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Cem anos depois, Matarazzo vira ruína

Nario Barbosa/DGABC Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra

Camila Galvez

03/06/2012 | 07:00


O ano era 1912. O Grupo Matarazzo arrendara as quatro fábricas da antiga Pamplona, que produzia sabões e óleos vegetais em São Caetano. Iniciava-se assim o império das Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo, que até a década de 1980 trouxe progresso e desenvolvimento ao bairro Fundação e ao Grande ABC. Cem anos depois, maio de 2012, é concluída a demolição dos galpões abandonados. O que resta são ruínas, insegurança e a sensação de que uma parte importante da história da cidade virou pó.

Foi com esse sentimento que a professora e moradora do bairro Maria de Lourdes Pires de Barros, 52 anos, criou o movimento SOS Matarazzo, que na última semana divulgou fotos do atual estado dos galpões na coluna Memória do Diário. "As ruínas refletem o abandono do bairro Fundação. Ninguém diz o que vai ser feito aí. O parque virou só promessa", afirmou, referindo-se ao projeto de construção de área verde nos 18 mil metros quadrados do terreno que pertencem à Prefeitura, a partir da Praça Comendador Ermelino Matarazzo. O restante da área, que tem 200 mil metros quadrados no total (incluindo a antiga Cerâmica, na Rua Boa Vista), pertence à empresa Sunset, com a qual a reportagem do Diário não conseguiu contato. Tanto a empresa quanto a Prefeitura demoliram as construções que ainda estavam de pé em seus respectivos terrenos (leia mais abaixo).

Como a maioria das famílias que vivem no bairro, Maria de Lourdes tem parentes que trabalharam na indústria. Um deles é o tio Ovídio Perrela, 89. Por seis anos, seu Ovídio trabalhou na indústria como torneiro mecânico. "Naquela época era uma profissão ótima, pagava-se muito bem."

Quase cego e surdo, seu Ovídio não viu a fábrica se transformar em um amontoado de tijolos e ferro retorcido. Ruínas que se tornaram esconderijo para usuários de drogas. E metais que atraem catadores em busca de renda extra. "Ouvi gente falar que tirou uma tonelada de ferro daqui. Isso dá cerca de R$ 320", garante Leandro Santos Silva, 36, que está desempregado e encontrou na Matarazzo um meio de se sustentar.

RELÍQUIAS - A aglomeração de carroceiros preocupa os vizinhos. "Havia coisas de valor aí dentro. Na Cerâmica mesmo a gente via um busto de bronze. Eles (catadores) devem ter levado tudo", reclama o marido de Marida de Lourdes, o advogado Luis Carlos de Barros, 52.

A irmã da fundadora da SOS Matarazzo, Ercília Pires Fournier, mora em frente à antiga Cerâmica e diz ter ganhado azulejos dos funcionários que realizaram a demolição. "É triste ver isso no chão. Além da história que se perde, o terreno aberto como está desvaloriza o bairro e atrai gente mal intencionada. É perigoso."

O sociólogo José Roberto Gianello acredita que tudo o que havia de valor histórico no terreno foi removido e levado para o museu municipal. "A Matarazzo começou a cair a partir do momento em que fechou as portas. Antes da confirmação da contaminação do terreno, muita gente entrou ali para retirar azulejos, louças, tijolos e outras relíquias. Hoje, o risco não compensa."

Apenas para os catadores, ainda parece haver riquezas no abandono do antigo império industrial dos Matarazzo.

Contaminação impede obras no terreno

Apesar de haver poucos terrenos disponíveis em São Caetano, a área de 200 mil metros quadrados onde funcionou a Matarazzo ainda não pode ser aproveitada. O terreno está contaminado por BHC (hexaclorobenzeno) e mercúrio, que afetaram o solo e as águas subterrâneas, e consta no relatório de áreas contaminadas da Cetesb (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo).

Segundo a autarquia estadual, a área pode ser recuperada, mas todo o processo de destinação para novos fins, seja o parque proposto pela Prefeitura ou qualquer outro tipo de construção, deve ser feita com autorização do órgão. Não há prazos, embora o prefeito José Auricchio Júnior prometa a área verde aos moradores desde 2010.

A empresa Sunset, dona da maior parte do terreno, chegou a pedir autorização à Cetesb para construir edificações (não foi especificado o tipo) no mesmo ano que Auricchio anunciou o parque. No entanto, os telefones da construtora, com sede em São José dos Campos, não atendem, e seu site estava fora do ar, o que impossibilitou o contato para detalhar o projeto.

A demolição de parte do terreno que pertence à empresa, inclusive, foi feita de forma irregular, sem álvara municipal. Uma parede na Rua Maximiliano Lorenzini chegou a ruir sobre a calçada há duas semanas, sem ferir ninguém, mas impedindo o fluxo de veículos. Após o acidente, foi lavrada multa no valor de R$ 723,46.

A administração solicitou ainda que fossem tomadas todas as providências e realizadas as intervenções necessárias para evitar riscos e garantir que a tradicional Festa Italiana, que em agosto chega à 20ª edição, possa ser realizada sem apresentar risco às pessoas. A Secretaria de Obras e Habitação realiza o acompanhamento dos procedimentos.



