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‘Vivências Caipiras’ esmiúça a cultura do interior paulista


Alessandro Soares
Do Diário do Grande ABC

17/04/2006 | 10:13


A figura do caipira paulista carecia há tempos de uma revisão. Estereótipos seculares de indolência, preguiça, atraso e imobilidade social, pregados no caipira pelas elites do café e industriais, amparados pela população da metrópole, não representam unanimidade de definição deste típico morador de áreas rurais do Estado de São Paulo. O livro Vivências Caipiras – Pluralidade Cultural e Diferentes Temporalidades na Terra Paulista (Imprensa Oficial, 144 págs., R$ 30) apresenta outros elementos definidores do que é ser caipira, respondendo às impressões das elites paulistas.

O livro integra o projeto Terra Paulista: Histórias, Artes e Costumes, que investiga a formação cultural do interior do Estado. A iniciativa é da organização não-governamental Cenpec (Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária), criada em 1987 para trabalhar com educação pública. A autora é Maria Alice Setubal, socióloga da USP, coordenadora do Terra Paulista e diretora presidente do Cenpec.

Vivências Caipiras é também o desdobramento de uma série de entrevistas realizadas com moradores de cidades do Vale do Paraíba, Oeste Paulista e Vale do Médio Tietê, transpostas para uma série de 12 documentários integrantes do projeto. Alguns destes relatos estão no livro.

Tudo começa com os bandeirantes, que deixavam posseiros nos territórios desbravados, expulsos depois pela expansão do capitalismo agrícola. O branco europeu se mesclou ao índio, depois ao negro, finalmente aos migrantes de outras regiões do país, além dos imigrantes italianos. Todos assimilaram vivências caipiras.

Maria Alice define o caipira como indivíduo centrado na família, de hábitos sociais solidários, de poucas posses, com o suficiente para viver, extremamente ligado à natureza - sabe o nome dos pássaros pelo canto, saber o que plantar na época apropriada, e tira da terra o necessário para a vida. Isso tudo vinculado à vida nômade, devido às expulsões das terras. A fama de preguiça veio a partir da observação de viajantes da cidade. O caipira já plantou, já colheu, e seu tempo livre é dedicado às festas nos bairros rurais, não ao consumo.

O tipo ingênuo, fervoroso na fé,místico, crítico da modernidade, de linguajar atrasado, apegado à pobreza perdura até hoje. Maria Alice trabalha essas classificações a partir de autores que ora exaltam a simplicidade, ora criticam a antimodernidade. Tangencia a história da formação do interior e da mídia cultural como influência de perda de sentido – sobretudo a música country-sertaneja de modelo texano e a televisão que impõe modelos nacionais de comportamento.

Embora com viés acadêmico, Vivências tem tratamento de informativo, o que torna sua leitura agradável.

A autora reinterpreta o caipira como o indivíduo que conseguiu o que se busca hoje: comunhão com a natureza, simplicidade, minimalismo, lazer. Sua condição humana seria uma resistência de vanguarda aos espelhos externos nos quais a metrópole povoada por "caipiras" e descendentes se mira. Em Vivências, São Paulo não precisa negar nem se envergonhar de sua cultura. Só para provocar: ser caipira hoje é uma condição pós-moderna, isto é, indivíduos desapegados de shoppings e tecnologia que não pertencem a comunidades ditas urbanas (Orkut, clubes, tribos etc). Finalizando, um ditado caipira: "Em festa de jacu, inhambu num pia".

www.cenpec.org.com
www.terrapaulista.org.com



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‘Vivências Caipiras’ esmiúça a cultura do interior paulista

Alessandro Soares
Do Diário do Grande ABC

17/04/2006 | 10:13


A figura do caipira paulista carecia há tempos de uma revisão. Estereótipos seculares de indolência, preguiça, atraso e imobilidade social, pregados no caipira pelas elites do café e industriais, amparados pela população da metrópole, não representam unanimidade de definição deste típico morador de áreas rurais do Estado de São Paulo. O livro Vivências Caipiras – Pluralidade Cultural e Diferentes Temporalidades na Terra Paulista (Imprensa Oficial, 144 págs., R$ 30) apresenta outros elementos definidores do que é ser caipira, respondendo às impressões das elites paulistas.

O livro integra o projeto Terra Paulista: Histórias, Artes e Costumes, que investiga a formação cultural do interior do Estado. A iniciativa é da organização não-governamental Cenpec (Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária), criada em 1987 para trabalhar com educação pública. A autora é Maria Alice Setubal, socióloga da USP, coordenadora do Terra Paulista e diretora presidente do Cenpec.

Vivências Caipiras é também o desdobramento de uma série de entrevistas realizadas com moradores de cidades do Vale do Paraíba, Oeste Paulista e Vale do Médio Tietê, transpostas para uma série de 12 documentários integrantes do projeto. Alguns destes relatos estão no livro.

Tudo começa com os bandeirantes, que deixavam posseiros nos territórios desbravados, expulsos depois pela expansão do capitalismo agrícola. O branco europeu se mesclou ao índio, depois ao negro, finalmente aos migrantes de outras regiões do país, além dos imigrantes italianos. Todos assimilaram vivências caipiras.

Maria Alice define o caipira como indivíduo centrado na família, de hábitos sociais solidários, de poucas posses, com o suficiente para viver, extremamente ligado à natureza - sabe o nome dos pássaros pelo canto, saber o que plantar na época apropriada, e tira da terra o necessário para a vida. Isso tudo vinculado à vida nômade, devido às expulsões das terras. A fama de preguiça veio a partir da observação de viajantes da cidade. O caipira já plantou, já colheu, e seu tempo livre é dedicado às festas nos bairros rurais, não ao consumo.

O tipo ingênuo, fervoroso na fé,místico, crítico da modernidade, de linguajar atrasado, apegado à pobreza perdura até hoje. Maria Alice trabalha essas classificações a partir de autores que ora exaltam a simplicidade, ora criticam a antimodernidade. Tangencia a história da formação do interior e da mídia cultural como influência de perda de sentido – sobretudo a música country-sertaneja de modelo texano e a televisão que impõe modelos nacionais de comportamento.

Embora com viés acadêmico, Vivências tem tratamento de informativo, o que torna sua leitura agradável.

A autora reinterpreta o caipira como o indivíduo que conseguiu o que se busca hoje: comunhão com a natureza, simplicidade, minimalismo, lazer. Sua condição humana seria uma resistência de vanguarda aos espelhos externos nos quais a metrópole povoada por "caipiras" e descendentes se mira. Em Vivências, São Paulo não precisa negar nem se envergonhar de sua cultura. Só para provocar: ser caipira hoje é uma condição pós-moderna, isto é, indivíduos desapegados de shoppings e tecnologia que não pertencem a comunidades ditas urbanas (Orkut, clubes, tribos etc). Finalizando, um ditado caipira: "Em festa de jacu, inhambu num pia".

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