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'Universidade Federal do ABC deve ser pólo de pesquisas'


Andrea Catão
Do Diário do Grande ABC

10/07/2004 | 17:40


Secretário-executivo da Agência de Desenvolvimento Econômico do Grande ABC, o empresário Paulo Eugênio Pereira Júnior, defende que a UFABC (Fundação Universidade Federal do ABC) não ofereça só cursos a estudantes carentes. Para ele, não basta a criação de cursos que formam mão-de-obra. É necessário o desenvolvimento de pesquisas que supram as carências das pequenas e médias empresas da região e também criem novos campos de conhecimento. “O ABC pode desenvolver outras vocações e caminha cada vez mais para o setor tecnológico.”

O empresário afirmou ainda que os empresários do Grande ABC não participam do debate da universidade por não terem como prioridade a educação e o investimento em tecnologia. “É um erro estratégico. Aumentar a competitividade dessas empresas tem de passar, necessariamente, por educação e desenvolvimento tecnológico.” Veja abaixo os principais trechos da entrevista que o secretário deu ao Diário:

Diário – Como os empresários vêem a instalação da universidade federal no Grande ABC e o que particularmente o senhor acha do perfil tecnológico que se pretende dar à instituição?
Paulo Eugênio Pereira Jr. – O importante é que as empresas trabalhem com o apoio dos centros de pesquisa em tecnologia da universidade. Mas é necessário esclarecer que muitos empresários ficam centrados na discussão de que há necessidade em formação de mão-de-obra, coisa que já ocorre. Temos a FEI e o Instituto Mauá (com cursos na área tecnológica) que formam mão-de-obra qualificada. Se a universidade só vem para criar mais cursos, acho um desperdício.

Diário – O senhor acredita que deveria ser respeitado o acúmulo existente na região, embora seja necessário ampliar a pesquisa nessas áreas?
Paulo Eugênio – Quero dizer que em termos de atender às empresas, às cadeias produtivas do ABC, temos a FEI e a Mauá, que são duas faculdades que têm excelência em formar pessoas. Só que existem alguns problemas. Elas têm laboratórios e centros de pesquisa direcionados às grandes empresas, principalmente do setor automobilístico, e quem estuda nessas instituições é a classe média. Quem não tem dinheiro não faz faculdade no ABC.

Diário – Deve-se, portanto, criar cursos nas mesmas áreas para dar condições aos excluídos do ensino superior?
Paulo Eugênio – Não acho que deve haver competição. O que deixo claro é que temos de pensar também no estudante que hoje não tem condições de pagar uma faculdade, por esse motivo a universidade pública federal vem preencher esse vazio.

Diário – São dois os enfoques? Dar acesso ao estudante carente e desenvolver pesquisas?
Paulo Eugênio – É isso que está em discussão – não aqui, mas na União. Cotas para alunos que vêm da escola pública, que é a melhor forma de incluir o aluno carente. Do ponto de vista econômico, a importância da universidade é o investimento em pesquisa e desenvolvimento tecnológico, que são caros.

Diário – É o desenvolvimento de pesquisas que depois são aplicadas nas indústrias?
Paulo Eugênio – Sim. Essa seria a grande vantagem em ter uma universidade federal, com cursos voltados para o mercado do ABC. Mas volto a frisar que não é só o curso. É importante ter uma universidade com pesquisa tecnológica e que dê apoio, principalmente, às pequenas e médias empresas.

Diário – O senhor fala de as pequena e média indústrias serem beneficiadas em pesquisa. Quais setores podem ser contemplados com os centros de tecnologia da universidade? Quais são as principais carências?
Paulo Eugênio – Não é apenas pesquisa, mas apoio, suporte. O mesmo laboratório que serve para o desenvolvimento da pesquisa serve para atender à empresa numa demanda própria dela. Um exemplo é a empresa que pretende desenvolver um produto e quer saber que tipo de material pode utilizar, o que pode fazer para melhorá-lo, aumentar a qualidade ou até mesmo reduzir custos. No setor plástico, por exemplo, queremos dar esse apoio tecnológico às indústrias. A Agência tenta buscar recursos no Ministério do Desenvolvimento (Indústria e Comércio Exterior) para a criação de um laboratório que atenda ao setor plástico. A universidade federal pode fazer isso.

