Fechar
Publicidade

Domingo, 26 de Janeiro

|

Max º Min º
Clima da Região Trânsito Assine Clube do Assinante Diário Virtual Login

Cultura & Lazer

cultura@dgabc.com.br | 4435-8364

Corpo de Wilson Simonal é enterrado em SP


Do Diário do Grande ABC

26/06/2000 | 10:59


O corpo do cantor Wilson Simonal, 62 anos, foi enterrado na manha desta segunda-feira, no Cemitério do Morumbi, em uma cerimônia acompanhada por cerca de 60 pessoas entre familiares e conhecidos. Os filhos de Simonal, a mulher e os cantores Silvio Brito e Jair Rodrigues estiveram presentes. Wilson Simoninha, um dos filhos do cantor, pediu aos presentes que nao esquecessem jamais o sorriso de seu pai e seu discurso foi encerrado com uma salva de palmas.

Simonal morreu domingo, no fim da manha, no Hospital Sírio Libanês, onde estava internado desde o dia 4 de abril, por causa de disfunçoes hepáticas crônicas. Os médicos consideraram pequenas as chances de sua recuperaçao. No entanto, o cantor conseguiu reagir e, 40 dias depois, recebeu alta. A causa da morte foi a falência do fígado.

Wilson Simonal de Castro foi um dos artistas mais populares do Brasil no fim dos anos 60 e início dos 70. Nasceu no dia 16 de fevereiro de 1939, em Agua Santa, subúrbio do Rio. Sua mae era lavadeira. O nome Simonal foi uma homenagem ao médico que a ajudava a manter a casa pobre: seu sobrenome era francês, Simonard. O tabeliao grafou Simonal.

Começou a cantar no fim dos anos 50. Ouvido por Sérgio Mendes, Luís Carlos Mièle e Ronaldo Bôscoli, foi levado por eles ao Beco das Garrafas, em 1961. Mas o inquieto cantor, de voz afinadíssima, aveludada, e dono de um balanço infernal, único, nunca ouvido antes nos palcos da zona sul carioca, nao ficaria preso às amarras formais da contida bossa nova. Simonal criaria seu próprio estilo - ainda que seu primeiro grande sucesso houvesse sido Balanço Zona Sul, samba de Tito Madi, um dos precursores da bossa.

Simonal uniu-se artisticamente ao pianista Luís Carlos Vinhas e viajou com o trio dele, o Bossa Três, pelo mundo. Lançou, em 1962, um disco formidável, A Nova Dimensao do Samba, que trazia a antítese dos postulados estéticos da bossa. Era um trabalho vigoroso, extrovertido e trazia, pioneiramente, a mistura do samba com a música pop negra norte-americana e intençoes jazzísticas.

Neste disco, Simonal gravou e tornou populares as músicas Nana, de Moacir Santos, e Lobo Bobo, de Carlos Lyra e Ronaldo Bôscoli. Eram interpretaçoes sofisticadas, obra de um grande, inovador intérprete.

No entanto, Wilson Simonal abandonaria, logo, a linha sofisticada apontada por esse trabalho. Em 1966, estava no comando do programa Show em Si Monal, da TV Record, e começava a estabelecer o feitio de seu sucesso popular, gravando Meu Limao, Meu Limoeiro, uma adaptaçao feita por seu amigo Carlos Imperial de uma cantiga tradicional norte-americana, e cortando as palavras do País Tropical, de Jorge Ben (antes de vira Ben Jor) - nao cantava "Moro num país tropical/ Abençoado por Deus...", mas "Mo... num pa tro pi" - e assim por diante.

A expressao "patropi" entrou na fala cotidiana. Era uma maneira simpática e debochada de referir-se ao Brasil sem liberdades do regime militar. Simonal nao era político. Tinha amigos na polícia e quando, em 1971, descobriu o desfalque em suas contas dado por um contador, em vez de processá-lo, chamou os amigos policiais ligados aos órgaos de repressao para que dessem uma liçao no desonesto.

A história veio a público e, no auge do sucesso, quando comandava platéias nos estádios e era o único músico negro brasileiro com status de grande estrela, começou seu exílio. Era impossível, nos anos 70, que alguém fosse ligado aos organismos de repressao.

Simonal foi banido - pelos artistas, pelas gravadoras, pelas emissoras de rádio e televisao. Até agora, 30 anos depois, vinha tentando provar que nao era a pior coisa que um artista poderia ser: colaborador da repressao política. Morreu sem conseguir voltar à tona.



Comentários

Atenção! Os comentários do site são via Facebook. Lembre-se de que o comentário é de inteira responsabilidade do autor e não expressa a opinião do jornal. Comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros poderão ser denunciados pelos usuários e sua conta poderá ser banida.

