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Bocato: notas de pura emoção


Illenia Negrin
Do Diário do Grande ABC

25/09/2005 | 08:15


Na última quarta-feira, o homem de 45 anos e cara de menino, Itacyr Bocato Júnior, recebeu o título de cidadão honorável de Santo André, diante de vereadores, autoridades municipais e admiradores, na Câmara Municipal da cidade. Sem sequer haver tocado o companheiro que carrega desde a infância – o trombone –, ele recebeu aplausos acalorados. Os olhos pequenos e pretos encheram d’água. Pegou o instrumento e agradeceu soprando Carinhoso, música de Pixinguinha. Aí seus olhos molhados ganharam parceiros na platéia. "Fiquei engasgado mesmo. Tenho muitos amigos em Santo André. Lá eles cuidam bem do jardim, que ainda dá bons músico. Estava em casa, né? Bem à vontade."

Foi assim, bastante à vontade, que o instrumentista lembrou de outras notas que soprou nos 38 anos de carreira. Anda um pouco cansado, ocupado entre os ensaios que faz duas vezes por semana para o Domingão do Faustão – ele toca no programa desde janeiro –, na gravação de CDs de outros artistas e nas canjas que costuma dar na noite de São Paulo. Com tanto compromisso, diz que ainda consegue estabelecer uma "certa" rotina. Gosta de ficar em casa, dar comida ao canário, molhar as plantas e fazer ginástica na academia do prédio em que mora na Vila Formosa, zona Leste de São Paulo. Depois de anos na balada noturna, tem acordado cedo. "Hoje, curto mais o dia. Acho que é fase", revela. Em seguida, solta a gargalhada fácil que contamina a conversa.

Bocato nasceu e cresceu humilde em São Bernardo. Filho de bancário e professora, brincava nas ruas do Baeta Neves enquanto via aqueles meninos da bandinha viajar quase todo final de semana. Subiam naqueles ônibus lindos, azuis e prateados, carregando os instrumentos, com rostos satisfeitos. Também queria ser feliz da vida. Quando completou sete anos, se inscreveu na Banda Baeta Neves, do maestro Irineu Negri Garcia, que ensaiava no grupo escolar onde estudava. Passou um ano em cima de teorias musicais. Queria tocar trompete ou saxofone. Mas o trombone era o único instrumento disponível. "Se eu quisesse os outros, tinha que ficar na fila de espera. Aí fiquei com o trombone e peguei gosto." A banda, completa, já era a mais suingada da cidade.

Aos 12 anos, já animava carnavais pela cidade, e logo pulou para os bailes de gala, dançantes e imponentes. Aos 20 anos, tocou com Elis Regina, na temporada de shows no Rio de Janeiro e em São Paulo. Dividiram o mesmo palco por quase um ano. "Ela nivelava a qualidade musical por cima. Todo show tínhamos que nos superar mais e mais. Depois dela, a gente ficou órfão. É uma geração que ficou sem muita referência, sabe?"

A lista não parou mais de crescer. Bocato já soprou o trombone ao lado de todo mundo, sem modéstia ou exagero. "Gosto da música que me emociona. Por isso, gosto de tanta coisa e de tanto estilo." Diz que queria ter tocado com Chico Buarque. Ou Caetano Veloso. Depois, corrige. "Queria tocar com uma banda nova. Que traga a novidade, um novo fôlego, nova proposta. Com algo que ainda precisa ser inventado." Gravou mais de mil álbuns de outros artistas, e 18 próprios, estes produzidos e arranjados por ele mesmo. No palco, parece maestro. "Eu gosto disso. Mas sou um maestro prático. Que nem os farmacêuticos práticos. Que nem parteiro, sem formação, mas de profissão."

Bocato fala muito bem dos parceiros, e tenta, sem sucesso, disfarçar uma ponta de predileção por Elis. Foi nessa época em que se conheceram, em 1979, que juntou a banda Metalurgia, com dez amigos. A maioria dos instrumentos eram os metais, daí o nome do grupo, mas o sindicalismo também inspirou o batismo do grupo, numa época em que São Bernardo era referência de força política. Gravaram um único disco, em 1982. "A gente era deslumbrado. Todo mundo muito novo, e já tocando bastante com grandes artistas. A banda se desfez. E era uma coisa tão linda...Uma espécie de laboratório, uma balada, um lance quase hippie."

É um dos instrumentistas mais respeitados do Brasil. E simples, muito simples. Seu celular não pára de tocar, e quando toca, acende a luz e a Valsa das Flores. "Bacaninha essa música, né?" Em um dos telefonemas, foi convidado para fazer turnê na Alemanha, durante a Copa do Mundo de 2006. Grande chance de ver o Brasil campeão. E de rever amigos. Bocato viveu por lá duas temporadas, a primeira em 1993, quando quis levar vida mais saudável, longe do álcool. Mas já havia estado por lá antes, com Itamar Assumpção. É dessa época, em 1986, que ele se lembra do dia em que chorou no palco. "Fiquei bem emocionado. A gente tocando, o Itamar improvisando poesias, e os gringos não entendiam nada. Mas eu sabia do que ele estava falando. De um espaço que a gente tinha no exterior mas não tinha no Brasil."

Do mesmo dia, cita outro poema do brother. "Um homem com uma dor é elegante." Acende mais um cigarro. O filho caçula, Gerson, de 10 anos, que estuda trompete, avisa que vai dormir. "Quer que o pai te cubra?" O menino recusa, meio envergonhado. "A gente gosta do beijo de boa noite", diz o pai, com roupas modernosas e óculos à altura. No apartamento da Vila Formosa, vive com o filho – ele tem mais um, Raul, de 24 anos – e a ex- mulher. Tudo muitíssimo civilizado, com respeito e amor. Ela vai casar de novo. E ele, em breve, voltar a morar em São Bernardo. "Vou voltar. Como já fiz tantas vezes..."



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