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Aqui o Bolsa Família não chega

Celso Luiz/DGABC  Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra

População que vive sem qualquer benefício por parte do poder público enfrenta dificuldades para garantir o pão de cada dia no Grande ABC


Natália Fernandjes
Do Diário do Grande ABC

19/03/2015 | 07:00


 Um dia de cada vez. Esse é o lema da auxiliar de limpeza Ana Paula dos Santos, 34 anos. Desempregada desde dezembro, a moradora do núcleo Fazendinha, no Parque Miami, em Santo André, se desdobra como pode para sustentar os seis filhos sozinha e pagar aluguel de seu barraco. Ela integra grupo de cerca de 150 mil famílias que se encaixam no perfil do programa Bolsa Família, do governo federal, mas que ainda não foram localizadas e cadastradas para receber o benefício, de acordo com estimativa do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome.

“Nunca estive nessa situação. A gente só não passa fome porque ganha cesta básica da associação (Associação Amigos de Moradores do Núcleo Pintassilva)”, comenta Ana Paula. Ela se emociona ao lembrar de como sua família se encontra atualmente. A única fonte de renda fixa é a pensão alimentícia que recebe de um dos pais dos filhos, no valor de R$ 100, e os R$ 25 por dia de trabalho aos fins de semana em seu bico em restaurante como auxiliar de cozinha. “O pior é que o movimento está fraco e eles não estão me chamando sempre. Tento guardar R$ 20 e com os R$ 5 restantes compro alguma coisinha para casa”, diz.

Os sete moradores se dividem num barraco de madeira de um cômodo, separado entre quarto, cozinha e banheiro e com uma única janela pequena. Para dormir, eles se tem uma cama de casal e dois colchões de solteiro no chão. O espaço, que também é habitado pelo cachorro de estimação, Bob, custa R$ 250 por mês. “O aluguel de março está atrasado. Já estou começando a ficar desesperada”, revela.

A família se mudou para o núcleo Pintassilva há quatro meses, depois de sofrer golpe imobiliário e ser removida pela Prefeitura do núcleo Missionários, no Jardim Santo André. “Tinha comprado um barraco lá por R$ 4.500, mas o proprietário cadastrou o aluguel social no nome dele e, como não tinha nenhum documento para provar a compra, tive de sair”, lamenta a auxiliar de limpeza.

O plano de Ana Paula é incentivar os filhos a manterem os estudos em dia para conseguir cadastro no Bolsa Família. “Graças a Deus até o de 14 anos, que era meio rebelde, está indo bem”, comenta.

Situação semelhante vive a família da jovem Grazielle Oliveira de Souza, 23. Ela e os dois filhos, com 2 e 6 anos, moram com a mãe e três irmãos adolescentes em barraco de madeira de um cômodo alugado por R$ 200 no núcleo Pintassilva, também no Parque Miami. A única renda fixa do grupo é o bico da mãe, Dionísia Aparecida de Oliveira, 50, como babá, de R$ 350, e R$ 100 provenientes de pensão alimentícia de um dos filhos.

“Hoje, por exemplo, não tenho arroz para colocar no fogo, mas dá para comer. Tem pão e café”, ressalta Grazielle. A família está na fila para receber cesta básica pela associação de moradores do bairro. “Tudo aqui é fruto de doação. Ganhamos essa TV e as duas beliches no Natal. Até então a gente dormia no chão”, lembra a jovem, que diz não poder trabalhar porque não conseguiu vaga em creche para a filha mais nova, Mikaelly.

O casal formado pelos desempregados Paloma de Souza, 22, e Wigno Nadjares, 25, também passa por dificuldades. Ambos moram numa garagem adaptada na casa dos pais da jovem, mas sem banheiro. “O banheiro estava nos planos da reforma, mas meu marido trabalhava com pesca e ficou desempregado porque era irregular e tomaram a rede dele. A gente vai se virando e usando o banheiro da casa dos meus pais”, destaca a mãe de filho de um ano e quatro meses.

Para conseguir sobreviver, o casal também aderiu aos bicos. Enquanto Nadjares faz serviços externos como ajudante de pedreiro e eletricista, ela cuida de algumas crianças do núcleo para que os pais possam trabalhar. “A gente conta com a ajuda da família, que está sempre colaborando com alimento”, afirma Paloma.

Cerca de 66,1 mil recebem benefício

O Grande ABC tem atualmente 66,1 mil famílias cadastradas no Bolsa Família, de acordo com o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. A cidade com maior número de contemplados é São Bernardo (18.947 famílias), seguida por Santo André (16.393), Diadema (15.893), Mauá (8.449), Ribeirão Pires (2.935), Rio Grande da Serra (2.389) e São Caetano (1.095). Os números são referentes a fevereiro.

O principal programa de transferência de renda do governo federal completou dez anos de existência em 2013. Conforme explica o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, para identificar as famílias com perfil do benefício, a gestão municipal do Bolsa Família, por intermédio das equipes da assistência social, realiza trabalho de busca ativa no município. Por esta ação, as famílias com renda per capita de até R$ 154 são inseridas no Cadastro Único e posteriormente no programa. O valor recebido varia de R$ 32 a R$ 306.

Vale destacar que, apesar de o País ter deixado o mapa da fome da FAO (braço da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura), o problema ainda atinge 1,7% da população. Na região, cerca de 250 mil pessoas vivem na pobreza.

VISITA

A ministra do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Tereza Campello, estará hoje, às 19h, no campus São Bernardo da UFABC (Universidade Federal do ABC), onde ministrará aula inaugural do ano letivo da instituição de ensino.



