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‘As Crônicas de Nárnia’ faz apologia ao cristianismo


Cássio Gomes Neves
Do Diário do Grande ABC

09/12/2005 | 08:36


O Senhor dos Anéis virou filmes. Harry Potter vira filmes ano sim, ano não. A Paixão de Cristo não só vira filmes, como é uma das narrativas preferidas do cinema, computada aí a recente adesão de Mel Gibson. Não haveria porque As Crônicas de Nárnia não ser igualmente reprocessado para o cinema, posto que a série literária é o feito mais célebre de Clive Staples Lewis (1898-1963), ou C.S. Lewis, como acabou conhecido o autor irlandês, amigo íntimo de J.R.R. Tolkien (O Senhor dos Anéis) e influência gritante para J.K. Rowling (Harry Potter). E, com o aval e distribuição da Walt Disney, eis que sai a adaptação cinematográfica do primeiro dos sete livros redigidos por Lewis, As Crônicas de Nárnia – O Leão, a Feiticeira e o Guarda-roupa. É a grande aposta da Disney para 2005, na corrida atrás de prejuízos consecutivos.

Ficam explicadas as menções anteriores a O Senhor dos Anéis e Harry Potter, que comungam com Nárnia a narrativa fantástica. Ora, por que citar A Paixão de Cristo em texto sobre uma ficção de tal natureza? Simples. Lewis é, não raramente, classificado como um dos mais aclamados escritores cristãos do século XX. A ponto de um pastor norte-americano, após ver o longa-metragem, afirmar que “Deus fala por meio desse filme”. Prossegue o proselitismo: setores minoritários do cristianismo chegam a indicar As Crônicas de Nárnia leitura tão essencial quanto a Bíblia.

Mais que metáforas, o escritor pratica apologia ao cristianismo em suas letras. O leão Aslan, simultaneamente carpinteiro e salvador do universo de Nárnia, é uma evidente representação felina de Jesus Cristo e de Deus, com direito a paixão e ressurreição particulares. Os quatro irmãos Pevensie, crianças do mundo real que acessam o mundo fantástico, são constantemente chamados de filhos de Adão e de Eva e sobre eles recai a responsabilidade de cumprir uma profecia sobre a libertação de Nárnia. E por aí afora.

Hora de pôr ordem em tanta informação: as tais crianças Pevensie são enviadas pela mãe para a segurança da mansão campestre de um recluso e misterioso professor durante a Segunda Guerra, na qual o pai luta pelas hordas britânicas. Na casa, a molecada descobre um armário que na verdade é um portal para Nárnia, país que vive rigoroso e duradouro inverno por conta dos sortilégios da Feiticeira Branca, governante auto-proclamada do lugar, onde habitam castores e cavalos falantes, centauros, faunos como o simpático Senhor Tuminus, sereias e outras criaturas. A chegada dos quatro irmãos reacende a subversão entre os narnianos, que aguardam o retorno do leão Aslan, rei por direito de Nárnia, para declarar guerra à feiticeira.

Em nome do pai – E é com um olho nos catequistas e outro nos guris leitores de Lewis que Andrew Adamson (dos dois Shrek) dirige As Crônicas de Nárnia. Realiza uma adaptação fiel – fidelidade que, neste caso, soa como frivolidade. Filma a chegada e o sacrifício de Aslan, que oferece o próprio couro para salvar a vida de um dos irmãos Pevensie, de modo supostamente angustiado, para que fique clara a correspondência com o mito cristão. O garoto salvo pelo leão remete à figura do traidor, uma variação de Judas Iscariotes.

Hoje em dia, porém, a estrutura de mitificação a partir do modelo cristão, com as devidas inclinações pelo sacrifício e pelo messianismo, já respira um ar viciado. Vide a trilogia Matrix e a série Star Wars, os mais óbvios produtos reciclados de tal mitologia. Na montanha em que Nárnia pretende fazer seu sermão já não nasce mais grama, tamanho o pisoteio executado pelos seus antecessores do pop audiovisual.

O problema aqui está entre demanda e oferta. Cobram de Nárnia uma responsabilidade sacerdotal que o filme não pode oferecer, porque, de 50 anos para cá, já houve metáforas mais eficazes no cinema. Resta analisar o filme como crônica da guerra, evidenciada pelas tomadas aéreas correspondentes de dois ataques, o de bombardeiros alemães sobre a Inglaterra no mundo real e o de criaturas aladas a serviço dos mocinhos em Nárnia. Adamson exibe os estados de pavor e de glória que podem estar relacionados à guerra, sempre pelos olhos dos irmãos Pevensie. Apenas exibe-os; não os explora por pura inconsciência ou por medo de tocar no assunto “morte” (é impressionante o número de ressurreições no filme). Tudo por conta dessa tal fidelidade ao livro, não um sinal de nobreza, mas de covardia.

AS CRÔNICAS DE NÁRNIA – O LEÃO, A FEITICEIRA E O GUARDA-ROUPA (The Chronicles of Narnia – The Lion, the Witch and the Wardrobe, EUA, 2005). Dir.: Andrew Adamson. Com Georgie Henley, Skandar Keynes, William Moseley, Anna Popplewell, Tilda Swinton, Jim Broadbent. Estréia nesta sexta-feira no ABC Plaza 1, 4 e 7, Shopping ABC 2 e 3, Extra Anchieta 4, 5 e 9, Metrópole 3, Mauá Plaza 1 e 5, Central Plaza 2, 8 e 10 e circuito. Duração: 140 minutos. Censura: 10 anos.


