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Todos palpitam. E escola leva prêmio


Illenia Negrin
Do Diário do Grande ABC

06/08/2006 | 08:54


Uma escola estadual da periferia de Diadema, a Anecondes Alves Ferreira, foi a única do Estado de São Paulo a receber o título Escola Referência Nacional em Gestão. O prêmio é dado às unidades que conseguem unir, num mesmo espaço, comunidade, pais, alunos, funcionários, ações pedagógicas criativas, atividades extra-curriculares e ensino de qualidade. A vencedora concorreu com mais 332 inscritas. E ganhou por colocar em prática a receita mais antiga elaborada pelos bons educadores: o diálogo.

O prêmio é uma iniciativa conjunta do Consed (Conselho Nacional dos Secretários de Educação), da Undime (União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação), da Unesco e da Fundação Roberto Marinho. O objetivo é estimular a auto-avaliação das unidades para melhorar a formação dos alunos dos ensinos fundamental e médio. A diretora da escola contemplada, Mércia Ferreira, 41 anos, recebeu o diploma Liderança em Gestão Escolar e vai participar de um congresso mundial sobre o tema nos Estados Unidos.

A EE Anecondes Alves Ferreira, no Jardim Ruyce, tem os mesmos problemas de boa parte das escolas estaduais que atendem alunos carentes de periferias. Com mais de 1,8 mil estudantes, da 5ª séria ao 3º ano, enfrenta o desafio de agregar – e transformar – o cotidiano que extrapola os portões da unidade. A violência, o tráfico de drogas, a desestrutura familiar, a pobreza, tudo isso invade os pátios, as classes. Ainda contabiliza salas de aula cheias, quase superlotadas, principalmente no período noturno. Sem falar nos professores insatisfeitos, na falta de recursos, na burocracia estatal. Tinha tudo para ser mais um espaço reduzido a depósito de jovens.

Em 2001, Mércia assumiu a diretoria de uma escola em frangalhos. Uma das unidades mais novas de Diadema, inaugurada em 1997, já amargava a crise em pouco tempo de funcionamento. “O prédio estava completamente vandalizado. Os índices de evasão escolar eram altos, os de repetência também. A equipe de professores mudava a cada semestre, ninguém queria trabalhar aqui”, recorda.

A diretora começou assim, pelo começo. Criou o Nossa Escola, Nossa Casa, projeto que se propôs a resgatar a história da escola. Afinal, quem era esse tal de Anecondes Alves Ferreira? “Os alunos descobriram que foi um policial militar, assassinado enquanto fazia a ronda escolar no bairro. Foram se apropriando mais do espaço”, conta Mércia. Depois, os estudantes criaram o brasão da unidade, a bandeira e o hino. Foram convidados a participar do mutirão que faria a pintura da escola. Escolheram as novas imagens que estampariam as paredes. Desenharam e coloriram os muros. Os pais vieram junto.

Hoje, não precisa nem de convite. Participam de todas as decisões que envolvem os rumos do ensino e convivência. Os problemas são expostos e as soluções, votadas. A cada semestre, todos os estudantes respondem a pelo menos um questionário e apontam defeitos e qualidades. Para os pais, a equipe de gestão criou o Chá-Papo, reunião que mais parece conversa informal rodeada de comes e bebes.

Nos finais de semana, a escola oferece cursos de informática, manutenção de micro, capoeira, dança livre, inglês, espanhol, desenho artístico, oficinas de artesanato, além de abrir o salão de jogos – com pebolim, tênis de mesa, xadrez – e a quadra poliesportiva. Tem até um mini spa, que oferece massagem, ginástica, limpeza de pele e dicas de nutrição e saúde. A maioria dos 64 professores são voluntários. A EE Anecondes também abriga o cursinho popular Educafro, para alunos de baixa renda.

A unidade ainda tem fanfarra, aulas de música, coral, rádio estudantil – que toca músicas e dá recados durante os intervalos – e o Game Superação. A competição dura uma semana. Matemática, redação ou arte são as categorias. Os vencedores ganham medalha. Mais do que isso: têm duas aulas livres no dia em que escolherem para aproveitar a quadra. E, enquanto a classe inteira estuda, comem hambúrguer com refrigerante. “Eles escolheram o prêmio. Essa do hambúrguer...é o que eles mais esperam”, conta a diretora.

Pais e alunos pediram, na última consulta, que o intervalo dos menores seja separado do dos mais velhos. Querem também que o cardápio da merenda seja divulgado com antecedência. E ainda pediram que os professores faltem menos, aulas mais interessantes... A lista não tem fim. A diretora Mércia garante que vai tomar providências. E os estudantes reconhecem: “somos bagunceiros e indisciplinados”. Sem cabo-de-guerra, a escola cresce. E em dezembro aparece nos Estados Unidos, como exemplo de excelência.