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Aqui o Bolsa Família não chega

População que vive sem qualquer benefício por parte do poder público enfrenta dificuldades para garantir o pão de cada dia no Grande ABC

Natália Fernandjes
Do Diário do Grande ABC

19/03/2015 | 07:00


 Um dia de cada vez. Esse é o lema da auxiliar de limpeza Ana Paula dos Santos, 34 anos. Desempregada desde dezembro, a moradora do núcleo Fazendinha, no Parque Miami, em Santo André, se desdobra como pode para sustentar os seis filhos sozinha e pagar aluguel de seu barraco. Ela integra grupo de cerca de 150 mil famílias que se encaixam no perfil do programa Bolsa Família, do governo federal, mas que ainda não foram localizadas e cadastradas para receber o benefício, de acordo com estimativa do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome.

“Nunca estive nessa situação. A gente só não passa fome porque ganha cesta básica da associação (Associação Amigos de Moradores do Núcleo Pintassilva)”, comenta Ana Paula. Ela se emociona ao lembrar de como sua família se encontra atualmente. A única fonte de renda fixa é a pensão alimentícia que recebe de um dos pais dos filhos, no valor de R$ 100, e os R$ 25 por dia de trabalho aos fins de semana em seu bico em restaurante como auxiliar de cozinha. “O pior é que o movimento está fraco e eles não estão me chamando sempre. Tento guardar R$ 20 e com os R$ 5 restantes compro alguma coisinha para casa”, diz.

Os sete moradores se dividem num barraco de madeira de um cômodo, separado entre quarto, cozinha e banheiro e com uma única janela pequena. Para dormir, eles se tem uma cama de casal e dois colchões de solteiro no chão. O espaço, que também é habitado pelo cachorro de estimação, Bob, custa R$ 250 por mês. “O aluguel de março está atrasado. Já estou começando a ficar desesperada”, revela.

A família se mudou para o núcleo Pintassilva há quatro meses, depois de sofrer golpe imobiliário e ser removida pela Prefeitura do núcleo Missionários, no Jardim Santo André. “Tinha comprado um barraco lá por R$ 4.500, mas o proprietário cadastrou o aluguel social no nome dele e, como não tinha nenhum documento para provar a compra, tive de sair”, lamenta a auxiliar de limpeza.

O plano de Ana Paula é incentivar os filhos a manterem os estudos em dia para conseguir cadastro no Bolsa Família. “Graças a Deus até o de 14 anos, que era meio rebelde, está indo bem”, comenta.

Situação semelhante vive a família da jovem Grazielle Oliveira de Souza, 23. Ela e os dois filhos, com 2 e 6 anos, moram com a mãe e três irmãos adolescentes em barraco de madeira de um cômodo alugado por R$ 200 no núcleo Pintassilva, também no Parque Miami. A única renda fixa do grupo é o bico da mãe, Dionísia Aparecida de Oliveira, 50, como babá, de R$ 350, e R$ 100 provenientes de pensão alimentícia de um dos filhos.

“Hoje, por exemplo, não tenho arroz para colocar no fogo, mas dá para comer. Tem pão e café”, ressalta Grazielle. A família está na fila para receber cesta básica pela associação de moradores do bairro. “Tudo aqui é fruto de doação. Ganhamos essa TV e as duas beliches no Natal. Até então a gente dormia no chão”, lembra a jovem, que diz não poder trabalhar porque não conseguiu vaga em creche para a filha mais nova, Mikaelly.

O casal formado pelos desempregados Paloma de Souza, 22, e Wigno Nadjares, 25, também passa por dificuldades. Ambos moram numa garagem adaptada na casa dos pais da jovem, mas sem banheiro. “O banheiro estava nos planos da reforma, mas meu marido trabalhava com pesca e ficou desempregado porque era irregular e tomaram a rede dele. A gente vai se virando e usando o banheiro da casa dos meus pais”, destaca a mãe de filho de um ano e quatro meses.

Para conseguir sobreviver, o casal também aderiu aos bicos. Enquanto Nadjares faz serviços externos como ajudante de pedreiro e eletricista, ela cuida de algumas crianças do núcleo para que os pais possam trabalhar. “A gente conta com a ajuda da família, que está sempre colaborando com alimento”, afirma Paloma.

Cerca de 66,1 mil recebem benefício

O Grande ABC tem atualmente 66,1 mil famílias cadastradas no Bolsa Família, de acordo com o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. A cidade com maior número de contemplados é São Bernardo (18.947 famílias), seguida por Santo André (16.393), Diadema (15.893), Mauá (8.449), Ribeirão Pires (2.935), Rio Grande da Serra (2.389) e São Caetano (1.095). Os números são referentes a fevereiro.

O principal programa de transferência de renda do governo federal completou dez anos de existência em 2013. Conforme explica o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, para identificar as famílias com perfil do benefício, a gestão municipal do Bolsa Família, por intermédio das equipes da assistência social, realiza trabalho de busca ativa no município. Por esta ação, as famílias com renda per capita de até R$ 154 são inseridas no Cadastro Único e posteriormente no programa. O valor recebido varia de R$ 32 a R$ 306.

Vale destacar que, apesar de o País ter deixado o mapa da fome da FAO (braço da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura), o problema ainda atinge 1,7% da população. Na região, cerca de 250 mil pessoas vivem na pobreza.

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A ministra do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Tereza Campello, estará hoje, às 19h, no campus São Bernardo da UFABC (Universidade Federal do ABC), onde ministrará aula inaugural do ano letivo da instituição de ensino.

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