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Muita calma nessa hora


Marcela Munhoz
Do Diário do Grande ABC

27/02/2011 | 07:01


Quando o choro não passa após a TPM; quando a irritabilidade não aparece apenas quando o irmão caçula invade o quarto; quando o pavor não é só por barata, é hora de começar a pensar na probabilidade de que algo mais sério está acontecendo. Você já ouviu falar em Transtornos de Ansiedade?

Ansiedade é um estado emocional de apreensão, uma expectativa de que algo ruim aconteça. Um pouco dela é normal, como quando dá aquele friozinho na barriga antes de começar a prova. Faz parte da condição humana e atua como sinalizador de que um perigo está por vir.

O problema é quando esse sentimento é exagerado. Pode-se perder noites seguidas de sono só por causa de um compromisso na escola, por exemplo. "Quando a ansiedade é excessiva, ao invés de proteger, deixa a pessoa paralisada", explica a psicóloga Lilian Lerner Castro, vice-presidente da Aporta (Associação dos Portadores de Transtornos de Ansiedade).

E os sintomas não são apenas tristeza, irritabilidade, inquietude, preocupação e medo. O corpo também reage. "A musculatura fica tensa, dá vontade de ir ao banheiro, aparecem dores de cabeça e no corpo, enjoo, tremedeira, falta de ar, suor excessivo, entre outros (não precisa apresentar todos os sintomas para se tratar de um transtorno ansioso)", enumera o psiquiatra Fernando Asbahr, coordenador do programa de Transtornos Ansiosos na Infância e Adolescência do Hospital das Clínicas de São Paulo.

Mesmo parecendo doença de adulto, a ansiedade faz parte do dia a dia de crianças e adolescentes. De acordo com a Associação Americana de Transtornos de Ansiedade, entre 9% e 15% da população norte-americana de 5 a 16 anos sofre do distúrbio. "Antigamente, não se dava atenção à ansiedade deste público. Confundia-se com birra, manha. Hoje identifica-se e recorre-se muito mais cedo aos tratamentos", diz a psicóloga Lilian.

Cuidar do transtorno o quanto antes é essencial para que não cresça junto e vá para a vida adulta. Se não tratado corretamente, o adulto pode apresentar dificuldades de relacionamento e depressão. "Quanto mais cedo se avalia e faz o diagnóstico, melhor", diz o psquiatra Fernando. Segundo ele, geralmente o paciente precisa fazer terapia por um tempo e, em alguns casos, tomar remédios.

 

Vida moderna pode complicar - Segundo estudo publicado na revista Nature, a ansiedade pode estar ligada ao DNA. Quem tem pais ansiosos tem a propensão de também desenvolver o transtorno. Além disso, a influência do meio é um fator que não pode ser descartado. Provas, agitação, dezenas de atividades, violência, aumento de desastres e doenças favorecem o aparecimento da ansiedade.

"É difícil encontrar um adolescente que não tenha muitas tarefas a fazer. Quem não tem organização e equilibrio, acaba sendo afetado", explica a psicóloga Mara Raboni, doutora em psicobiologia e especialista em estresse. Os hábitos, nesse caso, são de extrema importância. "É preciso comer e dormir direito, sem pressa. Assim, a pessoa se sente mais disposta a encarar a vida."

O grande problema é que ansiedade não é fácil de ser diagnosticada. Nem quem sofre consegue dizer claramente o que tem. E mais do que isso: a adolescência, por si só, é uma fase confusa. Por isso, é importante consultar um psicólogo ou psiquiatra. "É preciso tomar cuidado com diagnósticos errados e tratamentos com remédios que não são devidamente prescritos. A ajuda da família é essencial na recuperação", enfatiza o psiquiatra Wimer Bottura Jr., do Comitê Multidisciplinar de Adolescência da Associação Paulista de Medicina.

 

Outros distúrbios de ansiedade - Pesquisas revelam que 90% de quem tem de 2 a 14 anos apresentam um medo específico. As fobias são temor ou aversão exagerada de situações, pessoas, objetos, animais, lugares. Tem gente que tem muito medo, por exemplo, de palhaços (coulrofobia), locais cheios de gente (agorafobia), de tomar banho (ablutofobia), de injeções (tripanofobia). São manifestações da ansiedade.

O TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo) também se enquadra no transtorno de ansiedade. São pensamentos obsessivos que insistem em aparecer durante todo o dia. Também pode surgir como rituais de verificação, ou seja, a pessoa acha que está suja e se lava muitas vezes ao dia, ou só vai fazer tal coisa se acontecer tal coisa. São idéias e/ou comportamentos que podem parecer absurdos ou ridículos para a própria pessoa e para os outros e mesmo assim são incontroláveis, repetitivos e persistentes.

