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Livro registra as primeiras imagens do Brasil


Everaldo Fioravante
Do Diário do Grande ABC

24/02/2002 | 19:11


O parisiense Jean-Baptiste Debret (1768-1848), entre tantos artistas estrangeiros que aportaram no Brasil no século XIX, não foi só mais um. Registrou cenas do Brasil – sobretudo do Rio – em desenhos, aquarelas, óleos e gravuras em metal quando aqui viveu dos 47 aos 62 anos. Abordou da sofrida vida dos escravos até o dia-a-dia dos abastados.

Ao retornar a Paris, Debret publicou Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil em três volumes, entre 1834 e 1839, com 149 litografias. Nos livros, textos do artista comentam as imagens. Parte de Viagem Pitoresca ganha agora uma bem acabada edição impressa na França: Rio de Janeiro, Cidade Mestiça – Nascimento da Imagem de uma Nação (Cia. das Letras, 200 págs., R$ 78). A obra, que chega praticamente ao mesmo tempo no Brasil e na França, conta com 70 imagens do Rio, as quais também são acompanhadas dos comentários de Debret.

O volume traz textos do historiador Luiz Felipe de Alencastro (professor de História do Brasil na Universidade Paris IV – Sorbonne), do francês Serge Gruzinski (historiador e antropólogo) e do guineano Tierno Monénembo (cientista de formação e romancista). A organização é do suíço Patrick Straumann, diplomado em estudos cinematográficos e audiovisuais.

No século XIX, o Rio, então capital do Reino Unido de Brasil, Portugal e Algarves, começava uma modernização. Uma das ações para isso foi a vinda da Missão Artística Francesa, trazida por dom João VI em 1816, para fundar a Academia Real de Ciências, Artes e Ofícios. Debret integrava a Missão e, no período em que viveu no Rio (de 1816 a 1831), foi íntimo da monarquia brasileira e da nobreza portuguesa.

Debret pintou sob encomenda (a coroação de dom Pedro I, por exemplo), retratou cenas do cotidiano (negros castigados, entre outras) e vistas panorâmicas do Rio (interior da baía de Guanabara etc).

No entanto, em muitos casos, sua liberdade criativa foi podada. O próprio Debret comenta sobre isso, exemplificando a pintura do pano de boca para o Teatro da Corte: “Essa composição foi submetida às observações do primeiro-ministro José Bonifácio, que a aprovou. Ele apenas me pediu que substituísse as palmeiras naturais por um motivo arquitetônico regular, para afastar toda idéia de estado selvagem”.

“Debret, a quem não cabe o título de viajante, pois ficou 15 anos no país, ficava esperto para não constranger ninguém com as obras. Ele foi ligado à elite, e não queria decepcioná-la”, disse Alencastro ao Diário, da França.

Se há exemplos de idéias alheias que deturparam a visão do artista, há outros tantos casos em que o caminho foi o inverso. Debret retratou fielmente o que viu. Na obra Mercado da rua do Valongo, Debret revela a venda de escravos exibindo negros magricelas. No comentário da cena, ele conta: “Essa sala de venda, o mais das vezes silenciosa, está sempre infectada pelos miasmas de óleo de rícino exalados pelos poros enrugados desses esqueletos ambulantes, cujo olhar curioso, tímido ou triste nos lembra um zoológico”.

Professor da Academia e organizador dos dois primeiros salões de belas-artes do país, Debret trabalhou em sua produção artística para a Viagem Pitoresca “pensando num público francês”, segundo Straumann escreve na apresentação de Rio de Janeiro, Cidade Mestiça.

Questionado sobre o que tem mais importância, a obra de Debret sobre o Brasil oitocentista ou sua atuação na Academia, Alencastro afirmou que as duas alternativas se equivalem: “No entanto, o testemunho da obra é mais vivo”.

A maioria das composições originais que foram o ponto de partida para a elaboração das litografias de Viagem Pitoresca... estão no Museu Castro Maya, no Rio, que contabiliza 540 trabalhos do francês. “Temos sempre em exposição 36 obras de Debret. Contamos também com os três tomos do Viagem Pitoresca”, disse a museóloga Yara Moura.