Corpo de Wilson Simonal é enterrado em SP

Do Diário do Grande ABC

26/06/2000 | 10:59


O corpo do cantor Wilson Simonal, 62 anos, foi enterrado na manha desta segunda-feira, no Cemitério do Morumbi, em uma cerimônia acompanhada por cerca de 60 pessoas entre familiares e conhecidos. Os filhos de Simonal, a mulher e os cantores Silvio Brito e Jair Rodrigues estiveram presentes. Wilson Simoninha, um dos filhos do cantor, pediu aos presentes que nao esquecessem jamais o sorriso de seu pai e seu discurso foi encerrado com uma salva de palmas.

Simonal morreu domingo, no fim da manha, no Hospital Sírio Libanês, onde estava internado desde o dia 4 de abril, por causa de disfunçoes hepáticas crônicas. Os médicos consideraram pequenas as chances de sua recuperaçao. No entanto, o cantor conseguiu reagir e, 40 dias depois, recebeu alta. A causa da morte foi a falência do fígado.

Wilson Simonal de Castro foi um dos artistas mais populares do Brasil no fim dos anos 60 e início dos 70. Nasceu no dia 16 de fevereiro de 1939, em Agua Santa, subúrbio do Rio. Sua mae era lavadeira. O nome Simonal foi uma homenagem ao médico que a ajudava a manter a casa pobre: seu sobrenome era francês, Simonard. O tabeliao grafou Simonal.

Começou a cantar no fim dos anos 50. Ouvido por Sérgio Mendes, Luís Carlos Mièle e Ronaldo Bôscoli, foi levado por eles ao Beco das Garrafas, em 1961. Mas o inquieto cantor, de voz afinadíssima, aveludada, e dono de um balanço infernal, único, nunca ouvido antes nos palcos da zona sul carioca, nao ficaria preso às amarras formais da contida bossa nova. Simonal criaria seu próprio estilo - ainda que seu primeiro grande sucesso houvesse sido Balanço Zona Sul, samba de Tito Madi, um dos precursores da bossa.

Simonal uniu-se artisticamente ao pianista Luís Carlos Vinhas e viajou com o trio dele, o Bossa Três, pelo mundo. Lançou, em 1962, um disco formidável, A Nova Dimensao do Samba, que trazia a antítese dos postulados estéticos da bossa. Era um trabalho vigoroso, extrovertido e trazia, pioneiramente, a mistura do samba com a música pop negra norte-americana e intençoes jazzísticas.

Neste disco, Simonal gravou e tornou populares as músicas Nana, de Moacir Santos, e Lobo Bobo, de Carlos Lyra e Ronaldo Bôscoli. Eram interpretaçoes sofisticadas, obra de um grande, inovador intérprete.

No entanto, Wilson Simonal abandonaria, logo, a linha sofisticada apontada por esse trabalho. Em 1966, estava no comando do programa Show em Si Monal, da TV Record, e começava a estabelecer o feitio de seu sucesso popular, gravando Meu Limao, Meu Limoeiro, uma adaptaçao feita por seu amigo Carlos Imperial de uma cantiga tradicional norte-americana, e cortando as palavras do País Tropical, de Jorge Ben (antes de vira Ben Jor) - nao cantava "Moro num país tropical/ Abençoado por Deus...", mas "Mo... num pa tro pi" - e assim por diante.

A expressao "patropi" entrou na fala cotidiana. Era uma maneira simpática e debochada de referir-se ao Brasil sem liberdades do regime militar. Simonal nao era político. Tinha amigos na polícia e quando, em 1971, descobriu o desfalque em suas contas dado por um contador, em vez de processá-lo, chamou os amigos policiais ligados aos órgaos de repressao para que dessem uma liçao no desonesto.

A história veio a público e, no auge do sucesso, quando comandava platéias nos estádios e era o único músico negro brasileiro com status de grande estrela, começou seu exílio. Era impossível, nos anos 70, que alguém fosse ligado aos organismos de repressao.

Simonal foi banido - pelos artistas, pelas gravadoras, pelas emissoras de rádio e televisao. Até agora, 30 anos depois, vinha tentando provar que nao era a pior coisa que um artista poderia ser: colaborador da repressao política. Morreu sem conseguir voltar à tona.

Ao acessar você concorda com a nossa Política de Privacidade.


Para continuar, faça o seu login:


  • Aceito receber novidades e ofertas do Diário do Grande ABC e parceiros por
    correio eletrônico, mala direta, SMS ou outros meios de comunicação.


Ou acesse todo o conteúdo de forma ilimitada:

Veja como ter acesso a todo o conteúdo de forma ilimitada:

Copyright © 1995-2017 - Todos direitos reservados

;