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Somos diferentes, especiais e felizes

Alunos da Emeief Darcy Ribeiro descobrem que cada um tem seu valor, seja do jeito que for


Mirela Tavares
Do Diário do Grande ABC

26/11/2011 | 07:00


Em uma sociedade regida por padrões de beleza que ditam as características físicas de homens e mulheres, como ser magro e ter cabelos lisos, os alunos da Emeief Darcy Ribeiro, no Parque Oratório, em Santo André, fazem o contrário, valorizando as diferenças.

Estimulados pelo projeto Sou Único e Especial, desenvolvido pela professora Iara Cristina Dameto Prudêncio, as crianças têm demonstrado cada vez mais aceitação e respeito entre si. "O meu objetivo é mostrar para cada uma delas o quanto são especiais e amadas por suas próprias características", afirma Iara.

Sejam mais altos ou mais baixos, gordinhos ou não, brancos ou negros, tímidos ou extrovertidos, os alunos passaram a se respeitar pelo que são. O projeto começou usando fotografias de quando eles ainda eram bebês, comparando como são hoje. Na medida em que foram percebendo que ao nascer uns eram mais gordinhos e ficaram magros, outros o contrário; uns eram carequinhas e hoje têm muito cabelo; uns têm cabelo cacheado e outros liso; alguns com olhos claros e outros escuros; entre tantas outras diferenças, eles começaram a perceber que o ‘padrão', na realidade, significa um ser diferente do outro. "Eles viram que a coleguinha que tinha o menor tamanho quando nasceu em relação aos demais, hoje é a maior da turma", disse Iara.

Além de muitas atividades em rodas de conversa, o projeto também incluiu muita pesquisa envolvendo a participação de familiares. "Eles tiveram de perguntar aos pais ou responsáveis como eram quando nasceram, quem deu nome a eles, como se comportavam, entre outros detalhes", afirma Iara. As estruturas familiar e social também foram comparadas e diferenças como viver apenas com os avós ou não ter a presença paterna deixaram de ser problemas. "Eles entenderam que são especiais assim mesmo e que todos apresentam características fora do que é considerado padrão", comenta.

Apesar da pouca idade, Letícia Vitória Lima Bezerra, 4 anos, sabe muito bem do que a professora está falando. "Eu gosto do meu cabelo e acho ele bonito", diz ela, que também considera os coleguinhas bonitos, mesmo muitos deles sendo bem diferentes dela.

Para Giovanna Yolanda Lucchi, 4 anos, as comparações foram importantes por ela ter aprendido o quanto é importante ter cuidado com os bebês. "Eles choram muito e fazem xixi na cama", diz ela, contando que também já molhou o bercinho.

Para a assistente pedagógica Marta Maria Baldin, o projeto é importante principalmente pela promoção de integração entre as crianças e os reflexos em casa, além da vantagem de envolver intensamente a família. Recentemente, as mães estiveram na sala de aula e puderam comparar o comportamento dos filhos em casa e na escola, acompanhando um dia de atividades e assistindo, de perto, tudo que fazem em sala. "Esse trabalho de comparação e aceitação do outro contribui para o desenvolvimento de um papel mais colaborativo."

Respeitar as diferenças é lição de cidadania

Em uma das atividades do dia, a professora passou aos alunos a tarefa de mostrar em desenho o que mais chamou a atenção deles ao longo do ano.

Nos traços e cores estavam lá as árvores, o amarelo do sol, a nuvem e a escola. Mas havia duas características que demonstravam como o grupo termina o ano bem unido. As crianças colocaram os seus amigos de classe na maioria dos trabalhos. E em todos os desenhos, a figura da professora Simone Regina Bortoloti Silva foi retratada usando mais de um tipo de penteado e estilo de roupa. Porém, na estampa das vestimentas, a palavra amor predominou nas formas de eu te amo, eu amo você e até love.

Pode-se dizer que, na escola que leva o nome do mais ilustre romancista brasileiro, Emeief Machado de Assis, no Parque Miami, em Santo André, os 30 alunos do 5º ano amam a sua mestre. Uma unanimidade. "Quando cheguei aqui a sala era muito heterogênea e havia deficit grande em relação aos aspectos cognitivos, emocional e social. Eles não tinham pique para estudar", conta Simone.

