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'Achados e Perdidos' retoma precisão estética do noir


Cássio Gomes Neves
Do Diário do Grande ABC

28/04/2006 | 08:48


O cinema de gênero nunca foi dos terrenos mais frutíferos para o cinema brasileiro, até porque ainda se fazem notar demandas por um gênero único: o drama social. Explicações para um tal fenômeno são muitas, e é impossível, atualmente, ficar indiferente ao reestudo que o cinema de gênero sofre exatamente na sua principal escola: Hollywood. Não obstante, existem esforços para criar dentro dessa política narrativa (restritiva, por excelência). E Achados e Perdidos, o novo filme de José Joffily (Quem Matou Pixote?), está entre tais esforços, ao querer ciscar no terreno do filme policial.

Para tal, Joffily consulta uma fonte confiável (ao menos, entre o público): o romance do escritor brasileiro Luiz Alfredo Garcia-Roza, autor de obras policiais que geralmente adotam como cenário os quarteirões e esconderijos morais do Rio. É dessa latitude que vem Vieira (Antonio Fagundes), personagem principal de Achados e Perdidos.

Se bem que, no que concerne a policiais brasileiros recentes, a boa fama do livro não resulta em filme bom. Exemplos excedem, a mencionar O Homem do Ano (filme de José Henrique Fonseca inspirado no livro O Matador, de Patrícia Melo); Bufo & Spallanzani (dirigido por Flávio Tambellini, a partir do original literário de Rubem Fonseca); e Bellini e a Esfinge (longa de Roberto Santucci, baseado no primeiro livro da série protagonizada pelo detetive Bellini e escrita pelo titã Tony Bellotto).

Achados e Perdidos talvez não se diferencie tanto assim de seus antecessores no gêneros. Ao enredo: Vieira é um delegado aposentado, com certa reputação entre os colegas de ofício. Certo dia, Magali (Zezé Polessa), amante sua, aparece assassinada e as suspeitas recaem diretamente sobre ele. Em meio a flashbacks com a amante morta e à reflexão sobre sua situação de foragido, um outro fantasma ressurge, na forma de um colega que exige dinheiro em troca de seu silêncio sobre atos que Vieira cometeu no passado. Para aliviar a pressão, o protagonista conhece Flor (Juliana Knust), jovem que lhe desperta interesse.

As notas fora de tom em Achados e Perdidos são da mesma natureza de um Bellini e a Esfinge, por exemplo. Ambos – e talvez todos os outros policiais do cinema brasileiro recente – procuram correspondência com o cinema noir, com a estrutura narrativa que prevê um homem em condições decrépitas, e prestes a comer verduras pela raiz por causa de uma enigmática mulher. A ambiência e a fotografia, embora saturadas, procuram o mesmo efeito de filmes noir. Não se pode ignorar também as características de herói hitchcockiano – de homem acusado sem motivo e que deve provar a inocência – que Vieira assume.

Ou seja, no cinema policial à moda da casa, virou costume retomar as precisões estéticas do noir. Motivos? O principal deles talvez seja a escassez de filmes do gênero na história do audiovisual brasileiro. Representa um conforto, e ao mesmo tempo uma redução de risco, apostar em um conjunto de códigos tido como certeiro em um determinado gênero, como é o noir diante do policial em geral. No filme policial brasileiro, não parece haver possibilidade de recriação, mas apenas a adaptação de um gênero a pontos específicos da geografia e da sociedade brasileiras. O rosto é de Fagundes, os planos de fundo são registros de Copacabana, o idioma é o português, e os anos são os primeiros do presente século; mas não é difícil vislumbrar ali um Humphrey Bogart, com o cigarro escorrendo como pêndulo da boca. A roupa é outra, o corpo é o mesmo.

Falta ao cinema brasileiro, para tangenciar com êxito o drama social e visitar o cinema de gênero, a consciência da transgressão à reverência, de recolocar e reagrupar códigos que não são propriamente seus para gerar produtos realmente seus. Difícil? Não exatamente. Que o digam Beto Brant, que mexe no filme policial com propriedades que transcendem a reprodução (Os Matadores, O Invasor); José Mojica Marins e sua contribuição ao filme de terror (À Meia-Noite Levarei Sua Alma) e até Tata Amaral, que conseguiu fazer tragédia (Céu de Estrelas) num solo que parecia fadado à monocultura.

ACHADOS E PERDIDOS (Brasil, 2006). Dir.: José Joffily. Com Antonio Fagundes, Zezé Polessa, Juliana Knust. Estréia nesta sexta-feira no Cineclube Vitrine 2, HSBC Belas Artes 6 e circuito. Cens.: 16 anos.



