Fechar
Publicidade

Quarta-Feira, 29 de Janeiro

|

Max º Min º
Clima da Região Trânsito Assine Clube do Assinante Diário Virtual Login

Cultura & Lazer

cultura@dgabc.com.br | 4435-8364

'Saudosa Maloca' é obrigatória para Demônios da Garoa


Gislaine Gutierre
Do Diário do Grande ABC

28/02/2004 | 17:18


Dos versos cantados em um português propositadamente incorreto, sobre a história de um homem pobre, desolado por perder a casa que dividia com os amigos, surgiu uma das obras mais tocadas e cantadas do repertório popular. A música em questão é Saudosa Maloca, de Adoniran Barbosa, que há exatos 50 anos ganhou versão definitiva pelos Demônios da Garoa. Até hoje, não há um show sequer em que o grupo deixe o palco sem executá-la.

“O público nos obriga a cantar Saudosa Maloca”, afirma Antonio Gomes Neto, o Toninho, 75 anos, único remanescente da formação original. Essa é a rotina no palco do tradicional Bar Brahma (av. São João, 677, São Paulo. Tel.: 3333-0855), onde os Demônios se apresentam há dois anos e meio nas quintas-feiras, às 22h, e mais recentemente também aos domingos (neste domingo inclusive), a partir das 14h.

Mas Saudosa Maloca, não fosse o humorista Manoel da Nóbrega, poderia nem ter saído das informais rodas de samba dos Demônios. Nem o grupo teria a projeção que alcançou ao longo dessas seis décadas de carreira.

Saudosa Maloca foi ao ar pela primeira vez no programa de Nóbrega na Rádio Nacional, no horário das 12h às 14h. Era exibida nos intervalos do quadro Cadeira de Barbeiro, em que Nóbrega travava diálogos cômicos com Aloísio Silva Araújo. “Ele nos viu cantando nos corredores da Rádio Nacional e pediu para fazermos um arranjo e tocarmos no programa dele. A princípio, não achamos boa idéia. O governo estava queimando as pestanas para dar uma boa educação ao povo e a gente ia ensinar a falar tudo errado?”, diz Toninho.

Nóbrega acabou convencendo o grupo e, em um mês, a música já era sucesso nacional. Com os erros de português e tudo. “Tentaram levantar alguma coisa contra nós, mas ficou por isso mesmo. Como tudo nesse país”, afirma. O estrondoso e inesperado sucesso de Saudosa Maloca foi um tapa na cara do então diretor da gravadora Continental (atual Warner), que pouco antes havia recusado a proposta dos Demônios de gravar a mesma música.

“Ele se chamava Ernani e quando fomos lá, nos perguntou: ‘Quantos discos vocês querem de Saudosa Maloca?”. Naquele momento, o diretor mostrava pilhas de exemplares da gravação de Adoniran Barbosa, que foi um fiasco comercial. O disco Saudosa Maloca em 78 rotações acabou saindo pela Odeon (atual EMI), tendo essa música de um lado e Samba do Arnesto de outro.

“A gravação do Adoniran era comum, ele cantava sério. Nós fizemos algumas adaptações, como colocar o ‘dim dim donde nós passemo’ na letra. Ficou engraçado e caiu no gosto do povo”, afirma Toninho.

O próprio Adoniran não teria gostado das modificações. “Houve comentários de que, nas rodas de amigos, Adoniran dizia não ter gostado da gravação, porque mexemos na estrutura da música e na letra. Mas depois que fez sucesso, a achou interessante. Ficou supercontente, principalmente quando foi receber os direitos autorais”.

Crônica – Toninho não se recorda de ter ouvido do parceiro o motivo que o levou a escrever aquela letra triste. Mas em uma entrevista à imprensa, o músico Ernesto Paulelli, que teria inspirado Adoniran em Samba do Arnesto, disse que a primeira moradia do compositor foi um sobrado abandonado, o qual teria dividido com dois colegas.

O imóvel, segundo Paulelli, teria sido demolido para dar lugar a um prédio residencial. Adoniran e os colegas teriam saído às pressas de lá. Mas se não foi esse o verdadeiro ponto de partida, ao menos Saudosa Maloca é uma espécie de crônica da São Paulo naqueles idos de 1954. A cidade crescia vertiginosamente, tendo alcançado o posto de a mais populosa do Brasil em 1953, com 2,7 milhões de pessoas. O Brás cantado por Adoniran era um dos mais populosos e já não abrigava um milhão de trabalhadores de 21 mil fábricas da capital.

Só no ano de 1954 foram injetados 10 bilhões de cruzeiros para a construção civil, e o ritmo de produção era de quatro casas por hora. Fora isso, Saudosa Maloca é um divisor de águas na carreira dos Demônios da Garoa. Até então, eles tocavam músicas de outros artistas na Rádio Nacional.

O estilo de Saudosa Maloca passou a ser marca registrada do grupo, que também se tornou o principal intérprete das composições de Adoniran Barbosa. Trem das Onze foi outro clássico. Gravada há exatos 40 anos, foi campeã do Carnaval do Rio, em 1965, e eleita música-símbolo de São Paulo em 2000.

O Demônios da Garoa continua tendo Saudosa Maloca como grande sucesso. “Isso mostra que o que é bom vai em frente mesmo. O que o povo acha, tá achado”.



Comentários

Atenção! Os comentários do site são via Facebook. Lembre-se de que o comentário é de inteira responsabilidade do autor e não expressa a opinião do jornal. Comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros poderão ser denunciados pelos usuários e sua conta poderá ser banida.

