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Êta Nóis


Gislaine Gutierre
Do Diário do Grande ABC

16/10/2006 | 20:10


Há tempos a música caipira se confunde e se mistura a gêneros e subgêneros que, aos ouvidos menos atentos, dão a impressão de ser tudo uma coisa só. Foi justamente dessas tarefas, de separar o joio do trigo, e de selecionar os ovos e deixar de lado as titicas da mesma galinha, que surgiu o livro Música Caipira – As 270 Maiores Modas de Todos os Tempos (Editora Globo, 272 págs., R$ 32), do jornalista José Hamilton Ribeiro.

Para chegar às músicas do título, Ribeiro se uniu ao médico e catireiro de Bom Despacho (MG), José Maria Campos, e a Junior Borges, seleiro e violeiro de Uberaba (MG). Cada um tem um acervo de aproximadamente 2 mil títulos. E foi nesse universo que os três se embrenharam. “Eu analisava mais a letra e eles, como são músicos, avaliavam a parte musical”, diz o autor. Para entrar na lista, era preciso que a composição tivesse ao menos dois votos.

Assim, chegaram às 150 melhores músicas caipiras e listaram outras 120 melhores em 12 categorias diferentes: modas de viola, pagodes, modas mais engraçadas, modas de campeão, melhores versões, modas de caçada e pescaria, modas sobre bichos, modas sobre plantas, modas mais apaixonadas, modas com carro de boi, modas sobre cidades, maiores dramalhões e melhores duplas.

A chamada música sertaneja sequer é mencionada. Por uma razão muito simples: “A música sertaneja é do sertão e existe no Brasil todo. E a caipira é a sertaneja dessa região específica, o triângulo formado pelas cidades paulistas de Piracicaba, Sorocaba e Botucatu, e que depois se espraiou para parte do Paraná e Rio Grande do Sul, até chegar ao Norte”.

Ribeiro teve o cuidado de colocar na obra não apenas as músicas, mas falar sobre as raízes sociológicas deste gênero, que nos anos 50 respondeu pelo principal investimento de gravadoras, ocupando, também, boa parte da programação das rádios.

“A música caipira é a expressão artística de um modo geográfico, sociológico, econômico e histórico da vida do homem caipira. Ela surgiu quando 80% da população estava no campo, a maioria esmagadora vivia nesse contexto retratado na música”, explica o jornalista.

Destino – O êxodo para as cidades e a urbanização das áreas rurais, após o período de glória da música caipira, contribuíram severamente para o encolhimento desta produção e para o surgimento de uma outra vertente musical nascida na esteira da música caipira: o chamado “sertanejo moderno”, muito difundido pelas duplas hoje milionárias e famosas.

Fora isso, houve o “patrulhamento ideológico”, que fez o caipira se envergonhar de suas raízes quando mudou para a cidade; prevaleceu a cultura colonizada, a valorização da música estrangeira.

O livro expressa essa preocupação com o destino da música caipira. Na opinião do autor, há três prováveis caminhos: “Os saudosistas acreditam que este segmento pode continuar, sem mudanças”. Esta seria a primeira opção. Mas como produzir uma música caipira autêntica sobre um interior degradado, com rios poluídos e cultura massificada? “Se o jovem ficasse na temática dos patriarcas, soaria falso. Como ele pode cantar sobre um carro de boi, se nunca viu um?”, questiona Ribeiro.

A segunda possibilidade seria se voltar cada vez mais à vertente moderna, “que é forte, vende discos”. Mas aí, segundo o autor, já não seria música caipira: “A temática não é rural, nem urbana, mas suburbana, e fala de corneamento, de mulher pra lá, mulher pra cá...”

A entrada da viola caipira no universo da chamada música clássica é a terceira via apontada. “Há um pessoal que estuda essa música, que lê partituras e conhece sua história. Eles são mais solistas que cantores e estão dando outro status para a música caipira”, diz.

Patriarcas – O melhor da produção caipira, segundo a pesquisa de Ribeiro, está situado até os anos 60. Muito se perdeu, daqueles “patriarcas”, principalmente na virada do disco 78 rotações para o formato long play. “Se tivéssemos todo esse material, poderíamos ter chegado às 500 melhores modas, em vez de 270”, afirma.

É possível que o material desta obra seja levada também ao DVD, interpretado por algumas duplas. O futuro deste gênero, no entanto, ainda é uma pergunta a ser respondida. Por enquanto, Ribeiro só tem uma certeza: “Penso no Johann Sebastian Bach (compositor erudito). Ele fez sua obra, que está aí e outras pessoas continuam criando com base nela. A música caipira também será semente para outras criações. Uma semente para o futuro”.




