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Nova vida para joias do ‘coração’ do Ipiranga

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Programa de fomento artístico de banco dos EUA foi o que ajudou o museu a recuperar quadros



24/07/2021 | 23:59


Oficialmente é Salão Nobre ou Salão de Honra. Mas, para os 250 mil visitantes que todos os anos realizavam o percurso interno do Museu Paulista da Universidade de São Paulo, mais conhecido como Museu do Ipiranga, o imponente ambiente de 182 m² e mais de 10 metros de pé-direito, acessado pela escadaria monumental do edifício, sempre foi o coração do passeio.


No percurso expositivo planejado pelo historiador Afonso d’Escragnolle Taunay (1876-1958) um século atrás para celebrar o primeiro centenário da Independência, em 1922, coube a esse salão a exibição de dez telas importantíssimas para a própria criação do imaginário nacional – entre elas, Independência ou Morte, obra de 4,15 por 7,6 metros, pintada em 1888 por Pedro Américo (1843-1905) e que se tornaria a maior tela em exposição permanente em um museu de São Paulo.


Era de se esperar que esse espaço e suas obras merecessem um cuidado especial durante as obras de restauração e ampliação do edifício-sede do Ipiranga, em andamento desde outubro de 2019. O museu está fechado desde 2013, quando foi interditado às pressas por segurança. A previsão de reinauguração está mantida para 2022, no bicentenário da Independência.


Mas havia um problema: falta de caixa. “O Museu Paulista tem uma grande quantidade de obras que precisariam ser restauradas para a reabertura das exposições”, conta a arquiteta Rosaria Ono, diretora da instituição. “São 43 no total (incluídas as dez do Salão Nobre), com um custo aproximado de R$ 1,3 milhão.”


“No entanto, sua concretização dependia de verbas para a realização. O museu tinha, em seu orçamento, cerca de 20% do valor garantido.” Veio a ajuda, por meio de um programa de fomento artístico do Bank of America, dos Estados Unidos.


Dez meses de trabalho. O valor total investido pela instituição bancária não é divulgado, mas, conforme Ono, “o restauro de nove será contemplado pela doação do Bank of America, assim como a aplicação do verniz final do quadro Independência ou Morte” – a tela já vinha sendo recuperada, mas a conclusão do trabalho sofreu atrasos em decorrência da pandemia de Covid-19. “Todos esses quadros compõem o Salão Nobre, o espaço mais visitado do museu antes do fechamento”, ressalta a diretora.


Responsável pela área de meio ambiente, social e de governança do banco na América Latina, o executivo Thiago Fernandes diz que “fazia tempo” que a instituição vislumbrava apoiar o Museu do Ipiranga. “Além de representar uma documentação visual de importantes momentos históricos, seu acervo nos propicia refletir e admirar, nos conectar a nós mesmos e vivenciar emocionalmente acontecimentos passados”, destaca. “Quem quiser entender a construção da Nação brasileira independente tem de passar pelo Museu do Ipiranga.”


Há a previsão ainda da produção de um livro com os bastidores do restauro e a história dessas obras. O início deve ocorrer ainda em julho, e o cronograma prevê que as telas estejam prontas em maio do ano que vem. Independência ou Morte, cujas dimensões não permitem retirada segura do ambiente, teve o trabalho de restauro – e agora terá a finalização – feito no próprio salão.


“A obra permaneceu na parede em que foi instalada desde 1895. Ela está protegida por uma estrutura metálica e vedações erguidas antes do início das obras de restauro arquitetônico do edifício e do salão”, conta o historiador Paulo César Garcez Marins, pesquisador do Museu do Ipiranga.


Segundo ele, a última vez que esses trabalhos foram restaurados foi nas décadas de 1960 e 1970. “Nove das pinturas ficaram exibidas nesse salão ao longo de quase um século, sendo que Independência ou Morte está ali há cerca de 125 anos – e foi restaurada em 1972”, conta.


Quadros criaram o imaginário nacional

O conjunto de obras do Salão Nobre do Museu do Ipiranga foi pensado para exaltar a história do País. À exceção de Independência ou Morte, obra de Pedro Américo (1843-1905) já instalada no cômodo no centenário, todas foram encomendadas aos artistas Oscar Pereira da Silva (1867-1939) e Domenico Failutti (1872-1923).


“Juntas, essas telas formam um dos mais importantes conjuntos de pinturas de história do País e certamente o mais destacado sobre representações de episódios e personagens da Independência”, explica o historiador Paulo César Garcez Marins, pesquisador do museu. “São muito conhecidas pelos brasileiros, pois ilustram centenas de livros didáticos do País desde o início do século XX, assim como cédulas, moedas, medalhas e objetos decorativos.”


“A estrela é certamente Independência ou Morte. É a mais conhecida representação da Independência entre nós. Foi custeada pelo governo imperial e inaugurada em Florença na presença do imperador Pedro II e da rainha Vitória da Inglaterra. Antes do museu, viajou até Chicago, onde foi exibida na Exposição Internacional de 1893. Sua realização e exibição no museu a partir de 1895 garantiram a São Paulo e ao Ipiranga uma imagem que associa diretamente a Independência à cidade, embora as negociações políticas no Rio de Janeiro e as batalhas na Bahia e no Norte tenham sido decisivas para a consolidação da separação política entre Brasil e Portugal.”


“A pintura foi reproduzida ou reinterpretada inúmeras vezes, incluindo no filme homônimo de Carlos Coimbra, que tentou reproduzir a cena do quadro em torno de Tarcísio Meira, como Pedro I, e até em revistas da Turma da Mônica.”  



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