz parte de uma equipe interdisciplinar que lutou contra a pandemia em Santo André, seu sonho é poder fazer o mesmo, e quem sabe ainda melhor, em sua terra natal, Manari, em Pernambuco. Depois de dez meses na linha de frente do combate ao coronavírus, Luzia decidiu terminar os estudos para poder ser enfermeira. “Parei de estudar na antiga 8ª série (hoje o 9º ano), e hoje quero voltar para a escola e terminar o ensino médio. Sempre sonhei em ser professora, mas, depois de trabalhar no covidário, penso em ser enfermeira para poder cuidar das pessoas”, revelou.

Fiquei muito emocionada com a vacina, conta Luzia

Moça simples de sorriso largo, a primeira vacinada contra a Covid no Grande ABC, Luzia Quitéria de Jesus da Silva, 28 anos, assume que ficou “envergonhada” ao se ver nos noticiários, e conta que se sentiu privilegiada ao ser escolhida, como se fosse subir em um pódio.

“Quase todos os lugares do Brasil iniciaram a vacinação com profissionais da saúde mesmo. Mas Santo André me escolheu, por estar na linha de frente, mesmo sendo faxineira. Fiquei muito emocionada”, explicou, pontuando que o trabalho da limpeza deveria ser mais valorizado. “Se não for o pessoal da faxina, o espaço, além de contaminado, fica sujo e mais desagradável”, reforçou Luzia.

Sem medo de “virar jacaré”, como supôs o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), ao se referir ao imunizante da Pfizer, Luzia contou que ter pego Covid por duas vezes a deixou ansiosa pela imunização. “Medo tive quando peguei a doença. A vacina vai ser o começo de um recomeço”, garantiu, indicando que as pessoas não sintam medo. “Não vejo a hora de tirar essa máscara e ter a vida normal de volta. A vacina vai ser muito boa para a população. Espero que todos tomem e deixem esse medo de lado”, desejou.

Luzia pensava que os anticorpos adquiridos com a contaminação seriam suficientes para impedir nova infecção. Em junho, ela precisou ser internada por ter 50% do pulmão comprometido e voltou a sentir os sintomas em dezembro. Agora, Luzia acredita que a vacina forme um escudo para lhe proteger da doença. “Não vai me fazer mal, e com certeza vai me proteger”, afirmou.

Médico e consultor da SBI (Sociedade Brasileira de Infectologia), Leonardo Weissmann explicou que, embora o risco de reinfecção no curto prazo (nos primeiros meses após a infecção inicial) pareça baixo, há casos esporádicos documentados e, por isso, mesmo quem já teve Covid deve tomar a vacina pelo risco de formas graves da doença, e de reinfecção. “A vacina parece conferir uma imunidade mais específica. Por isso, mesmo quem já teve a doença deve se vacinar”, afirmou.

A ESCOLHA

Superintendente dos hospitais de campanha, Victor Chiavegato explicou que a escolha de Luzia para ser a primeira vacinada de Santo André foi pensada para mostrar a importância de quem atua na limpeza. “Nós quisemos que o primeiro vacinado fosse um trabalhador da limpeza para quebrar esse paradigma de que só são profissionais da saúde médicos e enfermeiros”, afirmou, explicando que quando o hospital foi montado, foi necessário unir trabalhadores de diversos setores para que, de fato, funcionasse.

“Temos uma equipe interdisciplinar que engloba, inclusive, a equipe da limpeza. A Luzia faz tudo e, ainda assim, está sempre feliz”, elogiou Chiavegato. 

Com exemplo da mãe, Luan, 7 anos, sonha em ser médico

Com apenas 7 anos, Luan Novais Silva sonha em ser médico. Filho da primeira pessoa vacinada do Grande ABC, Luzia Quitéria de Jesus da Silva, 28, ele acredita que “se fosse um doutor, menos pessoas morreriam”, e pretende pegar firme nos estudos para, um dia, também fazer parte da história, assim aconteceu com sua mãe ao receber a primeira dose da vacina e ter o ato registrado pela imprensa.

“Quero ser médico para salvar muitas vidas. Gosto de cuidar das pessoas”, garantiu o menino, que diz sentir muito orgulho da mãe, que atua como faxineira no hospital de campanha de Santo André. “Eu sei que ela limpa a parte das pessoas que estão com Covid. E muita gente morreu por essa doença”, lamentou Luan.

Luzia contou que o garoto fala em ser médico desde quando tinha 3 anos, mas que foi durante a pandemia que a determinação do garoto se mostrou maior, principalmente ao ver o esforço diário da mãe. 

“Eu evito ligar a televisão para que ele não fique ouvindo (o noticiário) sobre as mortes por Covid. Mas do pouco que vê, ou que me ouve falar, fica muito envolvido, não tem jeito”, explicou a mãe, dizendo que ele quer superar sua dificuldade na leitura.

“Eu acho muito difícil ler. Mas tenho certeza que um dia eu vou melhorar, porque vou ser o doutor Luan”, projetou o menino, que ainda convidou a equipe de reportagem do Diário a, um dia, se consultar com ele. 

Fotos: Denis Maciel/DGABC

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