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‘Cortesia não compromete valentia’, dizem policiais femininas


Luciana Sereno
Do Diário do Grande ABC

08/03/2005 | 14:36


Já se foi a época em que mulheres policiais usavam coturnos e abusavam da força física. No Grande ABC, as  policiais civis femininas que atuam em delegacias locais são prova de que “a cortesia não compromete a valentia”, como elas mesmas dizem. Das 44 profissionais em atuação, a reportagem esteve com quatro. Nas delegacias, são elas que ditam as regras da profissão e, por conta da vaidade, acabam ainda por ditar moda. Hoje, maquiagem, salto alto e cabelos bem tratados não são incomuns nas delegacias da região, mas as policiais ainda encaram com freqüência um pedido: “agora posso falar com o delegado?”.

As policiais afirmam que, mesmo convivendo no ambiente hostil das delegacias, é possível não perder a feminilidade. Elas vão mais longe e afirmam que são o cartão de visita da polícia. “Por isso não custa estar bem-vestida e agir com respeito, mesmo quando estamos falando com um criminoso”, diz a delegada da Ciretran (Circunscrição Regional de Trânsito) de Mauá, Ana Lúcia de Souza.

Sempre com o visual intacto, cabelos alinhados e rosto maquiado, Ana Lúcia trocou as passarelas pela academia de polícia, na década de 80. De lá para cá, passou por várias delegacias e ficou conhecida como a “delegada de salto alto que prende traficantes na favela”. Hoje com 36 anos, Ana Lúcia, mãe de Hayara, 10, é a única mulher na direção de uma Ciretran em todo o Estado de São Paulo. Está no comando há dois anos e afirma que “ser mulher e dirigir a delegacia pode ser vantajoso, mas é preciso impor limites para ganhar respeito porque ainda existe preconceito”. Dois secadores, quatro pares de sapato de salto, roupas e acessórios montam o seu arsenal de emergência na delegacia.

“Nasci mulher e não é porque me tornei policial que perderei a personalidade feminina. Não preciso ser grosseira para ser firme”, afirma a delegada da Homicídios de São Bernardo, Kátia Cristofaro, 43 anos, 23 deles na polícia. É por isso que na bolsa, além da arma e munição, não pode faltar batom e lápis para os olhos. “Hoje tenho aqui pelo menos cinco batons de cores diferentes”, diz Kátia, mãe de duas crianças, de 9 e 5 anos. “Não saio de casa sem o salto alto”, confessa.

As policiais explicam que, apesar da correria da profissão, reservam um período da semana para os cuidados – massagens, cabeleireiro, exercícios – e seguem rigorosamente algumas técnicas para manter a forma. Correr nos parques da região é a receita da investigadora do 6º DP de Santo André Eliane Barbosa Moreno, 34 anos, para manter os 64 Kg bem distribuídos em seu 1,71 metro de altura. “Mas a adrenalina também ajuda a manter a juventude”, diz. Ela afirma nunca ter se arrependido de entrar para a polícia, mesmo nas piores ocorrências. Atualmente, é a única mulher entre os investigadores do DP.

Outra beldade da Polícia Civil da região está à frente da Delegacia da Mulher de São Bernardo. Formada em Direito, Ângela de Andrade Ferreira entrou para a polícia aos 27 anos. Hoje, aos 41 e casada há 25 com um engenheiro, ela revela sua receita para driblar o preconceito, manter o casamento e ter sucesso na profissão escolhida. “Não permiti que o ambiente mudasse meu jeito de ser e tampouco abandonei as saias e meias-finas.”

Valorização – As policiais da região defendem a inovação nas delegacias. “Não é porque sou mulher que não falo grosso ou não me embolo com alguém para defender a mim ou alguém da minha equipe”, argumenta Kátia, delegada da Homicídios de São Bernardo. Assim como ela, a investigadora Eliane diz que basta um parceiro estar em perigo para o instinto de defesa dominar suas atitudes. “A cena que mais me lembro foi quando trabalhava no Garra (Grupo Armado de Repressão a Roubos) e, durante uma ocorrência, um dos nossos investigadores ficou ferido. Quando pensei que ele poderia perder a vida, fui para cima.” Na ocasião, Eliane também era a única mulher entre os policiais.

Nem mesmo às vésperas de terem seus filhos, as policiais da Grande ABC abandonaram suas atividades. “Trabalhei até o fim das duas gestações. Na última, estive aqui até um dia antes do parto”, conta Kátia Cristofaro.

E elas assumem que são ídolos para os filhos. “Eles enchem a boca para dizer que trabalho na polícia e entendem minhas ausências”, afirma a investigadora Eliane, do 6º DP de Santo André. O orgulho dos filhos, segundo elas, é o que as transformam quando estão dentro de casa. Nesses momentos, elas conseguem levar uma vida normal, longe de armas, da pressão das delegacias e dos horários descontrolados.

“Em casa, sou mãezona mesmo. Gosto de cozinhar para eles e sair para passear com o cachorro”, conta Kátia, da Homicídios, que completa: “quando vêem um caso nosso na TV, então, querem que conte como foi e depois ficam perguntando sobre as investigações. E aí mãe, você consegui prender fulano?” Um dos casos lembrados pelos filhos de Kátia é o do maníaco do táxi, Anestor Bezerra de Lima, acusado de matar 11 homens entre 23 de julho e 10 de setembro do ano passado. A investigação ficou a cargo da Delegacia de Homicídios de São Bernardo.