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Cem anos depois, Matarazzo vira ruína

Camila Galvez

03/06/2012 | 07:00


O ano era 1912. O Grupo Matarazzo arrendara as quatro fábricas da antiga Pamplona, que produzia sabões e óleos vegetais em São Caetano. Iniciava-se assim o império das Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo, que até a década de 1980 trouxe progresso e desenvolvimento ao bairro Fundação e ao Grande ABC. Cem anos depois, maio de 2012, é concluída a demolição dos galpões abandonados. O que resta são ruínas, insegurança e a sensação de que uma parte importante da história da cidade virou pó.

Foi com esse sentimento que a professora e moradora do bairro Maria de Lourdes Pires de Barros, 52 anos, criou o movimento SOS Matarazzo, que na última semana divulgou fotos do atual estado dos galpões na coluna Memória do Diário. "As ruínas refletem o abandono do bairro Fundação. Ninguém diz o que vai ser feito aí. O parque virou só promessa", afirmou, referindo-se ao projeto de construção de área verde nos 18 mil metros quadrados do terreno que pertencem à Prefeitura, a partir da Praça Comendador Ermelino Matarazzo. O restante da área, que tem 200 mil metros quadrados no total (incluindo a antiga Cerâmica, na Rua Boa Vista), pertence à empresa Sunset, com a qual a reportagem do Diário não conseguiu contato. Tanto a empresa quanto a Prefeitura demoliram as construções que ainda estavam de pé em seus respectivos terrenos (leia mais abaixo).

Como a maioria das famílias que vivem no bairro, Maria de Lourdes tem parentes que trabalharam na indústria. Um deles é o tio Ovídio Perrela, 89. Por seis anos, seu Ovídio trabalhou na indústria como torneiro mecânico. "Naquela época era uma profissão ótima, pagava-se muito bem."

Quase cego e surdo, seu Ovídio não viu a fábrica se transformar em um amontoado de tijolos e ferro retorcido. Ruínas que se tornaram esconderijo para usuários de drogas. E metais que atraem catadores em busca de renda extra. "Ouvi gente falar que tirou uma tonelada de ferro daqui. Isso dá cerca de R$ 320", garante Leandro Santos Silva, 36, que está desempregado e encontrou na Matarazzo um meio de se sustentar.

RELÍQUIAS - A aglomeração de carroceiros preocupa os vizinhos. "Havia coisas de valor aí dentro. Na Cerâmica mesmo a gente via um busto de bronze. Eles (catadores) devem ter levado tudo", reclama o marido de Marida de Lourdes, o advogado Luis Carlos de Barros, 52.

A irmã da fundadora da SOS Matarazzo, Ercília Pires Fournier, mora em frente à antiga Cerâmica e diz ter ganhado azulejos dos funcionários que realizaram a demolição. "É triste ver isso no chão. Além da história que se perde, o terreno aberto como está desvaloriza o bairro e atrai gente mal intencionada. É perigoso."

O sociólogo José Roberto Gianello acredita que tudo o que havia de valor histórico no terreno foi removido e levado para o museu municipal. "A Matarazzo começou a cair a partir do momento em que fechou as portas. Antes da confirmação da contaminação do terreno, muita gente entrou ali para retirar azulejos, louças, tijolos e outras relíquias. Hoje, o risco não compensa."

Apenas para os catadores, ainda parece haver riquezas no abandono do antigo império industrial dos Matarazzo.

Contaminação impede obras no terreno

Apesar de haver poucos terrenos disponíveis em São Caetano, a área de 200 mil metros quadrados onde funcionou a Matarazzo ainda não pode ser aproveitada. O terreno está contaminado por BHC (hexaclorobenzeno) e mercúrio, que afetaram o solo e as águas subterrâneas, e consta no relatório de áreas contaminadas da Cetesb (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo).

Segundo a autarquia estadual, a área pode ser recuperada, mas todo o processo de destinação para novos fins, seja o parque proposto pela Prefeitura ou qualquer outro tipo de construção, deve ser feita com autorização do órgão. Não há prazos, embora o prefeito José Auricchio Júnior prometa a área verde aos moradores desde 2010.

A empresa Sunset, dona da maior parte do terreno, chegou a pedir autorização à Cetesb para construir edificações (não foi especificado o tipo) no mesmo ano que Auricchio anunciou o parque. No entanto, os telefones da construtora, com sede em São José dos Campos, não atendem, e seu site estava fora do ar, o que impossibilitou o contato para detalhar o projeto.

A demolição de parte do terreno que pertence à empresa, inclusive, foi feita de forma irregular, sem álvara municipal. Uma parede na Rua Maximiliano Lorenzini chegou a ruir sobre a calçada há duas semanas, sem ferir ninguém, mas impedindo o fluxo de veículos. Após o acidente, foi lavrada multa no valor de R$ 723,46.

A administração solicitou ainda que fossem tomadas todas as providências e realizadas as intervenções necessárias para evitar riscos e garantir que a tradicional Festa Italiana, que em agosto chega à 20ª edição, possa ser realizada sem apresentar risco às pessoas. A Secretaria de Obras e Habitação realiza o acompanhamento dos procedimentos.

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