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Contrapeso na balança


Ricardo Lísias
Especial para o Diário

08/08/2006 | 08:25


Publicado inicialmente em duas partes (uma em 1872 e outra em 1879), o longo poema Martin Fierro, de José Hernandez, oferece um contraponto às “propostas civilizatórias” que Sarmiento fez circular algumas décadas antes com o Facundo. No segundo encontros dos Seminários Avançados sobre a Literatura Moderna Latino Americana iremos discutir como Hernandez recoloca a figura do gaúcho, antes observado justamente como o responsável pelo atraso da região.

Para Sarmiento, a Argentina, e por extensão toda a América Latina, só se desenvolveria com a adoção da cultura européia. Dessa forma, mais do que a ocupação da região por imigrantes, o que importava realmente era a absorção de hábitos e razões culturais que viriam das nações ditas “civilizadas”. Inaugurava-se, assim, a imaginária dicotomia “civilização x barbárie” que norteou o debate sobre a América Latina até hoje.

José Hernandez, tomando como norte o famoso épico El Cid Campeador, apropria-se da figura do herói errante e cria uma personagem complexa que representaria literariamente o homem da região dos pampas. O poema é longo e impede um resumo de suas diversas idas e vindas. Importa saber que o herói Martin Fierro é um homem honrado e corajoso, cuja solidariedade desprendida era responsável por atos de bravura ainda pouco vistos na literatura da região.

O poema incorpora a enorme tradição oral característica daquela literatura, sendo composto sob o formato da gauchesca, uma espécie de “linguagem” que identificaria os habitantes da região. Não é à toa que o Martin Fierro acabou sendo alvo de inúmeras interpretações, desde as de raiz popular até recebendo a forma erudita da ópera. No intervalo dos debates, inclusive, ouviremos uma interpretação musicada com o estilo típico da região.

O grau de excelência poética do texto de Hernandez desfez a intenção positivista do texto de Sarmiento e recolocou as peças no tabuleiro, fazendo ver que a “barbárie” sempre atribuída ao habitante das “regiões distantes” era um elemento perigoso para a formação de um pensamento conseqüente. Jorge Luis Borges teria percebido com agudeza a crise que o debate representava e aos poucos criou uma obra em que o elemento popular se confunde sempre com a tradição européia e recria uma ordem sob o signo do confuso e labiríntico – aliás termos usados para qualificar outro grande conhecedor da América Latina, o cineasta Glauber Rocha.

A imagem do herói errante, solidário, mas guerreiro, acabou entrando com força no pensamento latino-americano. Não resta dúvida de que algumas interpretações do cangaço brasileiro, por exemplo, devem muito à figura de Martin Fierro. Do mesmo jeito, Che Guevara, talvez o herói por excelência da região, também é interpretado a partir de uma imagem notavelmente extraída do poema de Hernandez.

Enfim, mais do que desfazer o equívoco do par “civilização x barbárie”, o Martin Fierro colocou um peso forte na balança, fazendo-a de novo se equilibrar. A questão continuou no foco do pensamento latino-americano: uma das principais revistas modernistas da Argentina, por exemplo, foi batizada com o mesmo nome do poema. Enfim, muito do que nos constitui surgiu sob o signo de uma crise. Para compreende-la e possivelmente ultrapassa-la – o que já faremos com atraso – será preciso mergulhar no seu âmago. É esse o compromisso do nosso próximo encontro!

Ricardo Lísias, 31 anos, é mestre em Literatura e História pela Unicamp e doutor em Literatura Brasileira pela USP. É escritor, ensaísta e professor. Escreveu, entre outros títulos, os romances Cobertor de Estrelas (Rocco, 1999), Dos Nervos (Hedra, 2004) e Duas Praças (Globo, 2005).



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