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Lara planeja usina de incineração de lixo

Projeto de R$ 900 milhões em área de Mauá está sob análise da Cetesb; em 12 de dezembro será realizada audiência pública sobre o tema

Aline Melo
Do Diário do Grande ABC
03/12/2019 | 07:00
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Denis Maciel/DGABC


A empresa Lara Central de Tratamento de Resíduos Ltda planeja construir, em Mauá, uma URE (Unidade de Recuperação Energética), que vai queimar o lixo recolhido nas oito cidades onde a empresa atua (Diadema, Ferraz de Vasconcelos, Itanhaém, Juquiá, Ribeirão Pires, Rio Grande da Serra, São Bernardo e São Caetano) para geração de energia.

Segundo o projeto, o equipamento será construído dentro da propriedade da Lara na cidade, onde também funciona o aterro sanitário em que atualmente é enterrado todo o material, no bairro Sertãozinho. A expectativa da empresa é a de que, uma vez obtidas as licenças, a obra tenha início até o fim do próximo ano, com previsão de conclusão em 30 meses. A construção está estimada em R$ 900 milhões e será bancado com recurso privado.

O projeto foi protocolado em 15 de agosto deste ano junto à Cetesb (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo) para obtenção das licenças. O EIA/Rima (Estudo de Impacto Ambiental e Relatório de Impacto Ambiental serão alvo de audiência pública que será realizada em 12 de dezembro, às 17h, no Teatro Municipal de Mauá (Rua Gabriel Marques, 353, Vila Noemia). 

A previsão é a de que a energia gerada com a queima do lixo seja destinada metade para o próprio empreendimento e a outra parcela distribuída na rede elétrica da cidade. Presidente da Lara, Daniel Sindicic explicou que, em média, cada quilo de lixo queimado tem capacidade para gerar 80 kilowatt de energia, suficiente para manter ligado um secador de cabelo por 20 minutos. Atualmente, o aterro da Lara recebe 3.000 toneladas diárias de lixo. “Hoje, o que a gente recebe é enterrado. Vamos deixar de fazer isso e gerar energia”, afirmou. “É importante frisar que a energia gerada pela queima do lixo é considerada uma energia verde pela EPA (Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos). Além disso, 90% dos aterros sanitários do Estado têm tempo médio de vida útil de cinco anos”, completou. 

“É melhor queimar o lixo do que enterrar e deixar apodrecer”, concluiu. Sindicic afirmou que os filtros de tratamento dos gases gerados vão garantir que não haja poluição atmosférica e que o sistema já é usado em cerca de 900 plantas na Europa.

NA REGIÃO

Se aprovada, a usina de incineração de Mauá vai ser a primeira da região e a segunda do Estado. Já existe uma em fase de obras, em Barueri. Santo André também pretende construir equipamento semelhante por meio de PPP (Parceria Público-Privada) e, para isso, lançou edital no início de novembro para requerer junto a empresas interessadas, dentro de 30 dias, apresentação de projetos para implementação de ações de gestão ambiental. 

A ideia andreense visa receber propostas que possam ser utilizadas na estruturação do projeto de concessão administrativa, compreendendo as atividades que integram os serviços públicos de manejo de resíduos sólidos e de limpeza. São Bernardo assinou no passado contrato englobando PPP do lixo e implantação de usina, mas os efeitos do acerto foram cancelados.

Catadores e ambientalista são contra iniciativa

A incineração dos resíduos sólidos não é bem-vista pelas pessoas que trabalham com reciclagem de materiais e também por especialistas.

A Coopercata (Cooperativa de Catadores de Materiais Recicláveis, de Papel e Papelão de Mauá) acolhe 23 pessoas no galpão localizado no bairro Capuava. Os profissionais temem que, com a construção da URE (Unidade de Recuperação Energética), não haja mais material para ser triado. O grupo movimenta cerca de 35 toneladas de resíduos ao mês, com capacidade para triar até 120 toneladas. “Nosso trabalho contribui para a preservação do meio ambiente e auxilia pessoas em situação de vulnerabilidade social”, argumentou a presidente da cooperativa, Edilaine Gonçalves, a Naná.

A Lara negou que a queima vá afetar o trabalho de reciclagem que é realizado em Mauá ou em outras cidades. 

Presidente do MDV (Movimento de Defesa da Vida do Grande ABC), José Soares da Silva afirmou que a instalação de incinerador contraria a PNRS (Política Nacional de Resíduos Sólidos), que prevê incentivo à reciclagem e integração das cooperativas de catadores. “Vamos entrar com ação civil pública e informar à população, que não está sabendo o que está em jogo”, afirmou Silva. 

Presidente da Proam (Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental) e integrante do Conama (Conselho Nacional do Meio Ambiente), Carlos Bocuhy avaliou a tecnologia como ultrapassada. Segundo o ambientalista, o modelo, que se espalhou pela Europa há 30 anos, tem sido abandonado devido ao “alto grau de poluição atmosférica”.

A queima dos resíduos, explicou Bocuhy, gera material particulado tão pequeno que vai direto para a circulação sanguínea, pela respiração.O ambientalista afirmou que o funcionamento da unidade de incineração de resíduos vai gerar emissão contínua de carbono e que 60% do lixo recolhido porta a porta é úmido, o que vai exigir outro tipo de combustível para a queima – que deixará de ser reciclado.

A alternativa para o problema do lixo, conforme Bocuhy, é investir no tratamento biológico dos resíduos, separando os secos dos úmidos, enviando o material orgânico para compostagem e promovendo a queima apenas dos gases gerados.




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