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‘Carros’ sela parceria Pixar-Disney e eleva nível da animação


Cássio Gomes Neves
Do Diário do Grande ABC

24/06/2006 | 08:40


Com potencial para umas 500 milhas nas bilheterias, o longa-metragem Carros pode estar fadado ao desempenho de um dragster (carro de arrancada que só percorre retas, em provas que mal duram cinco segundos). Pelo menos segundo os padrões alquímicos Disney de transformar celulóide em ouro.

A animação, nova parceria dos estúdios Pixar e da Disney, estréia na próxima sexta-feira (dia 30) no Brasil com um passado não muito glorioso nos cinemas norte-americanos: em 13 dias de exibição por lá, tem liderado o ranking de filmes mais assistidos e arrecadou até agora US$ 129 milhões (R$ 289 milhões). Um dinheirinho bom, mas não a fortuna prevista por analistas que, se antes do lançamento estimavam que o filme faria US$ 300 milhões (R$ 672 milhões) no mercado doméstico com as rodas traseiras nas costas, hoje já colocam em dúvida se terá combustível para alcançar os US$ 200 milhões (R$ 448 milhões) durante sua vida útil nas salas. Ainda mais com a proximidade de outros lançamentos de grande porte, como Superman – O Retorno (dia 28) e Piratas do Caribe – O Baú da Morte (7 de julho).

Carros, com custos de produção de US$ 70 milhões (R$ 157 milhões), é um bom filme. Excelente até, talvez um dos maiores a deixar as CPUs da Pixar. O percurso aos solavancos entre a audiência pode ser resultado de uma combinação de contratempos: o atraso no lançamento (oito meses, pelo menos), a altíssima concorrência nesta época frutífera que é o verão norte-americano e, entre outros, as indefinições no contrato entre a Pixar e a Disney, aparentemente extintas com o anúncio da compra da primeira pelo ministério de Mickey Mouse.

Em fevereiro deste ano, a Disney mandou avisar que comprara a Pixar por US$ 7,4 bilhões (R$ 16,6 bilhões). O negócio deve ser concluído nos próximos dias, quando também entram em vigor as minúcias do novo acordo. Steve Jobs, o bambambã do setor executivo da Pixar, será integrado à diretoria da Disney e a dupla John Lasseter, principal cabeça pensante do departamento criativo da Pixar e diretor de Carros, e Ed Catmull, presidente da empresa, serão os donos das chaves do setor de criação de todas as animações que a Disney vier a produzir daqui por diante. Nesses termos do acordo já devem funcionar a execução e a distribuição de filmes como Ratatouille (2007) e Toy Story 3 (2008).

O fechamento do negócio é o atestado comercial, lavrado pela Disney, de que a Pixar ofereceu-lhe guincho para resgatá-la do atoleiro no setor de animações. Os seis filmes da Pixar antes de Carros – Toy Story (1995), Vida de Inseto (1998), Toy Story 2 (1999), Monstros S/A (2001), Procurando Nemo (2003) e Os Incríveis (2004) – já arrecadaram, mundialmente, US$ 3,22 bilhões (R$ 7,21 bilhões). Na média obtida entre eles, arremataram, só em bilheterias, seis vezes os seus custos de produção. Enquanto isso, a Disney abreviava a chegada ao ferro-velho de seu setor de animações extra-Pixar, com sucatas (des)animadas como Planeta do Tesouro (2002), Irmão Urso (2003) e Nem que a Vaca Tussa (2004) – este último, por exemplo, sequer pagou os custos com a bilheteria. O advento da turma de Buzz Lightyear e do caubói Woody, dos monstros Mike e Sulley, de Nemo e da superfamília Pêra reanimou a companhia de Mickey Mouse, em todos os sentidos.

Ademais, é também possível falar em uma perspectiva artística coletiva da Pixar mesmo se consideradas as idiossincrasias de cada diretor que já assinou os filmes da produtora, que completa 20 anos de existência em 2006. Uma tendência estética, narrativa e filosófica estabelecida pela empresa e visivelmente reproduzida em animações bem menos felizes como O Espanta-Tubarões (2004), da Dreamworks.

Esse caleidoscópio “pixariano” não se limita à excelência técnica da animação digital, um predicado perceptível a olho nu. Os filmes da produtora geralmente desafiam obras consideradas adultas numa série de particularidades. Talvez pela liberdade da caricatura, talvez pela imprevisibilidade do gênero ao qual estão agregadas, animações como Toy Story e Procurando Nemo desenvolvem personagens de forma singular, sem a monotonia da piada única ou uma tipologia baseada em estereótipos. Debatem a inserção ou a exclusão de tais personagens em seus ambientes e entre seus semelhantes, dentro de universos óbvios pela onipresença, porém ignorados pela “imobilidade” (brinquedos, insetos, monstros atrás do armário, peixes no aquário, automóveis). Por isso, além de fabular, costumam fazem comentários sociais mais maduros que os de muita gente que desfila por Cannes com os narizes espanando as nuvens de tão arrebitados. E Carros ajudará a envergar algumas cartilagens, pode crer.


