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Chega o novo filme de David Lynch



14/12/2007 | 07:01


Há uma lenda, difundida pelo próprio David Lynch, segundo a qual ele queria ser pintor. As paisagens industriais de Império dos Sonhos, o novo filme de David Lynch que estréia nesta sexta-feira, poderiam mesmo ter saído de um quadro de Edward Hopper, por exemplo. Mas a principal influência do filme talvez seja outra, e literária.

Lynch diz que faz filmes como se fossem sonhos que o espectador deve sonhar acordado. Eles obedecem, ainda segundo o autor, a uma lógica que ele, no entanto, não quer desvendar para a platéia.

Cada um pense o que quiser. Pegue aquela família de coelhos que, de repente, irrompe nas cenas. O que aquilo representa? Já virou lugar-comum dos admiradores  de Lynch dizerem que representa o que você quiser e o importante é que o próprio  público decifre os signos do filme, sem esperar uma narrativa tradicional – ‘mastigada’ – como as de Hollywood.

Digamos que aqueles coelhos não estão ali impunemente e traduzem uma homenagem, ou referência, do autor a Lewis Carroll e a sua Alice.

Só que a Alice de David Lynch em Império dos Sonhos não é a do país das maravilhas e sim, antes, uma projetada no país do pesadelo.

As imagens de Laura Dern morrendo entre os sem-teto no Hollywood Boulevard são a radicalização desse pesadelo, mas, se existem uma Alice e um coelho (muitos coelhos), então também deve existir um espelho – e o espelho bem pode ser, ou é, metaforicamente o próprio cinema ao qual Império dos Sonhos se refere, pois a personagem de Laura Dern, vejam a coincidência, é uma atriz e está participando de um filme que, olhem a outra coincidência, vira maldito.

Para atravessar o espelho mágico do cinema, Lynch brinca com a relatividade dos pontos de vista. Há um crime, desde o início, mas a pergunta não é quem é o culpado e sim, quem é a vítima? Os atores são amantes na ficção, e ele quer seduzir a colega de elenco na vida.

O marido da realidade é ciumento e termina por invadir a ficção. Tudo se mistura e, para complicar, como dizem várias personagens, o tempo aparece como outro elemento perturbador e a gente não sabe mais o que vem antes nem depois. Tal é o quebra-cabeças armado por Lynch.

Lynch era um autor intrigante – quando fez O Homem-Elefante, Veludo Azul e Twin Peaks. Hoje em dia, virou gênero de si mesmo, e é previsível na sua imprevisibilidade.



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Chega o novo filme de David Lynch


14/12/2007 | 07:01


Há uma lenda, difundida pelo próprio David Lynch, segundo a qual ele queria ser pintor. As paisagens industriais de Império dos Sonhos, o novo filme de David Lynch que estréia nesta sexta-feira, poderiam mesmo ter saído de um quadro de Edward Hopper, por exemplo. Mas a principal influência do filme talvez seja outra, e literária.

Lynch diz que faz filmes como se fossem sonhos que o espectador deve sonhar acordado. Eles obedecem, ainda segundo o autor, a uma lógica que ele, no entanto, não quer desvendar para a platéia.

Cada um pense o que quiser. Pegue aquela família de coelhos que, de repente, irrompe nas cenas. O que aquilo representa? Já virou lugar-comum dos admiradores  de Lynch dizerem que representa o que você quiser e o importante é que o próprio  público decifre os signos do filme, sem esperar uma narrativa tradicional – ‘mastigada’ – como as de Hollywood.

Digamos que aqueles coelhos não estão ali impunemente e traduzem uma homenagem, ou referência, do autor a Lewis Carroll e a sua Alice.

Só que a Alice de David Lynch em Império dos Sonhos não é a do país das maravilhas e sim, antes, uma projetada no país do pesadelo.

As imagens de Laura Dern morrendo entre os sem-teto no Hollywood Boulevard são a radicalização desse pesadelo, mas, se existem uma Alice e um coelho (muitos coelhos), então também deve existir um espelho – e o espelho bem pode ser, ou é, metaforicamente o próprio cinema ao qual Império dos Sonhos se refere, pois a personagem de Laura Dern, vejam a coincidência, é uma atriz e está participando de um filme que, olhem a outra coincidência, vira maldito.

Para atravessar o espelho mágico do cinema, Lynch brinca com a relatividade dos pontos de vista. Há um crime, desde o início, mas a pergunta não é quem é o culpado e sim, quem é a vítima? Os atores são amantes na ficção, e ele quer seduzir a colega de elenco na vida.

O marido da realidade é ciumento e termina por invadir a ficção. Tudo se mistura e, para complicar, como dizem várias personagens, o tempo aparece como outro elemento perturbador e a gente não sabe mais o que vem antes nem depois. Tal é o quebra-cabeças armado por Lynch.

Lynch era um autor intrigante – quando fez O Homem-Elefante, Veludo Azul e Twin Peaks. Hoje em dia, virou gênero de si mesmo, e é previsível na sua imprevisibilidade.

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