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Livro registra as primeiras imagens do Brasil

Everaldo Fioravante
Do Diário do Grande ABC

24/02/2002 | 19:11


O parisiense Jean-Baptiste Debret (1768-1848), entre tantos artistas estrangeiros que aportaram no Brasil no século XIX, não foi só mais um. Registrou cenas do Brasil – sobretudo do Rio – em desenhos, aquarelas, óleos e gravuras em metal quando aqui viveu dos 47 aos 62 anos. Abordou da sofrida vida dos escravos até o dia-a-dia dos abastados.

Ao retornar a Paris, Debret publicou Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil em três volumes, entre 1834 e 1839, com 149 litografias. Nos livros, textos do artista comentam as imagens. Parte de Viagem Pitoresca ganha agora uma bem acabada edição impressa na França: Rio de Janeiro, Cidade Mestiça – Nascimento da Imagem de uma Nação (Cia. das Letras, 200 págs., R$ 78). A obra, que chega praticamente ao mesmo tempo no Brasil e na França, conta com 70 imagens do Rio, as quais também são acompanhadas dos comentários de Debret.

O volume traz textos do historiador Luiz Felipe de Alencastro (professor de História do Brasil na Universidade Paris IV – Sorbonne), do francês Serge Gruzinski (historiador e antropólogo) e do guineano Tierno Monénembo (cientista de formação e romancista). A organização é do suíço Patrick Straumann, diplomado em estudos cinematográficos e audiovisuais.

No século XIX, o Rio, então capital do Reino Unido de Brasil, Portugal e Algarves, começava uma modernização. Uma das ações para isso foi a vinda da Missão Artística Francesa, trazida por dom João VI em 1816, para fundar a Academia Real de Ciências, Artes e Ofícios. Debret integrava a Missão e, no período em que viveu no Rio (de 1816 a 1831), foi íntimo da monarquia brasileira e da nobreza portuguesa.

Debret pintou sob encomenda (a coroação de dom Pedro I, por exemplo), retratou cenas do cotidiano (negros castigados, entre outras) e vistas panorâmicas do Rio (interior da baía de Guanabara etc).

No entanto, em muitos casos, sua liberdade criativa foi podada. O próprio Debret comenta sobre isso, exemplificando a pintura do pano de boca para o Teatro da Corte: “Essa composição foi submetida às observações do primeiro-ministro José Bonifácio, que a aprovou. Ele apenas me pediu que substituísse as palmeiras naturais por um motivo arquitetônico regular, para afastar toda idéia de estado selvagem”.

“Debret, a quem não cabe o título de viajante, pois ficou 15 anos no país, ficava esperto para não constranger ninguém com as obras. Ele foi ligado à elite, e não queria decepcioná-la”, disse Alencastro ao Diário, da França.

Se há exemplos de idéias alheias que deturparam a visão do artista, há outros tantos casos em que o caminho foi o inverso. Debret retratou fielmente o que viu. Na obra Mercado da rua do Valongo, Debret revela a venda de escravos exibindo negros magricelas. No comentário da cena, ele conta: “Essa sala de venda, o mais das vezes silenciosa, está sempre infectada pelos miasmas de óleo de rícino exalados pelos poros enrugados desses esqueletos ambulantes, cujo olhar curioso, tímido ou triste nos lembra um zoológico”.

Professor da Academia e organizador dos dois primeiros salões de belas-artes do país, Debret trabalhou em sua produção artística para a Viagem Pitoresca “pensando num público francês”, segundo Straumann escreve na apresentação de Rio de Janeiro, Cidade Mestiça.

Questionado sobre o que tem mais importância, a obra de Debret sobre o Brasil oitocentista ou sua atuação na Academia, Alencastro afirmou que as duas alternativas se equivalem: “No entanto, o testemunho da obra é mais vivo”.

A maioria das composições originais que foram o ponto de partida para a elaboração das litografias de Viagem Pitoresca... estão no Museu Castro Maya, no Rio, que contabiliza 540 trabalhos do francês. “Temos sempre em exposição 36 obras de Debret. Contamos também com os três tomos do Viagem Pitoresca”, disse a museóloga Yara Moura.

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