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‘Cortesia não compromete valentia’, dizem policiais femininas

Luciana Sereno
Do Diário do Grande ABC

08/03/2005 | 14:36


Já se foi a época em que mulheres policiais usavam coturnos e abusavam da força física. No Grande ABC, as  policiais civis femininas que atuam em delegacias locais são prova de que “a cortesia não compromete a valentia”, como elas mesmas dizem. Das 44 profissionais em atuação, a reportagem esteve com quatro. Nas delegacias, são elas que ditam as regras da profissão e, por conta da vaidade, acabam ainda por ditar moda. Hoje, maquiagem, salto alto e cabelos bem tratados não são incomuns nas delegacias da região, mas as policiais ainda encaram com freqüência um pedido: “agora posso falar com o delegado?”.

As policiais afirmam que, mesmo convivendo no ambiente hostil das delegacias, é possível não perder a feminilidade. Elas vão mais longe e afirmam que são o cartão de visita da polícia. “Por isso não custa estar bem-vestida e agir com respeito, mesmo quando estamos falando com um criminoso”, diz a delegada da Ciretran (Circunscrição Regional de Trânsito) de Mauá, Ana Lúcia de Souza.

Sempre com o visual intacto, cabelos alinhados e rosto maquiado, Ana Lúcia trocou as passarelas pela academia de polícia, na década de 80. De lá para cá, passou por várias delegacias e ficou conhecida como a “delegada de salto alto que prende traficantes na favela”. Hoje com 36 anos, Ana Lúcia, mãe de Hayara, 10, é a única mulher na direção de uma Ciretran em todo o Estado de São Paulo. Está no comando há dois anos e afirma que “ser mulher e dirigir a delegacia pode ser vantajoso, mas é preciso impor limites para ganhar respeito porque ainda existe preconceito”. Dois secadores, quatro pares de sapato de salto, roupas e acessórios montam o seu arsenal de emergência na delegacia.

“Nasci mulher e não é porque me tornei policial que perderei a personalidade feminina. Não preciso ser grosseira para ser firme”, afirma a delegada da Homicídios de São Bernardo, Kátia Cristofaro, 43 anos, 23 deles na polícia. É por isso que na bolsa, além da arma e munição, não pode faltar batom e lápis para os olhos. “Hoje tenho aqui pelo menos cinco batons de cores diferentes”, diz Kátia, mãe de duas crianças, de 9 e 5 anos. “Não saio de casa sem o salto alto”, confessa.

As policiais explicam que, apesar da correria da profissão, reservam um período da semana para os cuidados – massagens, cabeleireiro, exercícios – e seguem rigorosamente algumas técnicas para manter a forma. Correr nos parques da região é a receita da investigadora do 6º DP de Santo André Eliane Barbosa Moreno, 34 anos, para manter os 64 Kg bem distribuídos em seu 1,71 metro de altura. “Mas a adrenalina também ajuda a manter a juventude”, diz. Ela afirma nunca ter se arrependido de entrar para a polícia, mesmo nas piores ocorrências. Atualmente, é a única mulher entre os investigadores do DP.

Outra beldade da Polícia Civil da região está à frente da Delegacia da Mulher de São Bernardo. Formada em Direito, Ângela de Andrade Ferreira entrou para a polícia aos 27 anos. Hoje, aos 41 e casada há 25 com um engenheiro, ela revela sua receita para driblar o preconceito, manter o casamento e ter sucesso na profissão escolhida. “Não permiti que o ambiente mudasse meu jeito de ser e tampouco abandonei as saias e meias-finas.”

Valorização – As policiais da região defendem a inovação nas delegacias. “Não é porque sou mulher que não falo grosso ou não me embolo com alguém para defender a mim ou alguém da minha equipe”, argumenta Kátia, delegada da Homicídios de São Bernardo. Assim como ela, a investigadora Eliane diz que basta um parceiro estar em perigo para o instinto de defesa dominar suas atitudes. “A cena que mais me lembro foi quando trabalhava no Garra (Grupo Armado de Repressão a Roubos) e, durante uma ocorrência, um dos nossos investigadores ficou ferido. Quando pensei que ele poderia perder a vida, fui para cima.” Na ocasião, Eliane também era a única mulher entre os policiais.

Nem mesmo às vésperas de terem seus filhos, as policiais da Grande ABC abandonaram suas atividades. “Trabalhei até o fim das duas gestações. Na última, estive aqui até um dia antes do parto”, conta Kátia Cristofaro.

E elas assumem que são ídolos para os filhos. “Eles enchem a boca para dizer que trabalho na polícia e entendem minhas ausências”, afirma a investigadora Eliane, do 6º DP de Santo André. O orgulho dos filhos, segundo elas, é o que as transformam quando estão dentro de casa. Nesses momentos, elas conseguem levar uma vida normal, longe de armas, da pressão das delegacias e dos horários descontrolados.

“Em casa, sou mãezona mesmo. Gosto de cozinhar para eles e sair para passear com o cachorro”, conta Kátia, da Homicídios, que completa: “quando vêem um caso nosso na TV, então, querem que conte como foi e depois ficam perguntando sobre as investigações. E aí mãe, você consegui prender fulano?” Um dos casos lembrados pelos filhos de Kátia é o do maníaco do táxi, Anestor Bezerra de Lima, acusado de matar 11 homens entre 23 de julho e 10 de setembro do ano passado. A investigação ficou a cargo da Delegacia de Homicídios de São Bernardo.

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