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Êta Nóis

Gislaine Gutierre
Do Diário do Grande ABC

16/10/2006 | 20:10


Há tempos a música caipira se confunde e se mistura a gêneros e subgêneros que, aos ouvidos menos atentos, dão a impressão de ser tudo uma coisa só. Foi justamente dessas tarefas, de separar o joio do trigo, e de selecionar os ovos e deixar de lado as titicas da mesma galinha, que surgiu o livro Música Caipira – As 270 Maiores Modas de Todos os Tempos (Editora Globo, 272 págs., R$ 32), do jornalista José Hamilton Ribeiro.

Para chegar às músicas do título, Ribeiro se uniu ao médico e catireiro de Bom Despacho (MG), José Maria Campos, e a Junior Borges, seleiro e violeiro de Uberaba (MG). Cada um tem um acervo de aproximadamente 2 mil títulos. E foi nesse universo que os três se embrenharam. “Eu analisava mais a letra e eles, como são músicos, avaliavam a parte musical”, diz o autor. Para entrar na lista, era preciso que a composição tivesse ao menos dois votos.

Assim, chegaram às 150 melhores músicas caipiras e listaram outras 120 melhores em 12 categorias diferentes: modas de viola, pagodes, modas mais engraçadas, modas de campeão, melhores versões, modas de caçada e pescaria, modas sobre bichos, modas sobre plantas, modas mais apaixonadas, modas com carro de boi, modas sobre cidades, maiores dramalhões e melhores duplas.

A chamada música sertaneja sequer é mencionada. Por uma razão muito simples: “A música sertaneja é do sertão e existe no Brasil todo. E a caipira é a sertaneja dessa região específica, o triângulo formado pelas cidades paulistas de Piracicaba, Sorocaba e Botucatu, e que depois se espraiou para parte do Paraná e Rio Grande do Sul, até chegar ao Norte”.

Ribeiro teve o cuidado de colocar na obra não apenas as músicas, mas falar sobre as raízes sociológicas deste gênero, que nos anos 50 respondeu pelo principal investimento de gravadoras, ocupando, também, boa parte da programação das rádios.

“A música caipira é a expressão artística de um modo geográfico, sociológico, econômico e histórico da vida do homem caipira. Ela surgiu quando 80% da população estava no campo, a maioria esmagadora vivia nesse contexto retratado na música”, explica o jornalista.

Destino – O êxodo para as cidades e a urbanização das áreas rurais, após o período de glória da música caipira, contribuíram severamente para o encolhimento desta produção e para o surgimento de uma outra vertente musical nascida na esteira da música caipira: o chamado “sertanejo moderno”, muito difundido pelas duplas hoje milionárias e famosas.

Fora isso, houve o “patrulhamento ideológico”, que fez o caipira se envergonhar de suas raízes quando mudou para a cidade; prevaleceu a cultura colonizada, a valorização da música estrangeira.

O livro expressa essa preocupação com o destino da música caipira. Na opinião do autor, há três prováveis caminhos: “Os saudosistas acreditam que este segmento pode continuar, sem mudanças”. Esta seria a primeira opção. Mas como produzir uma música caipira autêntica sobre um interior degradado, com rios poluídos e cultura massificada? “Se o jovem ficasse na temática dos patriarcas, soaria falso. Como ele pode cantar sobre um carro de boi, se nunca viu um?”, questiona Ribeiro.

A segunda possibilidade seria se voltar cada vez mais à vertente moderna, “que é forte, vende discos”. Mas aí, segundo o autor, já não seria música caipira: “A temática não é rural, nem urbana, mas suburbana, e fala de corneamento, de mulher pra lá, mulher pra cá...”

A entrada da viola caipira no universo da chamada música clássica é a terceira via apontada. “Há um pessoal que estuda essa música, que lê partituras e conhece sua história. Eles são mais solistas que cantores e estão dando outro status para a música caipira”, diz.

Patriarcas – O melhor da produção caipira, segundo a pesquisa de Ribeiro, está situado até os anos 60. Muito se perdeu, daqueles “patriarcas”, principalmente na virada do disco 78 rotações para o formato long play. “Se tivéssemos todo esse material, poderíamos ter chegado às 500 melhores modas, em vez de 270”, afirma.

É possível que o material desta obra seja levada também ao DVD, interpretado por algumas duplas. O futuro deste gênero, no entanto, ainda é uma pergunta a ser respondida. Por enquanto, Ribeiro só tem uma certeza: “Penso no Johann Sebastian Bach (compositor erudito). Ele fez sua obra, que está aí e outras pessoas continuam criando com base nela. A música caipira também será semente para outras criações. Uma semente para o futuro”.


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