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‘Carros’ sela parceria Pixar-Disney e eleva nível da animação

Cássio Gomes Neves
Do Diário do Grande ABC

24/06/2006 | 08:40


Com potencial para umas 500 milhas nas bilheterias, o longa-metragem Carros pode estar fadado ao desempenho de um dragster (carro de arrancada que só percorre retas, em provas que mal duram cinco segundos). Pelo menos segundo os padrões alquímicos Disney de transformar celulóide em ouro.

A animação, nova parceria dos estúdios Pixar e da Disney, estréia na próxima sexta-feira (dia 30) no Brasil com um passado não muito glorioso nos cinemas norte-americanos: em 13 dias de exibição por lá, tem liderado o ranking de filmes mais assistidos e arrecadou até agora US$ 129 milhões (R$ 289 milhões). Um dinheirinho bom, mas não a fortuna prevista por analistas que, se antes do lançamento estimavam que o filme faria US$ 300 milhões (R$ 672 milhões) no mercado doméstico com as rodas traseiras nas costas, hoje já colocam em dúvida se terá combustível para alcançar os US$ 200 milhões (R$ 448 milhões) durante sua vida útil nas salas. Ainda mais com a proximidade de outros lançamentos de grande porte, como Superman – O Retorno (dia 28) e Piratas do Caribe – O Baú da Morte (7 de julho).

Carros, com custos de produção de US$ 70 milhões (R$ 157 milhões), é um bom filme. Excelente até, talvez um dos maiores a deixar as CPUs da Pixar. O percurso aos solavancos entre a audiência pode ser resultado de uma combinação de contratempos: o atraso no lançamento (oito meses, pelo menos), a altíssima concorrência nesta época frutífera que é o verão norte-americano e, entre outros, as indefinições no contrato entre a Pixar e a Disney, aparentemente extintas com o anúncio da compra da primeira pelo ministério de Mickey Mouse.

Em fevereiro deste ano, a Disney mandou avisar que comprara a Pixar por US$ 7,4 bilhões (R$ 16,6 bilhões). O negócio deve ser concluído nos próximos dias, quando também entram em vigor as minúcias do novo acordo. Steve Jobs, o bambambã do setor executivo da Pixar, será integrado à diretoria da Disney e a dupla John Lasseter, principal cabeça pensante do departamento criativo da Pixar e diretor de Carros, e Ed Catmull, presidente da empresa, serão os donos das chaves do setor de criação de todas as animações que a Disney vier a produzir daqui por diante. Nesses termos do acordo já devem funcionar a execução e a distribuição de filmes como Ratatouille (2007) e Toy Story 3 (2008).

O fechamento do negócio é o atestado comercial, lavrado pela Disney, de que a Pixar ofereceu-lhe guincho para resgatá-la do atoleiro no setor de animações. Os seis filmes da Pixar antes de Carros – Toy Story (1995), Vida de Inseto (1998), Toy Story 2 (1999), Monstros S/A (2001), Procurando Nemo (2003) e Os Incríveis (2004) – já arrecadaram, mundialmente, US$ 3,22 bilhões (R$ 7,21 bilhões). Na média obtida entre eles, arremataram, só em bilheterias, seis vezes os seus custos de produção. Enquanto isso, a Disney abreviava a chegada ao ferro-velho de seu setor de animações extra-Pixar, com sucatas (des)animadas como Planeta do Tesouro (2002), Irmão Urso (2003) e Nem que a Vaca Tussa (2004) – este último, por exemplo, sequer pagou os custos com a bilheteria. O advento da turma de Buzz Lightyear e do caubói Woody, dos monstros Mike e Sulley, de Nemo e da superfamília Pêra reanimou a companhia de Mickey Mouse, em todos os sentidos.

Ademais, é também possível falar em uma perspectiva artística coletiva da Pixar mesmo se consideradas as idiossincrasias de cada diretor que já assinou os filmes da produtora, que completa 20 anos de existência em 2006. Uma tendência estética, narrativa e filosófica estabelecida pela empresa e visivelmente reproduzida em animações bem menos felizes como O Espanta-Tubarões (2004), da Dreamworks.

Esse caleidoscópio “pixariano” não se limita à excelência técnica da animação digital, um predicado perceptível a olho nu. Os filmes da produtora geralmente desafiam obras consideradas adultas numa série de particularidades. Talvez pela liberdade da caricatura, talvez pela imprevisibilidade do gênero ao qual estão agregadas, animações como Toy Story e Procurando Nemo desenvolvem personagens de forma singular, sem a monotonia da piada única ou uma tipologia baseada em estereótipos. Debatem a inserção ou a exclusão de tais personagens em seus ambientes e entre seus semelhantes, dentro de universos óbvios pela onipresença, porém ignorados pela “imobilidade” (brinquedos, insetos, monstros atrás do armário, peixes no aquário, automóveis). Por isso, além de fabular, costumam fazem comentários sociais mais maduros que os de muita gente que desfila por Cannes com os narizes espanando as nuvens de tão arrebitados. E Carros ajudará a envergar algumas cartilagens, pode crer.

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