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O cinquentão Paço Municipal de São Bernardo

Denis Maciel/DGABC Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra

Equipamento completa 50 anos com homenagem a Tancredo Neves, sem inauguração formal e palco de grandes atos contra ditadura


Raphael Rocha
Do Diário do Grande ABC

24/11/2019 | 07:00


Quando Lauro Gomes de Almeida chamou um grupo de recém-formados arquitetos para mudar a cara de São Bernardo, encomendou uma obra que se tornaria símbolo não apenas da cidade, mas de um País. O Paço, instalado na Praça Samuel Sabatini, no Centro, completa neste ano cinco décadas de existência como um dos palcos principais da luta contra a ditadura militar (1964-1985).

Era começo de 1964 quando o então prefeito Lauro Gomes criou o departamento de obras e planejamento de um município que começava a mudar de rosto. Por sua proximidade com a Baixada Santista, São Bernardo havia sido escolhida por grandes montadoras para acolher filiais. Lauro despachava de um gabinete na Rua Doutor Fláquer, na região da Rua Marechal Deodoro, porém tinha planos ousados. Inspirado na construção de Brasília, queria ter em seu município um espaço para centrar o poder político local e que, à distância, todos pudessem reconhecer.

Essa equipe era chefiada por Jorge Bomfim (hoje com 85 anos), formado não havia muito tempo em arquitetura no Mackenzie. Várias foram as encomendas, como escolas e centros de lazer. O Paço era o mais complexo. Bomfim teve ao seu lado trabalho de Toru Kanazawa. A obra teve início naquele ano, mas Lauro Gomes pouco acompanhou. Primeiramente porque se elegeu prefeito em Santo André. Depois porque, em maio de 1964, morreu, vítima de infarto. Mas havia emplacado seu sucessor em São Bernardo e Hygino Baptista de Lima manteve seus planos.

O lugar escolhido para o Paço gerou controvérsia na época. Encravado em área com recorrentes alagamentos, o local precisaria ser completamente transformado. Mas, conforme o historiador Ademir Medici, o boato que correu na época era que o motivo principal era aproximar o centro do poder do bairro Rudge Ramos, que ensaiava um movimento municipalista.

Filho do arquiteto da obra, André Bomfim assegurou que os empecilhos foram previstos à época. Tanto que a ideia era, além do Paço e do viário, desenhar uma rota de escoamento da água até o Ribeirão dos Meninos, em traçado reto onde hoje está o Shopping Metrópole. “Fizeram a Rua Jurubatuba, duplicaram a Avenida Faria Lima, com objetivo de aterrar tudo, fios, esgoto, tubulação. E a água passaria por onde hoje está o shopping.” Mas ele recorda que a parte de fundação foi, de longe, a etapa mais complexa da intervenção. “Passava um rio embaixo. Batia (a estaca) e afundava.”

A obra redesenhou aquela região por completo. Em cima de uma área de 65 mil metros quadrados, foram projetados o prédio do Executivo, de 19 andares, a Câmara, um centro cívico com parlatório em mosaico português. Bomfim revelou que o plano original ainda consistia em ter uma área cultural e de lazer ao lado do Paço, onde hoje estão o Parque da Juventude e a futura Fábrica de Cultura (que por anos foi um mercado municipal). Todas as estruturas seriam interligadas por uma esplanada ampla, com carros passando por baixo. Essa etapa da obra, porém, não foi tocada adiante depois da mudança de prefeito: havia assumido Aldino Pinotti, adversário de Hygino. O ano era 1969, com Pinotti no poder. Curiosamente, não houve inauguração oficial do prédio. Os funcionários foram ocupando as salas. O prefeito chegou em setembro daquele ano.

Em vez da esplanada, optou-se pela construção de passarelas. André Bomfim disse que foi a primeira decepção de seu pai com o projeto. Depois, nos anos 1980, com a construção de escada de emergência, e nos anos 2000, com a nova Câmara, a decepção passou a ser repulsa. Tanto que Jorge evitava passar pelo Paço. “A gente almoçava em restaurantes ali perto (moram em Santo André). Minha filha fazia natação em escola próxima também. Ele demorava uma hora a mais para não passar em frente”, relatou André. A construção do Piscinão do Paço, terminada em agosto deste ano, foi a última grande modificação no local. O mosaico português foi suprimido por área gramada, agora com a promessa de colocar fim às enchentes na região central.

Entretanto, mesmo todas as modificações não apagam o simbolismo do Paço. Nem as histórias. Vários foram os comícios realizados no local. Em 1979, houve o icônico episódio em que diversos moradores tentaram escrever a palavra democracia, enfileirados na esplanada. A polícia da época não deixou e dispersou os manifestantes, que conseguiram formular apenas a impronunciável “democr”. Em 1985, o então prefeito Aron Galante decidiu dar o nome de Tancredo Neves ao Paço – eleito primeiro presidente pós-regime, Tancredo morreu antes de assumir.

Atual prefeito, Orlando Morando (PSDB) resgatou sua relação com o Paço. “Eu me lembro, quando garoto, a admiração de ver a esplanada do Paço e dos momentos de lazer por todo o arredor do prédio, junto com a minha família. Ao assumir a Prefeitura, me deparei com uma realidade completamente diferente, um cenário de abandono, muito triste e sem acessos. Sem dúvida, foi um dos desafios mais complexos assumido por mim como prefeito. O trabalho foi intenso tanto para a entrega do Piscinão do Paço, quanto para a recuperação de toda a esplanada. Hoje, voltou a ser motivo de orgulho ver muitas famílias frequentando o local, assim como garantir a execução do maior equipamento de combate às fortes chuvas.”