A professora estruturou o projeto Respeito às Diferenças - um conto na escola! para dar a virada nessa história. As aulas eram iniciadas com roda de conversa. Nelas, Simone conseguiu detectar quais alunos tinham problemas para se relacionar com seus colegas e os motivos. Achou Gustavo da Silva Oliveira, 11 anos. "Ele tem a autoestima muito baixa porque era considerado um aluno complicado. Para se ter uma ideia, ele só se alfabetizou neste ano. Eu o trouxe para a frente da sala e o fiz participar", relata. Resultado: Gustavo fez um desenho da professora saindo de trás de duas montanhas, com os braços abertos e a palma das mãos viradas para frente. Parece uma santa. O queixo é projetado para o alto e no centro do peito a palavra amor esta escrito em letra maiúscula. Compõem a paisagem o arco-iris e um sol de rachar. "É a única professora que quando estou com dificuldade vem me ajudar", diz o menino.

Nas mãos da professora ninguém escapou, ela quis incluir todo mundo. E, na concepção de Simone, incluir não é apenas colocar um cadeirante para conviver com outros alunos. "Incluir para mim é agregar do indisciplinado a criança com problemas cognitivos", define.

Nesse período, caiu em suas mãos o livro Juntos Somos Ótimos, de Franz- Joseph Huainigg e Verena Balhaus. Nele, uma criança com síndrome de Down e uma menina de cadeira de rodas se divertem e se ajudam nas tarefas. Adotou o título nas atividades em aula. As crianças adoraram e os trabalhos avançaram. Erick Couto dos Santos, 11 anos, é deficiente intelectual. Quando chegou na escola só desenhava bolinhas e os traços não tinham esquema corporal; não conseguia contar e nem soletrar. Hoje, conta até 30 e participa de jogos de soluções de problemas, como soletrar palavras. "Os exercícios são adaptados, preciso usar material concreto, como palito de sorvete e lápis", conta, feliz. (Selma Viana)



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Somos diferentes, especiais e felizes

Alunos da Emeief Darcy Ribeiro descobrem que cada um tem seu valor, seja do jeito que for

Mirela Tavares
Do Diário do Grande ABC

26/11/2011 | 07:00


Em uma sociedade regida por padrões de beleza que ditam as características físicas de homens e mulheres, como ser magro e ter cabelos lisos, os alunos da Emeief Darcy Ribeiro, no Parque Oratório, em Santo André, fazem o contrário, valorizando as diferenças.

Estimulados pelo projeto Sou Único e Especial, desenvolvido pela professora Iara Cristina Dameto Prudêncio, as crianças têm demonstrado cada vez mais aceitação e respeito entre si. "O meu objetivo é mostrar para cada uma delas o quanto são especiais e amadas por suas próprias características", afirma Iara.

Sejam mais altos ou mais baixos, gordinhos ou não, brancos ou negros, tímidos ou extrovertidos, os alunos passaram a se respeitar pelo que são. O projeto começou usando fotografias de quando eles ainda eram bebês, comparando como são hoje. Na medida em que foram percebendo que ao nascer uns eram mais gordinhos e ficaram magros, outros o contrário; uns eram carequinhas e hoje têm muito cabelo; uns têm cabelo cacheado e outros liso; alguns com olhos claros e outros escuros; entre tantas outras diferenças, eles começaram a perceber que o ‘padrão', na realidade, significa um ser diferente do outro. "Eles viram que a coleguinha que tinha o menor tamanho quando nasceu em relação aos demais, hoje é a maior da turma", disse Iara.

Além de muitas atividades em rodas de conversa, o projeto também incluiu muita pesquisa envolvendo a participação de familiares. "Eles tiveram de perguntar aos pais ou responsáveis como eram quando nasceram, quem deu nome a eles, como se comportavam, entre outros detalhes", afirma Iara. As estruturas familiar e social também foram comparadas e diferenças como viver apenas com os avós ou não ter a presença paterna deixaram de ser problemas. "Eles entenderam que são especiais assim mesmo e que todos apresentam características fora do que é considerado padrão", comenta.

