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Autodidata Moisés ataca em vídeo

O olhar sereno, a fala pausada e os gestos comedidos escondem a exuberância criativa desse artista


Dojival Filho
Do Diário do Grande ABC

29/03/2009 | 07:01


O olhar sereno, a fala pausada e os gestos comedidos escondem a exuberância criativa do pintor e escultor Moisés Patrício, 24 anos, que conseguiu transpor os obstáculos erguidos pelo preconceito étnico e a pobreza, com sensibilidade e traços marcantes. O Diário acompanha a carreira do artista desde 2003, quando ele já driblava as limitações financeiras usando pincéis improvisados feitos com escovas de dentes e palitos.

À época, suas produções apresentavam relação com o Expressionismo, movimento criado na Alemanha, no início do século 20, e caracterizado pela predominância dos valores emocionais sobre os intelectuais. Nas telas, as figuras são deformadas, para que sejam ressaltados os sentimentos. Atualmente, o rapaz identifica-se com a arte contemporânea.

Morador da Vila Industrial, bairro periférico situado na divisa entre Santo André e São Paulo, produziu o documentário Simplesmente Moisés, em que remonta sua trajetória apenas com imagens de obras e depoimentos concedidos por figuras importantes das artes visuais e da literatura.

O vídeo, com duração de 25 minutos, não é comercializado. Os interessados em adquiri-lo devem entrar em contato com o realizador (www.moisespatricio.nafoto.net). "Primeiro, consegui o apoio do Fundo de Cultura de Santo André. Depois, fui atrás da produtora DGT Filmes, onde tive aulas de edição de vídeos durante o ano passado. Entrevistei pessoas que fazem parte da minha formação e da minha história", explica Moisés.

Depoimentos - Um dos entrevistados do documentário é o pintor argentino radicado no Brasil, Juan Jose Balzi, professor do projeto Meninos de Arte, promovido para adolescentes de baixa renda de Santo André entre 1998 e 2003. Segundo o portenho, além de ter "muita intuição e talento", o ex-aluno é capaz de criar imagens fantásticas. Algumas dessas criações são mostradas no vídeo, entre elas monotipias e intervenções em muros e prédios andreenses.

O ilustrador Odilon Moraes ressalta que o jovem coloca o talento em primeiro plano sem adotar um discurso de vítima baseado na origem humilde. Perguntado sobre os obstáculos que superou, Moisés, filho de um ex-metalúrgico e de uma revendedora de cosméticos, responde com a simplicidade de quem conquistou seu espaço com garra, sorriso no rosto e autoestima. "Acho isso muito comum: não conseguem olhar meu trabalho, antes de olharem meu rostinho bonito", diz, em tom irônico.

Oficina - Moisés ministra aulas de vídeo e toy art (transformação de brinquedos em objetos artísticos) no projeto Dialéticas Sensoriais, idealizado por ele e desenvolvido na Casa do Hip Hop, em Diadema. Premiada pela Funarte (Fundação Nacional das Artes), a iniciativa atende a 12 jovens carentes e conta com outros quatro professores, além de um psicóloga. "Eu me vejo muito nos meus alunos. Eles têm a mesma carência e a necessidade de expressão que eu sempre tive", define.

Opiniões
"Falar das pinturas de Moisés é muito peculiar; mesmo não tendo condições apropriadas vai lá e faz pinturas singulares, que realmente expressam com muito desejo e resistência um cotidiano real, que muitas vezes é ignorado."
Alexis Iglesias (artista plástico)

"O caminho é longo para este jovem artista, porém uma coisa é certa: Moisés já tem uma pintura muito marcante"
Bruno Giovanetti (fotógrafo)

"Trabalho que converse com a transparência e a simplicidade como as imagens do Moisés é difícil; qualidade de pensamento assim não se encontra diariamente no mundo das artes."
Celso Gitahy (artista plástico e grafiteiro)

"Moisés tem muito talento, muita intuição, muita percepção, e cria imagens fantásticas. Mesmo que não saiba desenhar uma mão ou um corpo, consegue expressar sentimentos e sensações"
Juan José Balzi (artista plástico)

"Em nenhum momento o Moisés poderá ser acusado de ter desviado a questão da pintura. A arte não é de uma classe social, ela é do homem, seja de qualquer lugar."
Odilon Moraes (ilustrador)

"A importância das pinturas de Moisés é a mesma importância do microcosmo no macrouniverso."
Carlos Lotto (poeta)



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