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‘O Caderno Rosa de Lori Lamby’, de Hilda Hilst, é relançado
Everaldo Fioravante
Do Diário do Grande ABC
05/05/2005 | 12:07
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Deliciosamente obscena em parte da vasta obra literária, genial sempre, a escritora Hilda Hilst (1930-2004) afirmou ao Diário em entrevista em 2002, aos 71 anos, que gostaria de ter sido santa. “Mas não sei se ainda dá tempo”, disse. O Caderno Rosa de Lori Lamby, livro de 1990 agora relançado pela editora Globo, seria um dos pontos negativos a dificultar a ascensão da escritora paulista ao céu.

O Caderno Rosa de Lori Lamby (128 págs., R$ 35, em média), que chocou muita gente quando foi lançado, foi o primeiro livro da tetralogia obscena da escritora, fase completada por Contos d‘Escárnio. Textos Grotescos (também de 1990), Cartas de um Sedutor (1991) e Bufólicas (1992).

Não há como negar que O Caderno... seja obsceno, mas parar por aí e acreditá-lo exclusivamente impuro é interpretação rasteira. As histórias sexuais da protagonista Lori, garotinha de oito anos, serviram para Hilda tratar de assuntos para lá de sérios, como o abuso sexual infantil e as imposições – essas sim indecentes – do mercado editorial aos escritores.

“Tratar O Caderno... como livro pornográfico é um absurdo, é fazer uma leitura superficial. A linguagem sexual é explícita, mas a obra não trata só disso: fala de amor, afeto, sentimentos. Hilda critica a sociedade o tempo todo. Não é pornográfico, pois ninguém lê Hilda Hilst para se excitar. É literatura de alto nível”, diz Cristiane Grando, que trata de Hilda Hilst no pós-doutorado que faz no IFCH (Instituto de Filosofia e Ciências Humanas) da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas).

Cristiane, que há dez anos estuda obras e manuscritos da escritora, integra a recém-criada Instituição Hilda Hilst – Casa do Sol Viva, voltada à preservação da memória de Hilda e da Casa do Sol, chácara nas proximidades de Campinas (SP) onde ela viveu de meados dos anos 60 até a morte.

“Hilda estava muito chateada quando escreveu O Caderno..., chocada pelo fato de os escritores não conseguirem sobreviver do trabalho no Brasil. É uma luta política na qual ela não quis defender só a si, mas a todos os artistas. E para isso Hilda não poupou palavras”, disse Cristiane. “O lançamento dos livros da fase erótico-obscena foi uma estratégia para atingir a mídia e ampliar o número de leitores, pois estava cansada de não ser reconhecida. Hoje ela é mais conhecida por essa fase, que representa apenas 10% de sua obra”.

Para Cristiane, Hilda Hilst é um gênio da literatura brasileira assim como Guimarães Rosa (1908-1967), pois reformulou a linguagem. Em O Caderno..., Hilda faz uso de diversos gêneros literários, como contos e cartas, para recriar o inacreditável universo infantil da protagonista Lori. Brinca bastante com as palavras (troca crse por crise e bananeira por bandalheira, como exemplos).

Com ilustrações originais de Millôr Fernandes, o novo O Caderno... integra o pacote de relançamento da obra completa em prosa e poesia de Hilda Hilst promovido pela editora Globo, projeto iniciado em 2002 e organizado por Alcir Pécora, professor de literatura da Unicamp atualmente na Itália.

Em 1999, O Caderno... foi adaptado para o teatro como monólogo, com direção de Bete Coelho e interpretação de Iara Jamra. Ainda este mês deve sair um CD com dez poemas de Hilda Hilst musicados por Zeca Baleiro e interpretados só por cantoras, entre elas Maria Bethânia e Angela Ro Ro.

Hilda Hilst publicou 41 livros, entre eles textos de teatro. A primeira obra publicada foi Presságio, em 1950, de poesia. Recebeu um sem-número de prêmios ao longo da carreira literária e teve obras traduzidas para diversos idiomas. Seu acervo pode ser consultado no Centro de Documentação Cultural Alexandre Eulalio da Unicamp.



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