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Apartamentos da CDHU são vendidos ilegalmente


Aline Mazzo
Do Diário do Grande ABC

04/02/2007 | 21:41


Nem sempre a história de quem recebe uma moradia da CDHU (Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano) tem final feliz. Várias famílias não conseguem se adaptar à nova vida e têm de abandonar o lar estável que há pouco conquistaram. Para isso, comercializam os imóveis de maneira irregular, a preços muito abaixo do mercado. Com o dinheiro, compram barracos na favela de onde saíram, voltam para a terra natal ou ainda vão para a casa de parentes.

Segundo dados da CDHU, o índice de empreendimentos vendidos gira em torno de 4,2%. Mas em alguns lugares esses números são ainda maiores. No condomínio do bairro Cooperativa, em São Bernardo, esse índice chega a 10%, de acordo com o superintendente de ação regional da companhia, Célio da Silva Noffs. “Esse número é considerado baixo e conseguimos administrá-lo”, afirma.

Os apartamentos foram entregues há 14 meses para as 100 famílias que ficaram desabrigadas no deslizamento da favela do Jardim Silvina, há dois anos. Antes disso, elas aguardaram dez meses no alojamento da Prefeitura.

Os moradores afirmam que mais que os 10%, como diz a CDHU, já largaram as novas moradias. Eles contam que quase a metade já foi embora antes mesmo das parcelas para o pagamento da permissão de uso começarem a chegar. “Eles não têm condição de pagar água, luz e condomínio. Para quem não tinha dívidas, fica difícil assumir esses compromissos”, explica a diarista Luciene de Jesus Silva, 42 anos, que mora com seus cinco filhos no condomínio.

O preço do apartamento varia entre R$ 10 mil a R$ 12 mil, na maioria dos casos. “Já vi gente que vendeu por R$ 4 mil. Nem acreditei”, conta F.C., que pediu para ter sua identidade preservada.

Com medo de perderem o apartamento, os compradores não falaram com a reportagem. Os vizinhos contam que muitos deles moravam de aluguel em áreas carentes da cidade e alguns estavam na fila de espera pelas casas sorteadas pela CDHU.

Para os especialistas, a venda dos imóveis é reflexo da falta de integração das políticas públicas em benefício da população carente. “Um programa habitacional precisa estar casado com um projeto de geração de emprego e renda, que dará estrutura para essas famílias”, observa a socióloga e professora da PUC (Pontifícia Universidade Católica) Mônica de Carvalho.

Antes de receber moradia, a família deveria integrar ações efetivas de capacitação profissional, para ter renda e encaixar-se nessa nova vida. Para isso, nada de oficinas de artesanato. “Quem vai para o mercado de trabalho precisa saber Português, Matemática e Informática. Temos de ter programas que gerem capacidades reais de trabalho”, chama a atenção a assistente social e coordenadora do Clube de Violência e Justiça da PUC, Isaura Melo Castanho e Oliveira.

A venda também pode ser motivada pela falta de adaptação da família que, na maioria dos casos, estava acostumada a morar em regiões centrais e, geralmente, acaba transferida para áreas periféricas das cidades. Com a mudança de endereço, todos ficam longe do local de trabalho, da escola dos filhos e dos hospitais, sem falar nas relações pessoais e familiares, que ficam distanciadas.

Embora os motivos da venda pareçam bastante evidentes, Mônica explica que as principais ações ainda não estão voltadas para as novas condições da família. “Está na hora do poder público ver que a defasagem habitacional está na classe mais baixa e assumir isso. Ou se constrói casa para quem tem renda ou se dá subsídio para o pagamento de água, luz, IPTU e outras taxas que não existiam antes.”


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Apartamentos da CDHU são vendidos ilegalmente

Aline Mazzo
Do Diário do Grande ABC

04/02/2007 | 21:41


Nem sempre a história de quem recebe uma moradia da CDHU (Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano) tem final feliz. Várias famílias não conseguem se adaptar à nova vida e têm de abandonar o lar estável que há pouco conquistaram. Para isso, comercializam os imóveis de maneira irregular, a preços muito abaixo do mercado. Com o dinheiro, compram barracos na favela de onde saíram, voltam para a terra natal ou ainda vão para a casa de parentes.

Segundo dados da CDHU, o índice de empreendimentos vendidos gira em torno de 4,2%. Mas em alguns lugares esses números são ainda maiores. No condomínio do bairro Cooperativa, em São Bernardo, esse índice chega a 10%, de acordo com o superintendente de ação regional da companhia, Célio da Silva Noffs. “Esse número é considerado baixo e conseguimos administrá-lo”, afirma.

Os apartamentos foram entregues há 14 meses para as 100 famílias que ficaram desabrigadas no deslizamento da favela do Jardim Silvina, há dois anos. Antes disso, elas aguardaram dez meses no alojamento da Prefeitura.

Os moradores afirmam que mais que os 10%, como diz a CDHU, já largaram as novas moradias. Eles contam que quase a metade já foi embora antes mesmo das parcelas para o pagamento da permissão de uso começarem a chegar. “Eles não têm condição de pagar água, luz e condomínio. Para quem não tinha dívidas, fica difícil assumir esses compromissos”, explica a diarista Luciene de Jesus Silva, 42 anos, que mora com seus cinco filhos no condomínio.

O preço do apartamento varia entre R$ 10 mil a R$ 12 mil, na maioria dos casos. “Já vi gente que vendeu por R$ 4 mil. Nem acreditei”, conta F.C., que pediu para ter sua identidade preservada.

Com medo de perderem o apartamento, os compradores não falaram com a reportagem. Os vizinhos contam que muitos deles moravam de aluguel em áreas carentes da cidade e alguns estavam na fila de espera pelas casas sorteadas pela CDHU.

Para os especialistas, a venda dos imóveis é reflexo da falta de integração das políticas públicas em benefício da população carente. “Um programa habitacional precisa estar casado com um projeto de geração de emprego e renda, que dará estrutura para essas famílias”, observa a socióloga e professora da PUC (Pontifícia Universidade Católica) Mônica de Carvalho.

Antes de receber moradia, a família deveria integrar ações efetivas de capacitação profissional, para ter renda e encaixar-se nessa nova vida. Para isso, nada de oficinas de artesanato. “Quem vai para o mercado de trabalho precisa saber Português, Matemática e Informática. Temos de ter programas que gerem capacidades reais de trabalho”, chama a atenção a assistente social e coordenadora do Clube de Violência e Justiça da PUC, Isaura Melo Castanho e Oliveira.

A venda também pode ser motivada pela falta de adaptação da família que, na maioria dos casos, estava acostumada a morar em regiões centrais e, geralmente, acaba transferida para áreas periféricas das cidades. Com a mudança de endereço, todos ficam longe do local de trabalho, da escola dos filhos e dos hospitais, sem falar nas relações pessoais e familiares, que ficam distanciadas.

Embora os motivos da venda pareçam bastante evidentes, Mônica explica que as principais ações ainda não estão voltadas para as novas condições da família. “Está na hora do poder público ver que a defasagem habitacional está na classe mais baixa e assumir isso. Ou se constrói casa para quem tem renda ou se dá subsídio para o pagamento de água, luz, IPTU e outras taxas que não existiam antes.”

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