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Claudio Magris fala do segredo e seus dilemas em conto da 'Serrote'
08/12/2018 | 07:00
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Claudio Magris está preocupado. Clássico intelectual europeu humanista (ele nasceu em Trieste, na Itália, em 1939, e se tornou um dos principais nomes do pensamento ocidental ao erigir nos últimos 50 anos uma obra ensaística e ficcional aclamada), ele agora testemunha com os próprios olhos desdobramentos políticos no mundo que considerava impossíveis (o Brexit, por exemplo). "Sinto-me também um pouco culpado porque, como tantos de nós, me comportei como um cego diante do nascimento, da gênese e dos primeiros desdobramentos deste perigo que ameaça a Europa e o mundo. Jamais imaginei que chegaria a ver, na minha idade avançada, tamanho retrocesso", diz ao jornal O Estado de S. Paulo, por e-mail.

"Muitas vezes somos, não politicamente, mas psicologicamente, cegos conservadores, incapazes de compreender que as coisas, do modo como estamos acostumados a vivenciá-las e a vê-las, possam mudar radicalmente. Se no final de outubro de 1989, alguém afirmasse que o muro de Berlim iria cair, seria considerado mentalmente perturbado."

Um ensaio do escritor é um dos textos da serrote #30, edição que comemora os 10 anos da revista editada pelo Instituto Moreira Salles. Em O Segredo e Seu Contrário, o italiano investiga as possibilidades e consequências do "segredo" em diferentes tipos de relação: dos jogos infantis ao poder político e religioso.

Ao recuperar uma linhagem de mistérios tanto de origem ocidental quanto oriental, ele afirma que comum a todos é a "hierarquia da iniciação", ou seja, passa a ser fundamental exatamente quem tem acesso a eles.

O problema é como a laicização e secularização da sociedade transformaram essa hierarquia, antes de sacerdotes e leigos, "em divisão - bem mais radical, cruel e insensata - entre homens superiores e inferiores, entre quem é digno do espírito e quem, ao contrário, é considerado apenas matéria, entre quem é destinado a priori a comandar e guiar e quem é destinado a servir", escreve.

Ele então analisa como custódia e violação dos segredos passa a ser exercício de poder. A serrote #30 ainda traz outros textos inéditos: Philip Roth imagina se Kafka tivesse se mudado para os EUA e se tornado seu professor de ensino médio; Daniel Salgado investiga como fóruns sobre games na web criaram um ambiente propício a um autoritarismo misógino na discussão online do País; Henry Louis Gates Jr. conta a história incrível do crítico literário Anatole Broyard.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.




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