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O cinquentão Paço Municipal de São Bernardo

Equipamento completa 50 anos com homenagem a Tancredo Neves, sem inauguração formal e palco de grandes atos contra ditadura

Raphael Rocha
Do Diário do Grande ABC

24/11/2019 | 07:00


Quando Lauro Gomes de Almeida chamou um grupo de recém-formados arquitetos para mudar a cara de São Bernardo, encomendou uma obra que se tornaria símbolo não apenas da cidade, mas de um País. O Paço, instalado na Praça Samuel Sabatini, no Centro, completa neste ano cinco décadas de existência como um dos palcos principais da luta contra a ditadura militar (1964-1985).

Era começo de 1964 quando o então prefeito Lauro Gomes criou o departamento de obras e planejamento de um município que começava a mudar de rosto. Por sua proximidade com a Baixada Santista, São Bernardo havia sido escolhida por grandes montadoras para acolher filiais. Lauro despachava de um gabinete na Rua Doutor Fláquer, na região da Rua Marechal Deodoro, porém tinha planos ousados. Inspirado na construção de Brasília, queria ter em seu município um espaço para centrar o poder político local e que, à distância, todos pudessem reconhecer.

Essa equipe era chefiada por Jorge Bomfim (hoje com 85 anos), formado não havia muito tempo em arquitetura no Mackenzie. Várias foram as encomendas, como escolas e centros de lazer. O Paço era o mais complexo. Bomfim teve ao seu lado trabalho de Toru Kanazawa. A obra teve início naquele ano, mas Lauro Gomes pouco acompanhou. Primeiramente porque se elegeu prefeito em Santo André. Depois porque, em maio de 1964, morreu, vítima de infarto. Mas havia emplacado seu sucessor em São Bernardo e Hygino Baptista de Lima manteve seus planos.

O lugar escolhido para o Paço gerou controvérsia na época. Encravado em área com recorrentes alagamentos, o local precisaria ser completamente transformado. Mas, conforme o historiador Ademir Medici, o boato que correu na época era que o motivo principal era aproximar o centro do poder do bairro Rudge Ramos, que ensaiava um movimento municipalista.

Filho do arquiteto da obra, André Bomfim assegurou que os empecilhos foram previstos à época. Tanto que a ideia era, além do Paço e do viário, desenhar uma rota de escoamento da água até o Ribeirão dos Meninos, em traçado reto onde hoje está o Shopping Metrópole. “Fizeram a Rua Jurubatuba, duplicaram a Avenida Faria Lima, com objetivo de aterrar tudo, fios, esgoto, tubulação. E a água passaria por onde hoje está o shopping.” Mas ele recorda que a parte de fundação foi, de longe, a etapa mais complexa da intervenção. “Passava um rio embaixo. Batia (a estaca) e afundava.”

A obra redesenhou aquela região por completo. Em cima de uma área de 65 mil metros quadrados, foram projetados o prédio do Executivo, de 19 andares, a Câmara, um centro cívico com parlatório em mosaico português. Bomfim revelou que o plano original ainda consistia em ter uma área cultural e de lazer ao lado do Paço, onde hoje estão o Parque da Juventude e a futura Fábrica de Cultura (que por anos foi um mercado municipal). Todas as estruturas seriam interligadas por uma esplanada ampla, com carros passando por baixo. Essa etapa da obra, porém, não foi tocada adiante depois da mudança de prefeito: havia assumido Aldino Pinotti, adversário de Hygino. O ano era 1969, com Pinotti no poder. Curiosamente, não houve inauguração oficial do prédio. Os funcionários foram ocupando as salas. O prefeito chegou em setembro daquele ano.

Em vez da esplanada, optou-se pela construção de passarelas. André Bomfim disse que foi a primeira decepção de seu pai com o projeto. Depois, nos anos 1980, com a construção de escada de emergência, e nos anos 2000, com a nova Câmara, a decepção passou a ser repulsa. Tanto que Jorge evitava passar pelo Paço. “A gente almoçava em restaurantes ali perto (moram em Santo André). Minha filha fazia natação em escola próxima também. Ele demorava uma hora a mais para não passar em frente”, relatou André. A construção do Piscinão do Paço, terminada em agosto deste ano, foi a última grande modificação no local. O mosaico português foi suprimido por área gramada, agora com a promessa de colocar fim às enchentes na região central.

Entretanto, mesmo todas as modificações não apagam o simbolismo do Paço. Nem as histórias. Vários foram os comícios realizados no local. Em 1979, houve o icônico episódio em que diversos moradores tentaram escrever a palavra democracia, enfileirados na esplanada. A polícia da época não deixou e dispersou os manifestantes, que conseguiram formular apenas a impronunciável “democr”. Em 1985, o então prefeito Aron Galante decidiu dar o nome de Tancredo Neves ao Paço – eleito primeiro presidente pós-regime, Tancredo morreu antes de assumir.

Atual prefeito, Orlando Morando (PSDB) resgatou sua relação com o Paço. “Eu me lembro, quando garoto, a admiração de ver a esplanada do Paço e dos momentos de lazer por todo o arredor do prédio, junto com a minha família. Ao assumir a Prefeitura, me deparei com uma realidade completamente diferente, um cenário de abandono, muito triste e sem acessos. Sem dúvida, foi um dos desafios mais complexos assumido por mim como prefeito. O trabalho foi intenso tanto para a entrega do Piscinão do Paço, quanto para a recuperação de toda a esplanada. Hoje, voltou a ser motivo de orgulho ver muitas famílias frequentando o local, assim como garantir a execução do maior equipamento de combate às fortes chuvas.”

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