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Freak Brothers: fabulosos e incorretos


Alessandro Soares
Do Diário do Grande ABC

09/09/2005 | 08:35


Três rapazes deixaram a faculdade de lado em busca de sexo, drogas e rock’n roll em 1968. Esta clássica descrição da contracultura nos anos 1960 soa hoje como um chavão comportamental distante no tempo, e condenado como estilo de vida incorreto neste atual 2005. Mesmo assim, aqueles três resistiram, chapando-se como podiam. Como que descongelados no tempo, os Fabulous Furry Freak Brothers, criados por Gilbert Shelton e desenhados em preto-e-branco por Paul Mavrides e Dave Sheridan (Conrad, 152 págs., R$ 35), foram reconduzidos à margem da vida. Se pelo menos abalarem as bases do sistema – ou encherem o saco dos 10% mais abonados, segundo o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), e seus paus-mandados no poder – sua missão na Terra está cumprida. Este volume 2 completa na editora a série dos Fab Furry, referência underground aos Fab Four de então, os Beatles.

Phineas, Fat Freddy e Freewheelin’ Franklin deixaram o Texas em 1968 para fazer viagens sem retorno. O trio de anti-heróis vagabundos destoa como três acordes básicos num riff roqueiro em uma cultura orquestrada. Tomando ácido, cheirando pó e fumando maconha dão um chega pra lá no conflito de gerações, na religião, no moralismo conservador, na corrupção do governo. Aborto, amor livre, infalibilidade das autoridades não resistem aos cabeludos, barbudos, indolentes, malcomportados e iconoclastas. Eles são como o anti-reflexo de uma pretensa civilização, distorcendo-a e ao mesmo tempo expondo suas fissuras.

É verdade que os Freak Brothers são três – e os Fab Four, quatro –, mas há um quarto elemento: o gato de Fat Freddy, que geralmente tinha uma tirinha com sacadas exclusivas nas revistas, e que foi apontado como alter-ego do autor, Gilbert Shelton – as histórias dos Freak eram publicadas em uma página e a tira do gato no pé dela. Mas uma página era pouco para tanta viagem lisérgica e maluquice: derretimento nuclear, corrida do ouro, um papagaio que passa a perna no departamento antidrogas dos EUA, a "morte" de Fat Freddy e o padre cheio de gin que leu Shakespeare na cerimônia ao invés da Bíblia, sem que percebessem a diferença.

Os Freak Brothers surgiram nos Estados Unidos quando a Guerra do Vietnã desgastava o país e percebeu-se que era possível peitar as autoridades. Foi também a era do questionamento estudantil, o Maio de 1968. Em plena América das oportunidades, a livre expressão só era válida sem hematomas quando em comum acordo com a ideologia dominante de poder. Por isso as aventuras dos Freak tomaram rumo underground – circulavam fora do circuito comercial, em mídias alternativas às grandes editoras.

Shelton foi companheiro de outros artistas alheios aos ditames culturais ditos corretos, como Robert Crumb, na revista Zap Comix, lançada em 1967, cuja coletânea a Conrad também publicou. Os Freak Brothers entraram em cena pela Rip Off Press, editora fundada por Shelton e alguns amigos, que compraram uma impressora para publicar só títulos fora do esquema tradicional de super-heróis e infantis. Este volume reúne as histórias publicadas nos anos 70 e 80.



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