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Piscinões são ‘buracos de esgoto’


Illenia Negrin e
Roberta Nomura
Especial para o Diário

18/05/2005 | 07:41


O lazer nos piscinões deveria ser proibido porque os reservatórios não passam de “buracos de esgoto”. A opinião é do urbanista e arquiteto Gilson Lamera, pesquisador da Fundação Santo André, e endossada por especialistas em saúde, engenharia e urbanismo. Todos defendem a interdição dos piscinões mesmo em épocas de estiagem, quando a água acumulada das chuvas é bombeada de volta para os rios. A limpeza regular da área é inútil para livrar o solo da contaminação, e quem freqüenta as quadras e campos de futebol improvisados no chão de terra batida coloca a saúde em risco.

“O projeto inicial de todos os reservatórios previa áreas de lazer. Mas não passa de uma idéia longínqua, que não tem nada de realidade prática. Porque para mantê-las de maneira adequada ao uso freqüente de pessoas, as prefeituras teriam de gastar muito em tratamento. E os custos não são compatíveis com a capacidade financeira dos municípios”, analisa o urbanista da Fundação, Lamera.

Três piscinões do Grande ABC que oferecem área recreativa estão totalmente abandonados. A vizinhança dos reservatórios do Paço Municipal e do Jardim Sônia Maria, em Mauá, além do Grã-Bretanha, em Santo André, não viram máquinas nem homens trabalhando neste ano. Lamera garante que mesmo se o mato for cortado, o lixo e o entulho recolhidos e a área dedetizada, ainda assim os reservatórios seriam impróprios para lazer. “A gente imagina que só a água contaminada pelo esgoto é problema no piscinão. Mas a chuva carrega também uma infinidade de compostos orgânicos e inorgânicos bastante agressivos. O piscinão é uma espécie de pulmão de toda essa carga química nociva.”

O médico infectologista Munir Akar Ayub, professor de Moléstias Infecciosas da Faculdade de Medicina do ABC, também defende a proibição total do acesso aos piscinões. Ele explica que o aspecto aparentemente inofensivo dos campinhos de futebol dentro dos reservatórios escondem uma lista de doenças perigosas (veja quadro ao lado). “Não é como aquelas quadras improvisadas em terrenos baldios. O reservatório tem um grau de contaminação altíssimo. Para resumir: um filho meu jamais entraria numa área de piscinão para jogar bola.”

Até uma das responsáveis pela limpeza de piscinões admite que o processo é insuficiente para livrar jovens e adolescentes dos riscos à saúde. A gerente de Drenagem do Semasa (Serviço Ambiental de Saneamento Municipal de Santo André), Angélica Ferrini, afirma que, definitivamente, o uso para recreação é desaconselhável. Ela considera que na cidade, dos quatro reservatórios, apenas o da Vila América poderia oferecer áreas de lazer, por possuir a cobertura de laje de concreto. “Esse oferece melhores condições de manutenção porque dá para lavar. Mas ali não tem espaço físico.”

O Semasa já pediu ao Departamento de Esportes e Turismo da Prefeitura de Santo André que retire as traves de futebol do piscinão Grã-Bretanha, no bairro Príncipe de Gales, para que a área não seja mais usada para a prática esportiva. Depois das denúncias de falta de manutenção publicadas pelo Diário, duas retroescavadeiras e dois caminhões permaneceram no local das 8h às 16h de ontem, para retirar a lama e levar ao aterro sanitário.

O piscinão da Vila América, em Santo André, foi construído pelo Semasa e, na opinião do urbanista Gilson Lamera, é um exemplo que deveria ser copiado por outros da região. Ele explica que os projetos mais recentes de áreas de contenção de enchentes foram concebidos com laje, exatamente por esta ser a única solução para que o reservatório possa ser melhor aproveitado pela comunidade. Mas, na prática, nenhum foi inaugurado com a cobertura de concreto.

“Por isso, os piscinões acabaram se transformando nu-ma chaga urbana. São áreas enormes, que se transformaram numa barreira humana. Em regiões de periferia, que carecem de espaço lazer, a laje resolveria a problema e democratizaria o acesso. Do jeito que está, é um poço de sujeira.” Lamera cita como exemplo bem-sucedido de reservatório que também serve ao lazer o construído em São Paulo, no Pacaembu, debaixo do Estádio Paulo Machado de Carvalho.

O Daee (Departamento Estadual de Águas e Energia Elétrica), órgão do governo do Estado responsável pelos piscinões, mais uma vez não atendeu aos pedidos de entrevista da reportagem e ainda não respondeu se as áreas de lazer serão interditadas diante das evidências de riscos à saúde. O departamento também não rebateu as críticas da Prefeitura de Mauá, que alega não realizar a limpeza do piscinão do Jardim Sônia Maria por ainda não ter recebido do Estado o termo de responsabilidade pe-la manutenção do reservatório, inaugurado há um ano.

O jogo de empurra deve continuar entre Estado e Prefeitura nos próximos dias e o Sônia Maria, imundo, cheio de bichos peçonhentos, insetos e ratos, como reclamam os vizinhos do reservatório. Em nota divulgada pela assessoria de imprensa, a Prefeitura diz que a limpeza do piscinão do Paço Municipal “está agendada” para o próximo sábado, dia 21.


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