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Região é rota de tráfico internacional


Artur Rodrigues
Do Diário do Grande ABC

08/04/2006 | 09:04


O Grande ABC faz parte da rota do tráfico internacional de drogas. É o que aponta investigação da Dise (Delegacia de Investigações sobre Entorpecentes) de Santo André. Quinta-feira, depois de 40 dias de investigações, foi preso um nigeriano com meio quilo de cocaína pura, na capital. A droga passaria pela região, onde funciona a base de uma quadrilha de nigerianos que movimenta 200 quilos de cocaína por mês, vendidos na Europa por cerca de 2 milhões de euros.

A cidade do Grande ABC onde funciona a tal base da máfia nigeriana não foi divulgada para não prejudicar o curso das investigações. A polícia só diz que eles moram bem, longe das favelas. Foram identificados cerca de 15 integrantes da quadrilha, todos nigerianos e, possivelmente, ligados a conexões internacionais. Na região, funciona uma espécie de linha de produção. Tijolos de um quilo cada são divididos em pequenas cápsulas. As mulas – como são chamados os que levam a droga – engolem até um quilo e, quase sempre utilizando transporte coletivo, seguem para o Aeroporto Internacional de Guarulhos. Pelo serviço, recebem cerca de US$ 5 mil.

O nigeriano preso quinta-feira se identificou como Barnabás Chibundu. Sem documentos, ele foi detido por investigadores da Dise em frente ao metrô Patriarca, zona Leste da capital, com meio quilo de cocaína. Chibundu não fala português. Às vezes, fala inglês, língua oficial da Nigéria. Em outras ocasiões, fala um idioma ainda não identificado – o país tem centenas de línguas e dialetos. À reportagem, confirmou que a droga era dele. "Alguém me deu para levar para alguém", falou, evasivo.

O acusado confessou que recebeu US$ 50 para trazer a cocaína até a região. Levava o tijolo da droga dentro de uma sacola de papelão, de uma loja de produtos infantis. Chibundu conta que veio há um ano do Canadá, para onde pretendia voltar. Está preso provisoriamente na cadeia pública de Santo André.

A quadrilha a qual pertenceria compra a cocaína no Centro da capital. Os fornecedores são peruanos e colombianos, que trazem a droga pura, tipo exportação, dificilmente comercializada no varejo no Brasil. Os países compradores são Espanha, Portugal, Áustria, Suíça, entre outros. O quilo da cocaína sai do Brasil valendo 5 mil euros e chega na Europa custando o dobro.

Não se sabe ao certo há quanto tempo a máfia nigeriana chegou à região. Mas existem indícios que, há pelo menos um ano, o Grande ABC estaria na rota do tráfico internacional. No ano passado, um homem, possivelmente de origem africana e não identificado, morreu de overdose em Ribeirão Pires, após o rompimento de cápsula de cocaína em seu estômago. Segundo o delegado titular da Dise, Marcelo Bianchi, tudo indica que o homem fizesse parte da mesma quadrilha investigada atualmente.

Para chegar a Barnabas Chibundu, investigadores da Dise passaram mais de um mês no Centro de São Paulo, de onde sai a droga com destino à região. Ficavam por horas caracterizados como mendigos, entre outros disfarces, para passarem despercebidos pela multidão de nigerianos concentrada na área central de São Paulo.

A reportagem esteve no local e constatou a grande concentração de africanos. Costumam ficar nas ruas Rio Branco, Bento Freitas, Vitória etc. Na avenida São João, centenas deles passam os dias falando ao celular, sentados em bares, sempre falando em um idioma que não é o inglês, recurso usado possivelmente para evitar que outros compreendam o que dizem. "Isso aumentou muito a dificuldade da investigação", comenta Francisco Canassa Júnior, investigador chefe da Dise.

Imigrantes – Há cerca de 1,5 mil nigerianos legalizados no país, segundo dados da Polícia Federal. No entanto, estima-se que o número de nigerianos ultrapasse 5 mil. A maioria se concentra no Rio de Janeiro e em São Paulo. Alguns vêm de avião, outros de barco, como clandestinos. No Porto de Santos, ocorrências de nigerianos encontrados dentro de contêineres de carga são comuns.