O Transtorno do Pânico é uma crise aguda de ansiedade em que, muitas vezes, a pessoa tem a impressão de que vai morrer naquele exato momento ou que tem alguém a perseguindo. O organismo prepara-se para o perigo imaginário que está por vir e o coração dispara. O transtorno (conjunto de sinais e sintomas) atinge de 2% a 4% da população mundial.

 

Depressão é um caso à parte - O fato de a pessoa sofrer ataques de ansiedade não quer dizer obrigatoriamente que ela esteja com depressão, mesmo que alguns sintomas sejam comuns a ambas. A depressão pode aparecer depois de perdas, com sensações de solidão, baixa autoestima, entre outros. Pode haver redução de serotonina no cérebro (substância responsável por controlar o humor e a sensação de bem-estar). A ansiedade é o medo do que possa vir a acontecer de ruim. Saber a diferença é importante para o tratamento.

Os sintomas da depressão são muito variados, indo desde as sensações de tristeza, passando pelos pensamentos negativos até as alterações da sensação corporal como dores e enjoos. A pessoa tem perda de energia ou interesse, dificuldade de concentração, alterações do apetite e do sono, fica mais lenta nas atividades físicas e mentais, sente-se fraca e é bastante pessimista, chora muito e, às vezes, chega até a ter vontade de morrer.

Alguns casos de bullying, por exemplo, já desencadearam depressões em adolescentes que se mataram. "Tanto o agressor como o agredido devem receber ajuda psicológica", diz o psiquiatra Wimer Bottura Jr.

 

Aconteceu comigo ...

Gabi* (o nome foi trocado para preservar a identidade), 15 anos, de São Bernardo, estava tranquila até que no fim do ano começou a sentir falta de ar e as mãos e nariz formigando. "Estava no mercado com a minha mãe e achei que ia morrer. Fomos para o hospital", lembra a garota, que fez exames e nada foi constatado.

Gabi teve outras crises, passou a não querer mais sair de casa e chorava muito. "Rolava na cama até de manhã. Não queria ficar sozinha. Minha mãe começou a dormir no mesmo quarto."

A garota ficou assustada, principalmente, porque não tinha ideia do que poderia estar causando tudo aquilo. Até que foi a um psicólogo, que explicou que eram sinais de transtorno de ansiedade e de ataques de pânico.

"Aconteceu porque o ano passado foi bem estressante para mim. Tive muitas provas e minha festa de 15 anos não estava dando certo." Quando o corpo relaxa, a crise aparece.

Agora Gabi está bem melhor e segue fazendo tratamento com remédios. "Tive ajuda da família e amigos. Estou dormindo sozinha de novo."

 

O que fazer?

Está em dúvida se o que sente pode ser um transtorno de ansiedade? A primeira e principal atitude é falar. Relate aos pais, tios, professores tudo o que está sentindo. Quem é mais tímido e introspectivo, geralmente, sofre em silêncio, pois não consegue contar para alguém o que se passa.

"O adolescente geralmente é muito preocupado com a sua imagem perante o grupo e a sociedade. Ás vezes, tem vergonha de dizer que está fazendo terapia", explica a psicóloga Lilian Lerner Castro, que atende adolescentes com transtornos de ansiedade. "Muitos temem fenômenos da natureza (como enchentes e terremotos), além de violência e doenças."

Nesse caso, a tecnologia atrapalha. A quantidade de informações encontradas na internet pode confundir. Muitos usam o ‘Dr.Google'''''''' para isso e digitam os sintomas que estão sentindo, complicando a situação, já que nem tudo o que está lá é correto. No Brasil, de acordo com uma pesquisa do Comitê Gestor da Internet, 39% dos usuários usam a web para procurar informar-se sobre saúde.

 

Você sabia?

Depressão e ansiedade são responsáveis pela metade (740 milhões de pessoas) das doenças mentais existentes no mundo.

Em 2020 serão a segunda maior causa de incapacitação.

De acordo com estudos, uma criança ou adolescente ansiosos viram um adulto ansioso em 80% dos casos.

O número de crianças e adolescentes ansiosos aumentou em 60% nos últimos 10 anos no Brasil.

 

Participe de grupo de pesquisa sobre ansiedade - O HC de São Paulo está selecionando voluntários,de 7 a 17 anos, para programa de transtorno de ansiedade. São 20 vagas. Para triagem, entre em contato com Cláudia no telefone 3069-6978.



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