'Saudosa Maloca' é obrigatória para Demônios da Garoa

Gislaine Gutierre
Do Diário do Grande ABC

28/02/2004 | 17:18


Dos versos cantados em um português propositadamente incorreto, sobre a história de um homem pobre, desolado por perder a casa que dividia com os amigos, surgiu uma das obras mais tocadas e cantadas do repertório popular. A música em questão é Saudosa Maloca, de Adoniran Barbosa, que há exatos 50 anos ganhou versão definitiva pelos Demônios da Garoa. Até hoje, não há um show sequer em que o grupo deixe o palco sem executá-la.

“O público nos obriga a cantar Saudosa Maloca”, afirma Antonio Gomes Neto, o Toninho, 75 anos, único remanescente da formação original. Essa é a rotina no palco do tradicional Bar Brahma (av. São João, 677, São Paulo. Tel.: 3333-0855), onde os Demônios se apresentam há dois anos e meio nas quintas-feiras, às 22h, e mais recentemente também aos domingos (neste domingo inclusive), a partir das 14h.

Mas Saudosa Maloca, não fosse o humorista Manoel da Nóbrega, poderia nem ter saído das informais rodas de samba dos Demônios. Nem o grupo teria a projeção que alcançou ao longo dessas seis décadas de carreira.

Saudosa Maloca foi ao ar pela primeira vez no programa de Nóbrega na Rádio Nacional, no horário das 12h às 14h. Era exibida nos intervalos do quadro Cadeira de Barbeiro, em que Nóbrega travava diálogos cômicos com Aloísio Silva Araújo. “Ele nos viu cantando nos corredores da Rádio Nacional e pediu para fazermos um arranjo e tocarmos no programa dele. A princípio, não achamos boa idéia. O governo estava queimando as pestanas para dar uma boa educação ao povo e a gente ia ensinar a falar tudo errado?”, diz Toninho.

Nóbrega acabou convencendo o grupo e, em um mês, a música já era sucesso nacional. Com os erros de português e tudo. “Tentaram levantar alguma coisa contra nós, mas ficou por isso mesmo. Como tudo nesse país”, afirma. O estrondoso e inesperado sucesso de Saudosa Maloca foi um tapa na cara do então diretor da gravadora Continental (atual Warner), que pouco antes havia recusado a proposta dos Demônios de gravar a mesma música.

“Ele se chamava Ernani e quando fomos lá, nos perguntou: ‘Quantos discos vocês querem de Saudosa Maloca?”. Naquele momento, o diretor mostrava pilhas de exemplares da gravação de Adoniran Barbosa, que foi um fiasco comercial. O disco Saudosa Maloca em 78 rotações acabou saindo pela Odeon (atual EMI), tendo essa música de um lado e Samba do Arnesto de outro.

“A gravação do Adoniran era comum, ele cantava sério. Nós fizemos algumas adaptações, como colocar o ‘dim dim donde nós passemo’ na letra. Ficou engraçado e caiu no gosto do povo”, afirma Toninho.

O próprio Adoniran não teria gostado das modificações. “Houve comentários de que, nas rodas de amigos, Adoniran dizia não ter gostado da gravação, porque mexemos na estrutura da música e na letra. Mas depois que fez sucesso, a achou interessante. Ficou supercontente, principalmente quando foi receber os direitos autorais”.

Crônica – Toninho não se recorda de ter ouvido do parceiro o motivo que o levou a escrever aquela letra triste. Mas em uma entrevista à imprensa, o músico Ernesto Paulelli, que teria inspirado Adoniran em Samba do Arnesto, disse que a primeira moradia do compositor foi um sobrado abandonado, o qual teria dividido com dois colegas.

O imóvel, segundo Paulelli, teria sido demolido para dar lugar a um prédio residencial. Adoniran e os colegas teriam saído às pressas de lá. Mas se não foi esse o verdadeiro ponto de partida, ao menos Saudosa Maloca é uma espécie de crônica da São Paulo naqueles idos de 1954. A cidade crescia vertiginosamente, tendo alcançado o posto de a mais populosa do Brasil em 1953, com 2,7 milhões de pessoas. O Brás cantado por Adoniran era um dos mais populosos e já não abrigava um milhão de trabalhadores de 21 mil fábricas da capital.

Só no ano de 1954 foram injetados 10 bilhões de cruzeiros para a construção civil, e o ritmo de produção era de quatro casas por hora. Fora isso, Saudosa Maloca é um divisor de águas na carreira dos Demônios da Garoa. Até então, eles tocavam músicas de outros artistas na Rádio Nacional.

O estilo de Saudosa Maloca passou a ser marca registrada do grupo, que também se tornou o principal intérprete das composições de Adoniran Barbosa. Trem das Onze foi outro clássico. Gravada há exatos 40 anos, foi campeã do Carnaval do Rio, em 1965, e eleita música-símbolo de São Paulo em 2000.

O Demônios da Garoa continua tendo Saudosa Maloca como grande sucesso. “Isso mostra que o que é bom vai em frente mesmo. O que o povo acha, tá achado”.

Ao acessar você concorda com a nossa Política de Privacidade.


Para continuar, faça o seu login:


  • Aceito receber novidades e ofertas do Diário do Grande ABC e parceiros por
    correio eletrônico, mala direta, SMS ou outros meios de comunicação.


Ou acesse todo o conteúdo de forma ilimitada:

Veja como ter acesso a todo o conteúdo de forma ilimitada:

Copyright © 1995-2017 - Todos direitos reservados

;