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Herdeiros da emancipação mantêm raízes em S.Bernardo

Nario Barbosa/DGABC Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra

Descendentes de líderes de movimento que separou cidade de Santo André continuam no município 70 anos depois


Gustavo Pinchiaro
Do Diário do Grande ABC

30/11/2014 | 07:00


A rivalidade entre andreenses e são-bernardenses que dividiu o Grande ABC completa hoje 70 anos. O movimento liderado por Wallace Simonsen para dar a emancipação político-administrativa a São Bernardo venceu a resistência da vizinha Santo André em 30 de novembro de 1944. As sete décadas, recheadas de drásticas variáveis econômicas e sociais que atingiram a cidade, no entanto, não afastaram familiares dos líderes autonomistas, que ainda mantêm raízes fincadas no município.

Descendentes de Bortolo Basso, Francisco Miele, João Corazza, Pery Ronchetti e Gabriel Nicolau, que lutaram ao lado de Wallace Simonsen, Armando Setti e Plínio Ghirardello pela independência de São Bernardo, lembraram com saudosismo dos impactos da emancipação. O efeito transformou o município que era, de fato, como pequena cidade do interior paulista, “calma”, “tranquila” e pouco povoada em polo industrial automobilístico. Em 70 anos, aumentou significativamente o número de habitantes para os atuais 811.489 são-bernardenses.

Filha de Basso, Roni Bernardina Basso Fabri nasceu em 20 de agosto de 1938 e recebeu o segundo nome em homenagem à cidade natal, já que veio ao mundo na data em que se comemora o aniversário do município. Além de compor o rol de emancipadores, seu pai trabalhou com Simonsen – o primeiro prefeito são-bernardense – e foi vice de Lauro Gomes.

“Eu me lembro das histórias que meu pai contava de quando ele trabalhou com o Simonsen. Recordo que ele trouxe o Lauro Gomes para São Bernardo, que era cidade muito calma, tranquila. Antes, a gente passeava pela Rua Marechal (Deodoro), (Rua) Américo Brasiliense, tínhamos os namoradinhos”, contou Roni.

Neta de Bortolo Basso e filha de Roni, Rivana Basso Fabri Marino é vice-reitora de extensão e atividades comunitárias da FEI (Fundação Educacional Inaciana). “Moro em São Paulo, porque toda minha família trabalha lá. Estou aqui de segunda a sexta e nos fins de semana venho para casa da minha mãe. Mas acredito que, de outra forma, em outra área e outro momento, continuo contribuindo com a cidade, assim como fez o meu avô.”

Sobrinhos de Pery Ronchetti, Vicente D’Angelo e Ana Maria do Carmo Ronchetti também mantêm residência em São Bernardo. Vicente é um estudioso das famílias de imigrantes italianos que vieram para São Bernardo e apaixonado pela cidade. “Lembro da Rua Marechal quando ainda era de terra, quando o Ítalo Setti criou a primeira fábrica de tecelagem. Na casa do tio Pery tinha até jacaré que ele trouxe de Itapetininga”, detalhou Vicente. “Era muito criança quando tivemos a emancipação, mas lembro que a cidade começou a crescer, porque antes Santo André nos prendia muito. Não imaginava que a cidade cresceria tanto”, contou Ana, que trabalhou a vida toda como professora e diretora de escolas na cidade e atualmente está na Secretaria de Educação.

Bisnetos de João Corazza, Edson Júnior e Beatriz continuam na cidade atuando no ramo imobiliário e não pensam em trocar de endereço. “É motivo de orgulho carregar esse legado. A emancipação criou uma economia própria para a cidade”, disse Edson.

Filha de Francisco Miele, Ieda Miele Monteiro reside em São Bernardo desde que nasceu.

Ação colheu os louros da Via Anchieta

A construção da Via Anchieta e a emancipação político-administrativa de São Bernardo têm forte ligação. A rodovia, que traria consigo o progresso oferecendo infraestrutura para alavancar o crescimento econômico do município, foi inaugurada por completo em 1953, dez anos depois que Wallace Simonsen criou a Associação Amigos de São Bernardo, entidade que serviu de base para o movimento dos autonomistas do ano seguinte.

A disputa política com a vila de Santo André se intensificou em 1938, quando o município que compreendia todo o futuro Grande ABC deixou de se chamar São Bernardo para se tornar Santo André, por meio de decreto do governador Adhemar de Barros.