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‘As Crônicas de Nárnia’ faz apologia ao cristianismo

Cássio Gomes Neves
Do Diário do Grande ABC

09/12/2005 | 08:36


O Senhor dos Anéis virou filmes. Harry Potter vira filmes ano sim, ano não. A Paixão de Cristo não só vira filmes, como é uma das narrativas preferidas do cinema, computada aí a recente adesão de Mel Gibson. Não haveria porque As Crônicas de Nárnia não ser igualmente reprocessado para o cinema, posto que a série literária é o feito mais célebre de Clive Staples Lewis (1898-1963), ou C.S. Lewis, como acabou conhecido o autor irlandês, amigo íntimo de J.R.R. Tolkien (O Senhor dos Anéis) e influência gritante para J.K. Rowling (Harry Potter). E, com o aval e distribuição da Walt Disney, eis que sai a adaptação cinematográfica do primeiro dos sete livros redigidos por Lewis, As Crônicas de Nárnia – O Leão, a Feiticeira e o Guarda-roupa. É a grande aposta da Disney para 2005, na corrida atrás de prejuízos consecutivos.

Ficam explicadas as menções anteriores a O Senhor dos Anéis e Harry Potter, que comungam com Nárnia a narrativa fantástica. Ora, por que citar A Paixão de Cristo em texto sobre uma ficção de tal natureza? Simples. Lewis é, não raramente, classificado como um dos mais aclamados escritores cristãos do século XX. A ponto de um pastor norte-americano, após ver o longa-metragem, afirmar que “Deus fala por meio desse filme”. Prossegue o proselitismo: setores minoritários do cristianismo chegam a indicar As Crônicas de Nárnia leitura tão essencial quanto a Bíblia.

Mais que metáforas, o escritor pratica apologia ao cristianismo em suas letras. O leão Aslan, simultaneamente carpinteiro e salvador do universo de Nárnia, é uma evidente representação felina de Jesus Cristo e de Deus, com direito a paixão e ressurreição particulares. Os quatro irmãos Pevensie, crianças do mundo real que acessam o mundo fantástico, são constantemente chamados de filhos de Adão e de Eva e sobre eles recai a responsabilidade de cumprir uma profecia sobre a libertação de Nárnia. E por aí afora.

Hora de pôr ordem em tanta informação: as tais crianças Pevensie são enviadas pela mãe para a segurança da mansão campestre de um recluso e misterioso professor durante a Segunda Guerra, na qual o pai luta pelas hordas britânicas. Na casa, a molecada descobre um armário que na verdade é um portal para Nárnia, país que vive rigoroso e duradouro inverno por conta dos sortilégios da Feiticeira Branca, governante auto-proclamada do lugar, onde habitam castores e cavalos falantes, centauros, faunos como o simpático Senhor Tuminus, sereias e outras criaturas. A chegada dos quatro irmãos reacende a subversão entre os narnianos, que aguardam o retorno do leão Aslan, rei por direito de Nárnia, para declarar guerra à feiticeira.

Em nome do pai – E é com um olho nos catequistas e outro nos guris leitores de Lewis que Andrew Adamson (dos dois Shrek) dirige As Crônicas de Nárnia. Realiza uma adaptação fiel – fidelidade que, neste caso, soa como frivolidade. Filma a chegada e o sacrifício de Aslan, que oferece o próprio couro para salvar a vida de um dos irmãos Pevensie, de modo supostamente angustiado, para que fique clara a correspondência com o mito cristão. O garoto salvo pelo leão remete à figura do traidor, uma variação de Judas Iscariotes.

Hoje em dia, porém, a estrutura de mitificação a partir do modelo cristão, com as devidas inclinações pelo sacrifício e pelo messianismo, já respira um ar viciado. Vide a trilogia Matrix e a série Star Wars, os mais óbvios produtos reciclados de tal mitologia. Na montanha em que Nárnia pretende fazer seu sermão já não nasce mais grama, tamanho o pisoteio executado pelos seus antecessores do pop audiovisual.

O problema aqui está entre demanda e oferta. Cobram de Nárnia uma responsabilidade sacerdotal que o filme não pode oferecer, porque, de 50 anos para cá, já houve metáforas mais eficazes no cinema. Resta analisar o filme como crônica da guerra, evidenciada pelas tomadas aéreas correspondentes de dois ataques, o de bombardeiros alemães sobre a Inglaterra no mundo real e o de criaturas aladas a serviço dos mocinhos em Nárnia. Adamson exibe os estados de pavor e de glória que podem estar relacionados à guerra, sempre pelos olhos dos irmãos Pevensie. Apenas exibe-os; não os explora por pura inconsciência ou por medo de tocar no assunto “morte” (é impressionante o número de ressurreições no filme). Tudo por conta dessa tal fidelidade ao livro, não um sinal de nobreza, mas de covardia.

AS CRÔNICAS DE NÁRNIA – O LEÃO, A FEITICEIRA E O GUARDA-ROUPA (The Chronicles of Narnia – The Lion, the Witch and the Wardrobe, EUA, 2005). Dir.: Andrew Adamson. Com Georgie Henley, Skandar Keynes, William Moseley, Anna Popplewell, Tilda Swinton, Jim Broadbent. Estréia nesta sexta-feira no ABC Plaza 1, 4 e 7, Shopping ABC 2 e 3, Extra Anchieta 4, 5 e 9, Metrópole 3, Mauá Plaza 1 e 5, Central Plaza 2, 8 e 10 e circuito. Duração: 140 minutos. Censura: 10 anos.

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