Fechar
Publicidade

Sexta-Feira, 13 de Dezembro

|

Max º Min º
Clima da Região Trânsito Assine Clube do Assinante Diário Virtual Login

Cultura & Lazer

cultura@dgabc.com.br | 4435-8364

Livro traz impressões de Nobel de Literatura sobre Veneza


João Marcos Coelho
Especial para o Diário

23/04/2006 | 08:09


Há quem prefira as frias e objetivas descrições dos cadernos de turismo, mas a verdade é que Veneza não cabe nesse tipo de definição. O enorme fascínio que a cidade italiana desde sempre exerceu - e exerce - sobre todo tipo de criadores artísticos é inigualável. De pintores a escultores, de filósofos a escritores, muitas das mais formidáveis cabeças que o planeta já produziu se embasbacaram diante da cidade aquática. Nomes ilustres como Henry James, Casanova, Byron, Ruskin, Proust, Thomas Mann, Ezra Pound e Ernst Hemingway. Entre estes privilegiados, os poetas sobressaem quase naturalmente. Dão solenes chutes na objetividade medíocre, apropriam-se do imaginário veneziano, produzem raras obras de arte em palavras. É o caso do poeta russo Joseph Alexandrovich Brodsky (1940-1996), autor de uma jóia em prosa chamada Marca-d'Água, escrita quatro anos antes de sua morte. O livro chega agora às livrarias brasileiras em caprichada edição da Cosac & Naify (92 págs., R$ 39) e é imperdível.

Geração do silêncio - Brodsky pertence à tristemente célebre geração do silêncio - a dos criadores russos perseguidos e proibidos na ex-União Soviética. Nasceu em Leningrado, cidade que atualmente recuperou seu nome histórico São Petersburgo, e viveu sempre em estado de quase-clandestinidade. Autodidata, aprendeu por conta própria polonês e inglês, o que lhe foi útil quando aportou nos Estados Unidos, expulso da URSS. Juntou um dinheirinho nos States para realizar seu sonho: viajar para Veneza. Nas duas décadas seguintes, passava obrigatoriamente as cinco primeiras semanas de cada ano na cidade dos doges. Ele queria morrer em Veneza, mas se foi em seu apartamento no Brooklyn, em Nova York. Está, entretanto, enterrado na ilha cemitério de San Michele, em Veneza.

\n\n

Gato - Marca-d\'Água é livro para ser saboreado aos poucos, devagar, saboreando sacadas como esta, incrível, sobre a felicidade: "Eu havia acabado de almoçar em alguma pequena trattoria, na parte mais afastada das Fondamenta Nuove, peixe grelhado e meia garrafa de vinho... o dia estava quente, ensolarado, o céu azul, tudo adorável. E de costas para as Fondamenta e San Michele, rente à parede do hospital, quase esfregando-a com meu ombro esquerdo e fechando os olhos diante do sol, subitamente senti: sou um gato. Um gato que acabou de comer peixe. Se alguém tivesse se dirigido a mim nesse momento, eu teria miado. Eu estava absoluta, animalmente feliz". Quer mais? Leia o trecho ao lado

\n\n

Trecho\n

\n\n

Do Diário do Grande ABC\n

\n\n

"A luz de inverno nesta cidade! Ela tem a extraordinária propriedade de intensificar a capacidade de resolução do olho até a precisão microscópica - a pupila, em especial quando é da variedade cinza ou mostarda-emel, humilha qualquer lente Hasselblad e dá às nossas subseqüentes lembranças a acuidade de uma",1]);//-->

O Prêmio Nobel de Literatura, em 1987, coroou uma obra pequena, porém maravilhosa, que inclui os ensaios de prosa poética de Menos que Um, lançados há 12 anos no Brasil pela Companhia das Letras, livro hoje esgotado. Neste livro, ele fala de outros poetas, como Anna Akhmatova, Ossip Mandelstam, Auden e Derek Walcott. "A biografia de um escritor está nos meandros de seu estilo", escreveu. É verdade. Mas também nos lugares onde escolhe viver. De algum modo Brodsky se reconhecia em Veneza, passeando pelas ruelas, ouvindo música nas igrejas, paquerando as mulheres.

Gato - Marca-d'Água é livro para ser saboreado aos poucos, devagar, saboreando sacadas como esta, incrível, sobre a felicidade: "Eu havia acabado de almoçar em alguma pequena trattoria, na parte mais afastada das Fondamenta Nuove, peixe grelhado e meia garrafa de vinho... o dia estava quente, ensolarado, o céu azul, tudo adorável. E de costas para as Fondamenta e San Michele, rente à parede do hospital, quase esfregando-a com meu ombro esquerdo e fechando os olhos diante do sol, subitamente senti: sou um gato. Um gato que acabou de comer peixe. Se alguém tivesse se dirigido a mim nesse momento, eu teria miado. Eu estava absoluta, animalmente feliz". Quer mais? Leia o trecho ao lado



Comentários

Atenção! Os comentários do site são via Facebook. Lembre-se de que o comentário é de inteira responsabilidade do autor e não expressa a opinião do jornal. Comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros poderão ser denunciados pelos usuários e sua conta poderá ser banida.

