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16 Quadras


Cássio Gomes Neves
Do Diário do Grande ABC

21/04/2006 | 12:02


O  caso Richard Donner parecia perdido.Afinal,o diretor que ajudou na fisioterapia do cinema de ação durante a dura travessia entre o fim dos anos 70 o início dos 90 vinha exercendo uma obra hipotensa de alguns anos para cá,com filmes que,embora permanecessem na sua alçada artística,não eram capazes sequer de renegociar suas prioridades como realizador.Ou alguém conseguiria crer que os minguados Linha do Tempo (2003)Teoria da Conspiração (1997)eram obras do mesmo diretor de A Profecia (1976),Superman –O Filme (1978),Os Goonies (1985),O Feitiço de Áquila (1985),Maverick (1994)da tetralogia Máquina Mortífera (1987,1989, 1992 1998)?

Com o novo 16 Quadras ,voltamos a falar daquele Donner não deste, mais recente,que parecia tricotar entre uma outra sessão de filmagem e edição. A despeito do que a tradição sugere,Donner não recorreu a Mel Gibson –ator com quem fez seis filmes seu parceiro no próximo projeto, Sam and George .Em vez dis so,fez o que já tinha tentado, com êxito menor,com Sylvester Stallone em Assassinos (1995);ou seja,convocou um ator que é síntese do mito heróico no cinema,que nunca tinha passado por suas câmeras,para reestudá-lo com o peso dos anos dos quilos adicionais.Desta vez,sobrou para Bruce Willis,no bom sentido. É do astro duro de matar o papel de Jack Mosley,policial em fim de carreira a quem só cabem incumbências que ninguém mais gostaria de assumir,tamanha a irrelevância delas. Aparentemente,levar Eddie Bunker (Mos Def,de O Guia do Mochileiro das Galáxias )da delegacia até o tribunal está entre esses trabalhos indesejáveis.

A missão d Mosley,bem como a escora narrativa de Donner,parece das mais simples: transportar o prisioneiro em um percurso de 16 quarteirões,de carro,em menos de 118 minutos.Do ponto de vista dramatúrgico,é igualmente banal o desafio que existe entre tempo espaço (fórmula primária de tensão)sugerido por 16 Quadras .Contudo, tanto na travessia de Mosley como no roteiro do filme (escrito por Richard Wenk),a porca resolve torcer o rabo as coisas tornam-se um bocado mais complicadas.

Dois e dois são cinco – Para começar,o prisioneiro é testemunha em um processo contra um policial corrupto.Os colegas do sujeito procuram intervir junto a Mosley para que ele deixe sua “carga ”sob a responsabilidade deles. Diante da negativa do transportador,os corruptos (liderados pelo personagem de David Morse)iniciam perseguição a escoltado escoltador. Matou a charada quem supõe que 16 Quadras retoma as comédias de ação na linha Máquina Mortífera 48 Horas (esta de Walter Hill,outro diretor do cinema de ação que parece obsoleto).Está presente novamente o protagonismo bifurcado,com dois personagens centrais em tese opostos, embora compensem um ao outro,na alegria na tristeza.

 Nessa variante de polícia-eladrão que faz Donner,a palavra de ordem é limitação,seja ela pela idade pela precária condição física de Jack Mosley;seja ela pela situação engaiolada do presidiário/testemunha,geralmente algemado;seja ela pela restrição espacial,que passa das labirínticas 16 quadras do título para o interior de um ônibus sequestrado ao fim do filme.

 A propósito,o espaço é um elemento a ser altamente considerado neste novo Donner, provavelmente mais que em qualquer outro filme do cineasta.O que une seus personagens é unicamente a condição de enjaulados a céu aberto.É o fator que transforma mocinho bandido em bandido bandido ,mais adiante, mocinho mocinho.O que tem jeitão de obviedade deslavada ganha outros contornos nas mãos do diretor.

 A tal cena no ônibus é determinante neste sentido.Não só porque é a restrição extrema do espaço,mas,também,porque Donner aproveita para, com ela,questionar o poder da acusação sem provas,referendada tão-somente pela reputação do acusador.Dentro do ônibus estão Mosley,Eddie dezenas de passageiros pegos de gaiato.Do lado d fora, uma imensa força policial de prontidão,comandada pelo mesmo sujeito corrupto que persegue os protagonistas. Quadro típico de um atentado terrorista,não?Pois bem,aos olhos da opinião pública, quem ocupa o ônibus é que é bandido.Aos olhos do espectador da justiça (não a instituição,mas o estado de consciência),bandidos são aqueles que estão do lado de fora.E o que determina o que vai para a mídia (e,conseqüentemente,para a cadeia ou para a execução) é justamente o poder, corrompido até a medula,como o diretor Donner provará depois.

 Portanto,16 Quadras é também uma crítica ao maniqueísmo que há pelo menos cinco anos deixou de ser exclusividade da ficção.Filme que ex-plicita uma situação indubitavelmente passível de punição (o sequestro do ônibus)para contestar,implicitamente, a acusação como bem durável do poder constituído. Fora isso,16 Quadras reencontra um patrimônio do diretor:como no primeiro Máquina Mortífera ,faz comédia a partir da inviabilidade de relacionamento dos protagonistas,cujos telhados de vidro são estilhaçados não por crueldade,mas porque personagens problematizados eram o suporte que mantinha seu cinema em pé.Richard Donner voltou.Já era tempo.

16 QUADRAS (16 Blocks, EUA, 2006). Dir.: Richard Donner. Com Bruce Willis, Mos Def, David Morse. Estréia hoje no ABC Plaza 7, Extra Anchieta 1, Mauá Plaza 4, Central Plaza 2 e circuito. Duração 118 minutos. Censura: 14 anos.



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