Apesar da pouca idade, Letícia Vitória Lima Bezerra, 4 anos, sabe muito bem do que a professora está falando. "Eu gosto do meu cabelo e acho ele bonito", diz ela, que também considera os coleguinhas bonitos, mesmo muitos deles sendo bem diferentes dela.

Para Giovanna Yolanda Lucchi, 4 anos, as comparações foram importantes por ela ter aprendido o quanto é importante ter cuidado com os bebês. "Eles choram muito e fazem xixi na cama", diz ela, contando que também já molhou o bercinho.

Para a assistente pedagógica Marta Maria Baldin, o projeto é importante principalmente pela promoção de integração entre as crianças e os reflexos em casa, além da vantagem de envolver intensamente a família. Recentemente, as mães estiveram na sala de aula e puderam comparar o comportamento dos filhos em casa e na escola, acompanhando um dia de atividades e assistindo, de perto, tudo que fazem em sala. "Esse trabalho de comparação e aceitação do outro contribui para o desenvolvimento de um papel mais colaborativo."

Respeitar as diferenças é lição de cidadania

Em uma das atividades do dia, a professora passou aos alunos a tarefa de mostrar em desenho o que mais chamou a atenção deles ao longo do ano.

Nos traços e cores estavam lá as árvores, o amarelo do sol, a nuvem e a escola. Mas havia duas características que demonstravam como o grupo termina o ano bem unido. As crianças colocaram os seus amigos de classe na maioria dos trabalhos. E em todos os desenhos, a figura da professora Simone Regina Bortoloti Silva foi retratada usando mais de um tipo de penteado e estilo de roupa. Porém, na estampa das vestimentas, a palavra amor predominou nas formas de eu te amo, eu amo você e até love.

Pode-se dizer que, na escola que leva o nome do mais ilustre romancista brasileiro, Emeief Machado de Assis, no Parque Miami, em Santo André, os 30 alunos do 5º ano amam a sua mestre. Uma unanimidade. "Quando cheguei aqui a sala era muito heterogênea e havia deficit grande em relação aos aspectos cognitivos, emocional e social. Eles não tinham pique para estudar", conta Simone.

A professora estruturou o projeto Respeito às Diferenças - um conto na escola! para dar a virada nessa história. As aulas eram iniciadas com roda de conversa. Nelas, Simone conseguiu detectar quais alunos tinham problemas para se relacionar com seus colegas e os motivos. Achou Gustavo da Silva Oliveira, 11 anos. "Ele tem a autoestima muito baixa porque era considerado um aluno complicado. Para se ter uma ideia, ele só se alfabetizou neste ano. Eu o trouxe para a frente da sala e o fiz participar", relata. Resultado: Gustavo fez um desenho da professora saindo de trás de duas montanhas, com os braços abertos e a palma das mãos viradas para frente. Parece uma santa. O queixo é projetado para o alto e no centro do peito a palavra amor esta escrito em letra maiúscula. Compõem a paisagem o arco-iris e um sol de rachar. "É a única professora que quando estou com dificuldade vem me ajudar", diz o menino.

Nas mãos da professora ninguém escapou, ela quis incluir todo mundo. E, na concepção de Simone, incluir não é apenas colocar um cadeirante para conviver com outros alunos. "Incluir para mim é agregar do indisciplinado a criança com problemas cognitivos", define.

Nesse período, caiu em suas mãos o livro Juntos Somos Ótimos, de Franz- Joseph Huainigg e Verena Balhaus. Nele, uma criança com síndrome de Down e uma menina de cadeira de rodas se divertem e se ajudam nas tarefas. Adotou o título nas atividades em aula. As crianças adoraram e os trabalhos avançaram. Erick Couto dos Santos, 11 anos, é deficiente intelectual. Quando chegou na escola só desenhava bolinhas e os traços não tinham esquema corporal; não conseguia contar e nem soletrar. Hoje, conta até 30 e participa de jogos de soluções de problemas, como soletrar palavras. "Os exercícios são adaptados, preciso usar material concreto, como palito de sorvete e lápis", conta, feliz. (Selma Viana)

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