Assim como outros imigrantes da Libéria, Congo, Tonga, África do Sul, os nigerianos vêm em busca de emprego ou usam o país apenas como uma porta mais fácil para entrar nos Estados Unidos de avião – o que, na prática, descobrem ser ilusão. Muitos deles, sem alternativa, acabam virando mulas. Ganham quantia razoável em dólar e a passagem para países da Europa.

Na última terça-feira, a Polícia Federal prendeu mais um nigeriano no Aeroporto Internacional de Guarulhos. Adebaiu Kaisem Bolage foi preso com 18 quilos de cocaína na bagagem, no fundo de caixas de sapato. A droga foi detectada no aparelho de raio X. Ele pretendia embarcar para Lagos, em seu país natal.

O tráfico internacional de drogas

1 - Cocaína é trazida da Colômbia ou do Peru e entra no Brasil pela Foz do Iguaçu. Os próprios bolivianos e peruanos trazem a droga.

2 - A cocaína pura, dificilmente encontrada no ‘mercado‘ brasileiro, é trazida em tijolos de um quilo até o centro de São Paulo.

3 - A mercadoria seria guardada em hotéis baratas do centro e comercializadas com nigerianos e imigrantes, geralmente ilegais, vindos de outros países da África.

4 - Há áreas do centro de São Paulo que são completamente dominadas pelos nigerianos. Eles podem ser vistos todos os dias, parados em bares e hotéis, falando ininterruptamente pelo telefone celular.

5 - Depois que adquirem a droga, os nigerianos a transportam quase sempre por meio do transporte público (metrô, trem e ônibus). Levam vários quilos de droga em sacolas.

6 - A droga é trazida a uma base no Grande ABC. Aqui, a cocaína pura é embalada em cápsulas e engolida pelos chamados mulas.

7 - Os mulas levam até um quilo de droga no estômago. Ganham em média 5 mil dólares para levar a cocaína pura para a Europa.

8 - A cocaína é levada, já no estômago dos mulas, para o Aeroporto Internacional de Guarulhos. Lá, segue para países como Espanha, Suíça e Portugal. Nesses países, a droga pode valer de duas a cinco vezes mais do que no Brasil.



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Região é rota de tráfico internacional

Artur Rodrigues
Do Diário do Grande ABC

08/04/2006 | 09:04


O Grande ABC faz parte da rota do tráfico internacional de drogas. É o que aponta investigação da Dise (Delegacia de Investigações sobre Entorpecentes) de Santo André. Quinta-feira, depois de 40 dias de investigações, foi preso um nigeriano com meio quilo de cocaína pura, na capital. A droga passaria pela região, onde funciona a base de uma quadrilha de nigerianos que movimenta 200 quilos de cocaína por mês, vendidos na Europa por cerca de 2 milhões de euros.

A cidade do Grande ABC onde funciona a tal base da máfia nigeriana não foi divulgada para não prejudicar o curso das investigações. A polícia só diz que eles moram bem, longe das favelas. Foram identificados cerca de 15 integrantes da quadrilha, todos nigerianos e, possivelmente, ligados a conexões internacionais. Na região, funciona uma espécie de linha de produção. Tijolos de um quilo cada são divididos em pequenas cápsulas. As mulas – como são chamados os que levam a droga – engolem até um quilo e, quase sempre utilizando transporte coletivo, seguem para o Aeroporto Internacional de Guarulhos. Pelo serviço, recebem cerca de US$ 5 mil.

O nigeriano preso quinta-feira se identificou como Barnabás Chibundu. Sem documentos, ele foi detido por investigadores da Dise em frente ao metrô Patriarca, zona Leste da capital, com meio quilo de cocaína. Chibundu não fala português. Às vezes, fala inglês, língua oficial da Nigéria. Em outras ocasiões, fala um idioma ainda não identificado – o país tem centenas de línguas e dialetos. À reportagem, confirmou que a droga era dele. "Alguém me deu para levar para alguém", falou, evasivo.

O acusado confessou que recebeu US$ 50 para trazer a cocaína até a região. Levava o tijolo da droga dentro de uma sacola de papelão, de uma loja de produtos infantis. Chibundu conta que veio há um ano do Canadá, para onde pretendia voltar. Está preso provisoriamente na cadeia pública de Santo André.

