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Tragédia desconhecida

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Vanessa Ratti

20/11/2016 | 07:00


 Todos os dias acontecia da mesma forma: trens de diferentes partes do Brasil iam com seus vagões cheios de passageiros com um único destino, o Hospital Colônia, de Barbacena, em Minas Gerais. “Diziam que eram os loucos, mas eu via bastante gente normal lá”, lembra o maquinista encarregado em fazer algumas dessas viagens. Este era apenas o começo do genocídio, que ocorreu entre 1930 a 1980, e relata fatos que os livros de história não registraram.

Quando a jornalista Daniela Arbex teve acesso a essas informações, o incômodo pela história ter sido silenciada provocou nela diversos sentimentos. E eles fizeram com que a jornalista buscasse sobreviventes da tragédia. Assim nasceu o best-seller Holocausto Brasileiro: Vida, Genocídio e 60 Mil Mortes No Maior Hospício do Brasil (Geração Editorial, em média R$ 32, 272 págs.), que tem como objetivo dar voz aos sobreviventes do Colônia. “O maior absurdo de tudo isso foi saber que nenhuma vítima foi procurada antes por ninguém, ou seja, esse acontecimento era desconhecido”, conta Daniela. A obra ficou em segundo lugar na categoria reportagem do Prêmio Jabuti em 2013. Na edição deste ano, a autora foi premiada na mesma categoria, com o Cova 312.

Hoje, os relatos alcançarão outros ouvidos, já que Holocausto Brasileiro foi transformado em documentário e será exibido no canal pago Max, às 21h. A produção foi dirigida pela própria jornalista, juntamente com Armando Mendz e produzido pela HBO. “O filme vai ajudar no sentido de fazer com que a história nunca mais seja esquecida. Além disso, desta vez nós tivemos acesso a pessoas que não participaram do livro. A pesquisa foi mais enriquecida”, diz.

INVESTIGAÇÃO
Em 2009, Daniela teve contato com fotos feitas no hospital em 1961 – as imagens fazem parte do livro e também do documentário – pelo mineiro Luiz Alfredo, no livro Colônia, produzido pelo governo de Minas Gerais. “Um dos objetivos dessa publicação era dizer que o sistema de Saúde do Estado havia mudado e melhorado. Diante daquelas fotos fiquei chocada porque não fazia nem ideia de onde e como a história surgiu”, conta.

E enquanto os fatos iam surgindo durante a pesquisa, a jornalista foi percebendo que não só pacientes com distúrbios psiquiátricos eram recebidos no local para o tratamento. Pessoas homossexuais, tímidas, meninas grávidas por patrões, mulheres abusadas sexualmente, crianças rejeitadas pelos pais por alguma anomalia e negros também eram mantidos no Colônia e em condições precárias: sem comida, água, roupa e submetidos a choques. Entre os relatos do documentário está o de uma mulher que foi separada do filho durante anos. “Trabalhava em casa de família e fui abusada pelo meu patrão, quando a barriga começou a crescer ele mandou me levarem para internação.” As mortes também eram tratadas com indiferença: os corpos, que muitas vezes não tinham identidade nem família, eram vendidos para universidades de Minas Gerais.

E, assim, o silêncio durou décadas. Médicos, enfermeiros, governantes, faculdades e a população assistiram calados a existência do hospício que matou mais do que guerras. “Todos nós somos culpados dessa tragédia que manchou de sangue o Brasil”, reflete Daniela Arbex.



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Tragédia desconhecida

Vanessa Ratti

20/11/2016 | 07:00


 Todos os dias acontecia da mesma forma: trens de diferentes partes do Brasil iam com seus vagões cheios de passageiros com um único destino, o Hospital Colônia, de Barbacena, em Minas Gerais. “Diziam que eram os loucos, mas eu via bastante gente normal lá”, lembra o maquinista encarregado em fazer algumas dessas viagens. Este era apenas o começo do genocídio, que ocorreu entre 1930 a 1980, e relata fatos que os livros de história não registraram.

Quando a jornalista Daniela Arbex teve acesso a essas informações, o incômodo pela história ter sido silenciada provocou nela diversos sentimentos. E eles fizeram com que a jornalista buscasse sobreviventes da tragédia. Assim nasceu o best-seller Holocausto Brasileiro: Vida, Genocídio e 60 Mil Mortes No Maior Hospício do Brasil (Geração Editorial, em média R$ 32, 272 págs.), que tem como objetivo dar voz aos sobreviventes do Colônia. “O maior absurdo de tudo isso foi saber que nenhuma vítima foi procurada antes por ninguém, ou seja, esse acontecimento era desconhecido”, conta Daniela. A obra ficou em segundo lugar na categoria reportagem do Prêmio Jabuti em 2013. Na edição deste ano, a autora foi premiada na mesma categoria, com o Cova 312.

Hoje, os relatos alcançarão outros ouvidos, já que Holocausto Brasileiro foi transformado em documentário e será exibido no canal pago Max, às 21h. A produção foi dirigida pela própria jornalista, juntamente com Armando Mendz e produzido pela HBO. “O filme vai ajudar no sentido de fazer com que a história nunca mais seja esquecida. Além disso, desta vez nós tivemos acesso a pessoas que não participaram do livro. A pesquisa foi mais enriquecida”, diz.

INVESTIGAÇÃO
Em 2009, Daniela teve contato com fotos feitas no hospital em 1961 – as imagens fazem parte do livro e também do documentário – pelo mineiro Luiz Alfredo, no livro Colônia, produzido pelo governo de Minas Gerais. “Um dos objetivos dessa publicação era dizer que o sistema de Saúde do Estado havia mudado e melhorado. Diante daquelas fotos fiquei chocada porque não fazia nem ideia de onde e como a história surgiu”, conta.

E enquanto os fatos iam surgindo durante a pesquisa, a jornalista foi percebendo que não só pacientes com distúrbios psiquiátricos eram recebidos no local para o tratamento. Pessoas homossexuais, tímidas, meninas grávidas por patrões, mulheres abusadas sexualmente, crianças rejeitadas pelos pais por alguma anomalia e negros também eram mantidos no Colônia e em condições precárias: sem comida, água, roupa e submetidos a choques. Entre os relatos do documentário está o de uma mulher que foi separada do filho durante anos. “Trabalhava em casa de família e fui abusada pelo meu patrão, quando a barriga começou a crescer ele mandou me levarem para internação.” As mortes também eram tratadas com indiferença: os corpos, que muitas vezes não tinham identidade nem família, eram vendidos para universidades de Minas Gerais.

E, assim, o silêncio durou décadas. Médicos, enfermeiros, governantes, faculdades e a população assistiram calados a existência do hospício que matou mais do que guerras. “Todos nós somos culpados dessa tragédia que manchou de sangue o Brasil”, reflete Daniela Arbex.

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