“Os empresários de Santo André tinham mais influência política, antes de mudarem o nome já haviam transferido a sede da Prefeitura para lá, que estava mais próxima da linha do trem”, explicou o sociólogo e chefe de Pesquisa e Documentação do Acervo de Memória são-bernardense, Jorge Mogyar.

Foi então que os autonomistas encontraram em Wallace Simonsen liderança com peso político para conseguirem se desgarrar de Santo André. “O Simonsen era dono do Banco Noroeste, chegou a trazer o então presidente Getúlio Vargas, tinha influência”, relembrou Mogyar. A partir daí o crescimento foi acentuado e o parque industrial passou a receber as montadoras.


Autonomia local é pouco comemorada

Apesar da importância para o crescimento de São Bernardo, a emancipação político-administrativa está fora do calendário festivo e apagada entre a população. A única comemoração ocorrida este ano foi sessão solene na Câmara, aprovada às pressas pelos vereadores, que homenageou os descendentes dos emancipadores, a única referência à conquista nos últimos dez anos.

O feito que trouxe independência administrativa tinha grande importância para a população no passado, mas veio perdendo força ao longo dos anos. O sociólogo e chefe de Pesquisas e Documentação do Acervo de Memória de São Bernardo, Jorge Mogyar, lembrou que a emancipação costumava ser comemorada de forma simples, ao lado do busto de Wallace Simonsen na Praça Lauro Gomes, no Centro.

“Sempre foi ato protocolar, nada muito grande. A comemoração do aniversário da cidade, em 20 de agosto, acaba ofuscando a comemoração (da emancipação), porque as festas se concentram naquela data”, argumentou Jorge Mogyar.

Os representantes de familiares daquele movimento que estiveram na sessão solene disseram ter se surpreendido com o chamado para o ato. “Fiquei muito feliz e não esperava que teria tanta gente. Foi difícil falar lá na tribuna, tremi, mas busquei forças pelo pai, que fez tanto pela cidade”, disse Roni Bernardina Basso Fabri. “Fiz questão de vir representar meu bisavô. É data importante para a cidade, não pode ficar apagada, deveria ter mais lembranças”, cobrou Edson Corazza Júnior.



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Herdeiros da emancipação mantêm raízes em S.Bernardo

Descendentes de líderes de movimento que separou cidade de Santo André continuam no município 70 anos depois

Gustavo Pinchiaro
Do Diário do Grande ABC

30/11/2014 | 07:00


A rivalidade entre andreenses e são-bernardenses que dividiu o Grande ABC completa hoje 70 anos. O movimento liderado por Wallace Simonsen para dar a emancipação político-administrativa a São Bernardo venceu a resistência da vizinha Santo André em 30 de novembro de 1944. As sete décadas, recheadas de drásticas variáveis econômicas e sociais que atingiram a cidade, no entanto, não afastaram familiares dos líderes autonomistas, que ainda mantêm raízes fincadas no município.

Descendentes de Bortolo Basso, Francisco Miele, João Corazza, Pery Ronchetti e Gabriel Nicolau, que lutaram ao lado de Wallace Simonsen, Armando Setti e Plínio Ghirardello pela independência de São Bernardo, lembraram com saudosismo dos impactos da emancipação. O efeito transformou o município que era, de fato, como pequena cidade do interior paulista, “calma”, “tranquila” e pouco povoada em polo industrial automobilístico. Em 70 anos, aumentou significativamente o número de habitantes para os atuais 811.489 são-bernardenses.

Filha de Basso, Roni Bernardina Basso Fabri nasceu em 20 de agosto de 1938 e recebeu o segundo nome em homenagem à cidade natal, já que veio ao mundo na data em que se comemora o aniversário do município. Além de compor o rol de emancipadores, seu pai trabalhou com Simonsen – o primeiro prefeito são-bernardense – e foi vice de Lauro Gomes.

“Eu me lembro das histórias que meu pai contava de quando ele trabalhou com o Simonsen. Recordo que ele trouxe o Lauro Gomes para São Bernardo, que era cidade muito calma, tranquila. Antes, a gente passeava pela Rua Marechal (Deodoro), (Rua) Américo Brasiliense, tínhamos os namoradinhos”, contou Roni.