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'Achados e Perdidos' retoma precisão estética do noir

Cássio Gomes Neves
Do Diário do Grande ABC

28/04/2006 | 08:48


O cinema de gênero nunca foi dos terrenos mais frutíferos para o cinema brasileiro, até porque ainda se fazem notar demandas por um gênero único: o drama social. Explicações para um tal fenômeno são muitas, e é impossível, atualmente, ficar indiferente ao reestudo que o cinema de gênero sofre exatamente na sua principal escola: Hollywood. Não obstante, existem esforços para criar dentro dessa política narrativa (restritiva, por excelência). E Achados e Perdidos, o novo filme de José Joffily (Quem Matou Pixote?), está entre tais esforços, ao querer ciscar no terreno do filme policial.

Para tal, Joffily consulta uma fonte confiável (ao menos, entre o público): o romance do escritor brasileiro Luiz Alfredo Garcia-Roza, autor de obras policiais que geralmente adotam como cenário os quarteirões e esconderijos morais do Rio. É dessa latitude que vem Vieira (Antonio Fagundes), personagem principal de Achados e Perdidos.

Se bem que, no que concerne a policiais brasileiros recentes, a boa fama do livro não resulta em filme bom. Exemplos excedem, a mencionar O Homem do Ano (filme de José Henrique Fonseca inspirado no livro O Matador, de Patrícia Melo); Bufo & Spallanzani (dirigido por Flávio Tambellini, a partir do original literário de Rubem Fonseca); e Bellini e a Esfinge (longa de Roberto Santucci, baseado no primeiro livro da série protagonizada pelo detetive Bellini e escrita pelo titã Tony Bellotto).

Achados e Perdidos talvez não se diferencie tanto assim de seus antecessores no gêneros. Ao enredo: Vieira é um delegado aposentado, com certa reputação entre os colegas de ofício. Certo dia, Magali (Zezé Polessa), amante sua, aparece assassinada e as suspeitas recaem diretamente sobre ele. Em meio a flashbacks com a amante morta e à reflexão sobre sua situação de foragido, um outro fantasma ressurge, na forma de um colega que exige dinheiro em troca de seu silêncio sobre atos que Vieira cometeu no passado. Para aliviar a pressão, o protagonista conhece Flor (Juliana Knust), jovem que lhe desperta interesse.

As notas fora de tom em Achados e Perdidos são da mesma natureza de um Bellini e a Esfinge, por exemplo. Ambos – e talvez todos os outros policiais do cinema brasileiro recente – procuram correspondência com o cinema noir, com a estrutura narrativa que prevê um homem em condições decrépitas, e prestes a comer verduras pela raiz por causa de uma enigmática mulher. A ambiência e a fotografia, embora saturadas, procuram o mesmo efeito de filmes noir. Não se pode ignorar também as características de herói hitchcockiano – de homem acusado sem motivo e que deve provar a inocência – que Vieira assume.

Ou seja, no cinema policial à moda da casa, virou costume retomar as precisões estéticas do noir. Motivos? O principal deles talvez seja a escassez de filmes do gênero na história do audiovisual brasileiro. Representa um conforto, e ao mesmo tempo uma redução de risco, apostar em um conjunto de códigos tido como certeiro em um determinado gênero, como é o noir diante do policial em geral. No filme policial brasileiro, não parece haver possibilidade de recriação, mas apenas a adaptação de um gênero a pontos específicos da geografia e da sociedade brasileiras. O rosto é de Fagundes, os planos de fundo são registros de Copacabana, o idioma é o português, e os anos são os primeiros do presente século; mas não é difícil vislumbrar ali um Humphrey Bogart, com o cigarro escorrendo como pêndulo da boca. A roupa é outra, o corpo é o mesmo.

Falta ao cinema brasileiro, para tangenciar com êxito o drama social e visitar o cinema de gênero, a consciência da transgressão à reverência, de recolocar e reagrupar códigos que não são propriamente seus para gerar produtos realmente seus. Difícil? Não exatamente. Que o digam Beto Brant, que mexe no filme policial com propriedades que transcendem a reprodução (Os Matadores, O Invasor); José Mojica Marins e sua contribuição ao filme de terror (À Meia-Noite Levarei Sua Alma) e até Tata Amaral, que conseguiu fazer tragédia (Céu de Estrelas) num solo que parecia fadado à monocultura.

ACHADOS E PERDIDOS (Brasil, 2006). Dir.: José Joffily. Com Antonio Fagundes, Zezé Polessa, Juliana Knust. Estréia nesta sexta-feira no Cineclube Vitrine 2, HSBC Belas Artes 6 e circuito. Cens.: 16 anos.

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