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Questão nacional


Alessandro Soares
Do Diário do Grande ABC

12/02/2006 | 08:15


Quem diria que uma análise histórica sobre a formação de povos distintos e diferentes etnias na Europa no período da Alta Idade Média teria caráter de alerta sobre acontecimentos atuais. O historiador Patrick Geary, da UCLA (Universidade da Califórnia Los Angeles), não fez nem questão de embutir suas reflexões nas entrelinhas de O Mito das Nações – A Invenção do Nacionalismo (Conrad, 224 págs., R$ 34), traduzido por Fábio Pinto. Geary joga luz sobre o tenebroso retorno de nacionalismo, etnocentrismo e racismo, conceitos que se pensavam mortos e enterrados nos últimos 50 anos, mas que sinalizam força vital ainda. O palco desse renascimento pouco iluminado é a Europa, uma colcha de várias etnias onde o nacionalismo é fortemente chamado à baila como argumento para proteção de culturas locais.

  

O grito europeu pela auto-preservação da nacionalidade de cidadãos nascidos e criados dentro do continente em detrimento a imigrantes de etnias não estabelecidas pela história local ecoa com a ascensão de grupos radicais – neonazistas alemães, por exemplo, ou extremistas franceses de direita liderados por Jean Marie Le Pen. Ecoa inclusive na reivindicação dos russos sobre a soberania de países outrora satélites do império soviético, mas principalmente, sobre as levas de imigrantes do Norte da África, árabes por etnia e muçulmanos por religião.

  

Qualquer ação contra esses novos europeus tem um ressonar diferente do que se ouviria décadas antes. O episódio da publicação de caricaturas do profeta Maomé – proibidas pelo islã para evitar idolatria – por jornais europeus desencadeou a onda de protestos de grupos radicais muçulmanos no Oriente Médio, que atinge a Comunidade Européia e está causando mortes. A resposta árabe, convocar um concurso internacional de charges sobre o holocausto judeu na Segunda Guerra Mundial, e fazer publicações de caricaturas que ridicularizam Israel tende a acirrar ânimos.

  

Na origem dessas contendas, está o uso de termos como etnia, raça, povo, como se fossem imutáveis. Nem na Antigüidade Clássica, que tinha seus bárbaros e gentios dependendo do ponto de vista de quem olhava para quem, esses conceitos tinham valor absoluto.

  

Geary reflete sobre a relação entre os povos europeus que se organizaram em territórios com a desintegração do Império Romano na Europa (século V depois de Cristo) e a formação do nacionalismo contemporâneo, um produto do cientificismo do século XIX. Os exemplos de uso da língua como padrão de unidade nacional e de constituição de nação foram os estados alemães e os ducados italianos, que formaram as hoje modernas Alemanha e Itália, mas até o século XIX eram independentes entre si – e até inimigos, já que a atual fronteira não existia, mas a língua era comum.

  

O exemplo maior de unificação, a Comunidade Européia iniciada em 1992, esbarra em barreiras culturais e locais de difícil assimilação – a Inglaterra relutou em entrar, Grécia não fez parte na primeira formação e estados da Europa Oriental tinha status irrelevante. Fundada em bases meramente econômicas e financeiras, relevou a formação dos povos.

  

Geary demonstra como toda a história de um país, seus heróis e seus mitos podem ser criados por historiadores, filólogos, etnólogos e arqueólogos a serviço de elites ou de projetos de poder que procuram no passado raízes para justificar a existência geográfica e cultural de um povo – uma lógica que permite que os bascos queiram se separar da Espanha, que os sérvios reivindiquem regiões da Bósnia habitadas por muçulmanos, mas “historicamente” sérvias, e que palestinos queiram territórios de Israel.

  

Esse abuso do uso da história na criação de etnicidades esbarra, segundo o autor, em tentativas vãs, porque a etnicidade estaria na mente das pessoas. Lugar que torna conceitos de raça, nação e religião, por exemplo, mais fortes em função do livre-arbítrio e invulneráveis a argumentos racionais.