Neta de Bortolo Basso e filha de Roni, Rivana Basso Fabri Marino é vice-reitora de extensão e atividades comunitárias da FEI (Fundação Educacional Inaciana). “Moro em São Paulo, porque toda minha família trabalha lá. Estou aqui de segunda a sexta e nos fins de semana venho para casa da minha mãe. Mas acredito que, de outra forma, em outra área e outro momento, continuo contribuindo com a cidade, assim como fez o meu avô.”

Sobrinhos de Pery Ronchetti, Vicente D’Angelo e Ana Maria do Carmo Ronchetti também mantêm residência em São Bernardo. Vicente é um estudioso das famílias de imigrantes italianos que vieram para São Bernardo e apaixonado pela cidade. “Lembro da Rua Marechal quando ainda era de terra, quando o Ítalo Setti criou a primeira fábrica de tecelagem. Na casa do tio Pery tinha até jacaré que ele trouxe de Itapetininga”, detalhou Vicente. “Era muito criança quando tivemos a emancipação, mas lembro que a cidade começou a crescer, porque antes Santo André nos prendia muito. Não imaginava que a cidade cresceria tanto”, contou Ana, que trabalhou a vida toda como professora e diretora de escolas na cidade e atualmente está na Secretaria de Educação.

Bisnetos de João Corazza, Edson Júnior e Beatriz continuam na cidade atuando no ramo imobiliário e não pensam em trocar de endereço. “É motivo de orgulho carregar esse legado. A emancipação criou uma economia própria para a cidade”, disse Edson.

Filha de Francisco Miele, Ieda Miele Monteiro reside em São Bernardo desde que nasceu.

Ação colheu os louros da Via Anchieta

A construção da Via Anchieta e a emancipação político-administrativa de São Bernardo têm forte ligação. A rodovia, que traria consigo o progresso oferecendo infraestrutura para alavancar o crescimento econômico do município, foi inaugurada por completo em 1953, dez anos depois que Wallace Simonsen criou a Associação Amigos de São Bernardo, entidade que serviu de base para o movimento dos autonomistas do ano seguinte.

A disputa política com a vila de Santo André se intensificou em 1938, quando o município que compreendia todo o futuro Grande ABC deixou de se chamar São Bernardo para se tornar Santo André, por meio de decreto do governador Adhemar de Barros.

“Os empresários de Santo André tinham mais influência política, antes de mudarem o nome já haviam transferido a sede da Prefeitura para lá, que estava mais próxima da linha do trem”, explicou o sociólogo e chefe de Pesquisa e Documentação do Acervo de Memória são-bernardense, Jorge Mogyar.

Foi então que os autonomistas encontraram em Wallace Simonsen liderança com peso político para conseguirem se desgarrar de Santo André. “O Simonsen era dono do Banco Noroeste, chegou a trazer o então presidente Getúlio Vargas, tinha influência”, relembrou Mogyar. A partir daí o crescimento foi acentuado e o parque industrial passou a receber as montadoras.


Autonomia local é pouco comemorada

Apesar da importância para o crescimento de São Bernardo, a emancipação político-administrativa está fora do calendário festivo e apagada entre a população. A única comemoração ocorrida este ano foi sessão solene na Câmara, aprovada às pressas pelos vereadores, que homenageou os descendentes dos emancipadores, a única referência à conquista nos últimos dez anos.

O feito que trouxe independência administrativa tinha grande importância para a população no passado, mas veio perdendo força ao longo dos anos. O sociólogo e chefe de Pesquisas e Documentação do Acervo de Memória de São Bernardo, Jorge Mogyar, lembrou que a emancipação costumava ser comemorada de forma simples, ao lado do busto de Wallace Simonsen na Praça Lauro Gomes, no Centro.

“Sempre foi ato protocolar, nada muito grande. A comemoração do aniversário da cidade, em 20 de agosto, acaba ofuscando a comemoração (da emancipação), porque as festas se concentram naquela data”, argumentou Jorge Mogyar.

Os representantes de familiares daquele movimento que estiveram na sessão solene disseram ter se surpreendido com o chamado para o ato. “Fiquei muito feliz e não esperava que teria tanta gente. Foi difícil falar lá na tribuna, tremi, mas busquei forças pelo pai, que fez tanto pela cidade”, disse Roni Bernardina Basso Fabri. “Fiz questão de vir representar meu bisavô. É data importante para a cidade, não pode ficar apagada, deveria ter mais lembranças”, cobrou Edson Corazza Júnior.

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