Livro traz impressões de Nobel de Literatura sobre Veneza

João Marcos Coelho
Especial para o Diário

23/04/2006 | 08:09


Há quem prefira as frias e objetivas descrições dos cadernos de turismo, mas a verdade é que Veneza não cabe nesse tipo de definição. O enorme fascínio que a cidade italiana desde sempre exerceu - e exerce - sobre todo tipo de criadores artísticos é inigualável. De pintores a escultores, de filósofos a escritores, muitas das mais formidáveis cabeças que o planeta já produziu se embasbacaram diante da cidade aquática. Nomes ilustres como Henry James, Casanova, Byron, Ruskin, Proust, Thomas Mann, Ezra Pound e Ernst Hemingway. Entre estes privilegiados, os poetas sobressaem quase naturalmente. Dão solenes chutes na objetividade medíocre, apropriam-se do imaginário veneziano, produzem raras obras de arte em palavras. É o caso do poeta russo Joseph Alexandrovich Brodsky (1940-1996), autor de uma jóia em prosa chamada Marca-d'Água, escrita quatro anos antes de sua morte. O livro chega agora às livrarias brasileiras em caprichada edição da Cosac & Naify (92 págs., R$ 39) e é imperdível.

Geração do silêncio - Brodsky pertence à tristemente célebre geração do silêncio - a dos criadores russos perseguidos e proibidos na ex-União Soviética. Nasceu em Leningrado, cidade que atualmente recuperou seu nome histórico São Petersburgo, e viveu sempre em estado de quase-clandestinidade. Autodidata, aprendeu por conta própria polonês e inglês, o que lhe foi útil quando aportou nos Estados Unidos, expulso da URSS. Juntou um dinheirinho nos States para realizar seu sonho: viajar para Veneza. Nas duas décadas seguintes, passava obrigatoriamente as cinco primeiras semanas de cada ano na cidade dos doges. Ele queria morrer em Veneza, mas se foi em seu apartamento no Brooklyn, em Nova York. Está, entretanto, enterrado na ilha cemitério de San Michele, em Veneza.

\n\n

Gato - Marca-d\'Água é livro para ser saboreado aos poucos, devagar, saboreando sacadas como esta, incrível, sobre a felicidade: "Eu havia acabado de almoçar em alguma pequena trattoria, na parte mais afastada das Fondamenta Nuove, peixe grelhado e meia garrafa de vinho... o dia estava quente, ensolarado, o céu azul, tudo adorável. E de costas para as Fondamenta e San Michele, rente à parede do hospital, quase esfregando-a com meu ombro esquerdo e fechando os olhos diante do sol, subitamente senti: sou um gato. Um gato que acabou de comer peixe. Se alguém tivesse se dirigido a mim nesse momento, eu teria miado. Eu estava absoluta, animalmente feliz". Quer mais? Leia o trecho ao lado

\n\n

Trecho\n

\n\n

Do Diário do Grande ABC\n

\n\n

"A luz de inverno nesta cidade! Ela tem a extraordinária propriedade de intensificar a capacidade de resolução do olho até a precisão microscópica - a pupila, em especial quando é da variedade cinza ou mostarda-emel, humilha qualquer lente Hasselblad e dá às nossas subseqüentes lembranças a acuidade de uma",1]);//-->

O Prêmio Nobel de Literatura, em 1987, coroou uma obra pequena, porém maravilhosa, que inclui os ensaios de prosa poética de Menos que Um, lançados há 12 anos no Brasil pela Companhia das Letras, livro hoje esgotado. Neste livro, ele fala de outros poetas, como Anna Akhmatova, Ossip Mandelstam, Auden e Derek Walcott. "A biografia de um escritor está nos meandros de seu estilo", escreveu. É verdade. Mas também nos lugares onde escolhe viver. De algum modo Brodsky se reconhecia em Veneza, passeando pelas ruelas, ouvindo música nas igrejas, paquerando as mulheres.

Gato - Marca-d'Água é livro para ser saboreado aos poucos, devagar, saboreando sacadas como esta, incrível, sobre a felicidade: "Eu havia acabado de almoçar em alguma pequena trattoria, na parte mais afastada das Fondamenta Nuove, peixe grelhado e meia garrafa de vinho... o dia estava quente, ensolarado, o céu azul, tudo adorável. E de costas para as Fondamenta e San Michele, rente à parede do hospital, quase esfregando-a com meu ombro esquerdo e fechando os olhos diante do sol, subitamente senti: sou um gato. Um gato que acabou de comer peixe. Se alguém tivesse se dirigido a mim nesse momento, eu teria miado. Eu estava absoluta, animalmente feliz". Quer mais? Leia o trecho ao lado

Ao acessar você concorda com a nossa Política de Privacidade.


Para continuar, faça o seu login:


  • Aceito receber novidades e ofertas do Diário do Grande ABC e parceiros por
    correio eletrônico, mala direta, SMS ou outros meios de comunicação.


Ou acesse todo o conteúdo de forma ilimitada:

Veja como ter acesso a todo o conteúdo de forma ilimitada:

Copyright © 1995-2017 - Todos direitos reservados

;