Diário – O senhor defende que os centros de pesquisa sejam totalmente voltados para a indústria local?
Paulo Eugênio – Não. A universidade pode ter vocações novas, que ainda não foram desenvolvidas. Um exemplo é a eletrônica embarcada (sistemas de informática que podem ser aplicados em eletrônica, como o desenvolvimento de chip para automóveis). Isso vem sendo desenvolvido aqui, mas não é especialidade. Software é outro exemplo. Aqui na região tem-se desenvolvido essa especialidade, mas ainda não é referência. Acredito que o ABC caminha cada vez mais para o setor de empresas de base tecnológica.

Diário – Por que o senhor acredita nisso?
Paulo Eugênio – Em função do valor agregado que ela representa e em função do salário elevado que aqui se paga. Uma empresa que precisa de muita mão-de-obra não se instala na região, porque o salário é mais alto se comparado ao resto do país. Já uma empresa que precisa de infra-estrutura e mão-de-obra especializada, mais preparada, procura a região, porque sabe que aqui vai encontrar.

Diário – Essas pesquisas a serem desenvolvidas na universidade poderiam estar voltadas para a criação de novos pólos de tecnologia, dar nova vocação para o Grande ABC?
Paulo Eugênio – Com certeza acabaria induzindo para isso. Um exemplo é Campinas. A cidade se transformou em um pólo de tecnologia por causa da instalação da universidade. Por isso defendo cursos e pesquisa não só nos ramos que temos aqui. Podemos criar um campo que venha a estimular novas vocações.

Diário – E a universidade do plástico que muitos defendem?
Paulo Eugênio – Isso limitaria demais os campos de conhecimento. Empresários, acadêmicos, o governo federal e muitas lideranças da região defendem que a universidade deve ter um foco. Acho que essa é uma oportunidade para a gente ter uma visão tridimensional. Enxergar além do que se apresenta. Se a gente ficar só no setor automobilístico e no petroquímico é falar do óbvio.

Diário – E os empresários? No que podem contribuir para o desenvolvimento do modelo da universidade?
Paulo Eugênio – Eu participei de um congresso sobre a indústria paulista e tive a oportunidade de discutir com mais de 150 empresários do ABC e também com os Ciesps (Centro das Indústrias do Estado de São Paulo) as ações prioritárias que os empresários querem. Em nenhum momento a educação e o investimento em tecnologia foi citado. Além disso, em um questionário enviado às empresas e aos Ciesps também ficou claro que eles não acham que essas são ações prioritárias. O que é comum a todos é que o poder público tem de investir em infra-estrutura viária e reduzir impostos. Se fizermos uma reunião para discutir redução tributária, não faltará um. Isso me leva a concluir que discutir o modelo da universidade, investir em educação e tecnologia não é prioridade para os empresários.

Diário – Falta mobilização, organização dos empresários em torno desse assunto?
Paulo Eugênio – Sim. A maior parte das grandes empresas não têm sua sede administrativa na região. A matriz está fora do Estado e até em outros países. E aos pequenos e médios empresários falta liderança, falta quem os represente.

Diário – Além de cursos na área tecnológica, o senhor defende a necessidade em se ter outros campos do conhecimento?
Paulo Eugênio – Uma universidade deve ter cursos e pesquisa nas áreas de humanas, exatas, tecnológicas, da saúde. Um curso de Medicina seria importante para a região. Algumas prefeituras, para contratar médicos, têm de publicar edital também em outros Estados. Sem contar que a comunidade pode se beneficiar com a pesquisa nessa área.



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