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Questão nacional

Alessandro Soares
Do Diário do Grande ABC

12/02/2006 | 08:15


Quem diria que uma análise histórica sobre a formação de povos distintos e diferentes etnias na Europa no período da Alta Idade Média teria caráter de alerta sobre acontecimentos atuais. O historiador Patrick Geary, da UCLA (Universidade da Califórnia Los Angeles), não fez nem questão de embutir suas reflexões nas entrelinhas de O Mito das Nações – A Invenção do Nacionalismo (Conrad, 224 págs., R$ 34), traduzido por Fábio Pinto. Geary joga luz sobre o tenebroso retorno de nacionalismo, etnocentrismo e racismo, conceitos que se pensavam mortos e enterrados nos últimos 50 anos, mas que sinalizam força vital ainda. O palco desse renascimento pouco iluminado é a Europa, uma colcha de várias etnias onde o nacionalismo é fortemente chamado à baila como argumento para proteção de culturas locais.

  

O grito europeu pela auto-preservação da nacionalidade de cidadãos nascidos e criados dentro do continente em detrimento a imigrantes de etnias não estabelecidas pela história local ecoa com a ascensão de grupos radicais – neonazistas alemães, por exemplo, ou extremistas franceses de direita liderados por Jean Marie Le Pen. Ecoa inclusive na reivindicação dos russos sobre a soberania de países outrora satélites do império soviético, mas principalmente, sobre as levas de imigrantes do Norte da África, árabes por etnia e muçulmanos por religião.

  

Qualquer ação contra esses novos europeus tem um ressonar diferente do que se ouviria décadas antes. O episódio da publicação de caricaturas do profeta Maomé – proibidas pelo islã para evitar idolatria – por jornais europeus desencadeou a onda de protestos de grupos radicais muçulmanos no Oriente Médio, que atinge a Comunidade Européia e está causando mortes. A resposta árabe, convocar um concurso internacional de charges sobre o holocausto judeu na Segunda Guerra Mundial, e fazer publicações de caricaturas que ridicularizam Israel tende a acirrar ânimos.

  

Na origem dessas contendas, está o uso de termos como etnia, raça, povo, como se fossem imutáveis. Nem na Antigüidade Clássica, que tinha seus bárbaros e gentios dependendo do ponto de vista de quem olhava para quem, esses conceitos tinham valor absoluto.

  

Geary reflete sobre a relação entre os povos europeus que se organizaram em territórios com a desintegração do Império Romano na Europa (século V depois de Cristo) e a formação do nacionalismo contemporâneo, um produto do cientificismo do século XIX. Os exemplos de uso da língua como padrão de unidade nacional e de constituição de nação foram os estados alemães e os ducados italianos, que formaram as hoje modernas Alemanha e Itália, mas até o século XIX eram independentes entre si – e até inimigos, já que a atual fronteira não existia, mas a língua era comum.

  

O exemplo maior de unificação, a Comunidade Européia iniciada em 1992, esbarra em barreiras culturais e locais de difícil assimilação – a Inglaterra relutou em entrar, Grécia não fez parte na primeira formação e estados da Europa Oriental tinha status irrelevante. Fundada em bases meramente econômicas e financeiras, relevou a formação dos povos.

  

Geary demonstra como toda a história de um país, seus heróis e seus mitos podem ser criados por historiadores, filólogos, etnólogos e arqueólogos a serviço de elites ou de projetos de poder que procuram no passado raízes para justificar a existência geográfica e cultural de um povo – uma lógica que permite que os bascos queiram se separar da Espanha, que os sérvios reivindiquem regiões da Bósnia habitadas por muçulmanos, mas “historicamente” sérvias, e que palestinos queiram territórios de Israel.

  

Esse abuso do uso da história na criação de etnicidades esbarra, segundo o autor, em tentativas vãs, porque a etnicidade estaria na mente das pessoas. Lugar que torna conceitos de raça, nação e religião, por exemplo, mais fortes em função do livre-arbítrio e invulneráveis a argumentos racionais.

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