A quadrilha a qual pertenceria compra a cocaína no Centro da capital. Os fornecedores são peruanos e colombianos, que trazem a droga pura, tipo exportação, dificilmente comercializada no varejo no Brasil. Os países compradores são Espanha, Portugal, Áustria, Suíça, entre outros. O quilo da cocaína sai do Brasil valendo 5 mil euros e chega na Europa custando o dobro.

Não se sabe ao certo há quanto tempo a máfia nigeriana chegou à região. Mas existem indícios que, há pelo menos um ano, o Grande ABC estaria na rota do tráfico internacional. No ano passado, um homem, possivelmente de origem africana e não identificado, morreu de overdose em Ribeirão Pires, após o rompimento de cápsula de cocaína em seu estômago. Segundo o delegado titular da Dise, Marcelo Bianchi, tudo indica que o homem fizesse parte da mesma quadrilha investigada atualmente.

Para chegar a Barnabas Chibundu, investigadores da Dise passaram mais de um mês no Centro de São Paulo, de onde sai a droga com destino à região. Ficavam por horas caracterizados como mendigos, entre outros disfarces, para passarem despercebidos pela multidão de nigerianos concentrada na área central de São Paulo.

A reportagem esteve no local e constatou a grande concentração de africanos. Costumam ficar nas ruas Rio Branco, Bento Freitas, Vitória etc. Na avenida São João, centenas deles passam os dias falando ao celular, sentados em bares, sempre falando em um idioma que não é o inglês, recurso usado possivelmente para evitar que outros compreendam o que dizem. "Isso aumentou muito a dificuldade da investigação", comenta Francisco Canassa Júnior, investigador chefe da Dise.

Imigrantes – Há cerca de 1,5 mil nigerianos legalizados no país, segundo dados da Polícia Federal. No entanto, estima-se que o número de nigerianos ultrapasse 5 mil. A maioria se concentra no Rio de Janeiro e em São Paulo. Alguns vêm de avião, outros de barco, como clandestinos. No Porto de Santos, ocorrências de nigerianos encontrados dentro de contêineres de carga são comuns.

Assim como outros imigrantes da Libéria, Congo, Tonga, África do Sul, os nigerianos vêm em busca de emprego ou usam o país apenas como uma porta mais fácil para entrar nos Estados Unidos de avião – o que, na prática, descobrem ser ilusão. Muitos deles, sem alternativa, acabam virando mulas. Ganham quantia razoável em dólar e a passagem para países da Europa.

Na última terça-feira, a Polícia Federal prendeu mais um nigeriano no Aeroporto Internacional de Guarulhos. Adebaiu Kaisem Bolage foi preso com 18 quilos de cocaína na bagagem, no fundo de caixas de sapato. A droga foi detectada no aparelho de raio X. Ele pretendia embarcar para Lagos, em seu país natal.

O tráfico internacional de drogas

1 - Cocaína é trazida da Colômbia ou do Peru e entra no Brasil pela Foz do Iguaçu. Os próprios bolivianos e peruanos trazem a droga.

2 - A cocaína pura, dificilmente encontrada no ‘mercado‘ brasileiro, é trazida em tijolos de um quilo até o centro de São Paulo.

3 - A mercadoria seria guardada em hotéis baratas do centro e comercializadas com nigerianos e imigrantes, geralmente ilegais, vindos de outros países da África.

4 - Há áreas do centro de São Paulo que são completamente dominadas pelos nigerianos. Eles podem ser vistos todos os dias, parados em bares e hotéis, falando ininterruptamente pelo telefone celular.

5 - Depois que adquirem a droga, os nigerianos a transportam quase sempre por meio do transporte público (metrô, trem e ônibus). Levam vários quilos de droga em sacolas.

6 - A droga é trazida a uma base no Grande ABC. Aqui, a cocaína pura é embalada em cápsulas e engolida pelos chamados mulas.

7 - Os mulas levam até um quilo de droga no estômago. Ganham em média 5 mil dólares para levar a cocaína pura para a Europa.

8 - A cocaína é levada, já no estômago dos mulas, para o Aeroporto Internacional de Guarulhos. Lá, segue para países como Espanha, Suíça e Portugal. Nesses países, a droga pode valer de duas a cinco vezes mais do que no Brasil.

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