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Todos palpitam. E escola leva prêmio

Illenia Negrin
Do Diário do Grande ABC

06/08/2006 | 08:54


Uma escola estadual da periferia de Diadema, a Anecondes Alves Ferreira, foi a única do Estado de São Paulo a receber o título Escola Referência Nacional em Gestão. O prêmio é dado às unidades que conseguem unir, num mesmo espaço, comunidade, pais, alunos, funcionários, ações pedagógicas criativas, atividades extra-curriculares e ensino de qualidade. A vencedora concorreu com mais 332 inscritas. E ganhou por colocar em prática a receita mais antiga elaborada pelos bons educadores: o diálogo.

O prêmio é uma iniciativa conjunta do Consed (Conselho Nacional dos Secretários de Educação), da Undime (União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação), da Unesco e da Fundação Roberto Marinho. O objetivo é estimular a auto-avaliação das unidades para melhorar a formação dos alunos dos ensinos fundamental e médio. A diretora da escola contemplada, Mércia Ferreira, 41 anos, recebeu o diploma Liderança em Gestão Escolar e vai participar de um congresso mundial sobre o tema nos Estados Unidos.

A EE Anecondes Alves Ferreira, no Jardim Ruyce, tem os mesmos problemas de boa parte das escolas estaduais que atendem alunos carentes de periferias. Com mais de 1,8 mil estudantes, da 5ª séria ao 3º ano, enfrenta o desafio de agregar – e transformar – o cotidiano que extrapola os portões da unidade. A violência, o tráfico de drogas, a desestrutura familiar, a pobreza, tudo isso invade os pátios, as classes. Ainda contabiliza salas de aula cheias, quase superlotadas, principalmente no período noturno. Sem falar nos professores insatisfeitos, na falta de recursos, na burocracia estatal. Tinha tudo para ser mais um espaço reduzido a depósito de jovens.

Em 2001, Mércia assumiu a diretoria de uma escola em frangalhos. Uma das unidades mais novas de Diadema, inaugurada em 1997, já amargava a crise em pouco tempo de funcionamento. “O prédio estava completamente vandalizado. Os índices de evasão escolar eram altos, os de repetência também. A equipe de professores mudava a cada semestre, ninguém queria trabalhar aqui”, recorda.

A diretora começou assim, pelo começo. Criou o Nossa Escola, Nossa Casa, projeto que se propôs a resgatar a história da escola. Afinal, quem era esse tal de Anecondes Alves Ferreira? “Os alunos descobriram que foi um policial militar, assassinado enquanto fazia a ronda escolar no bairro. Foram se apropriando mais do espaço”, conta Mércia. Depois, os estudantes criaram o brasão da unidade, a bandeira e o hino. Foram convidados a participar do mutirão que faria a pintura da escola. Escolheram as novas imagens que estampariam as paredes. Desenharam e coloriram os muros. Os pais vieram junto.

Hoje, não precisa nem de convite. Participam de todas as decisões que envolvem os rumos do ensino e convivência. Os problemas são expostos e as soluções, votadas. A cada semestre, todos os estudantes respondem a pelo menos um questionário e apontam defeitos e qualidades. Para os pais, a equipe de gestão criou o Chá-Papo, reunião que mais parece conversa informal rodeada de comes e bebes.

Nos finais de semana, a escola oferece cursos de informática, manutenção de micro, capoeira, dança livre, inglês, espanhol, desenho artístico, oficinas de artesanato, além de abrir o salão de jogos – com pebolim, tênis de mesa, xadrez – e a quadra poliesportiva. Tem até um mini spa, que oferece massagem, ginástica, limpeza de pele e dicas de nutrição e saúde. A maioria dos 64 professores são voluntários. A EE Anecondes também abriga o cursinho popular Educafro, para alunos de baixa renda.

A unidade ainda tem fanfarra, aulas de música, coral, rádio estudantil – que toca músicas e dá recados durante os intervalos – e o Game Superação. A competição dura uma semana. Matemática, redação ou arte são as categorias. Os vencedores ganham medalha. Mais do que isso: têm duas aulas livres no dia em que escolherem para aproveitar a quadra. E, enquanto a classe inteira estuda, comem hambúrguer com refrigerante. “Eles escolheram o prêmio. Essa do hambúrguer...é o que eles mais esperam”, conta a diretora.

Pais e alunos pediram, na última consulta, que o intervalo dos menores seja separado do dos mais velhos. Querem também que o cardápio da merenda seja divulgado com antecedência. E ainda pediram que os professores faltem menos, aulas mais interessantes... A lista não tem fim. A diretora Mércia garante que vai tomar providências. E os estudantes reconhecem: “somos bagunceiros e indisciplinados”. Sem cabo-de-guerra, a escola cresce. E em dezembro aparece nos Estados Unidos, como exemplo de excelência.

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