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Tapetes sobre ataques de 11 de setembro irritam Nova York
Corey Kilgannon
Do New York Times
20/12/2003 | 18:18
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Uma série de tapetes produzidos artesanalmente na Ásia está causando polêmica entre os freqüentadores do tradicional mercado de pulgas no East Village, em Nova York. Diversos deles, em um estilo normalmente reservado para cenários ou símbolos tribais abstratos, mostram uma cruel interpretação do ataque de 11 de setembro de 2001 contra o World Trade Center.

Entre os improváveis compradores ouvidos pela reportagem estava Ed Cutting, um bombeiro de Nova York. O denso tapete entrelaçado que ele observava mostrava dois jatos comerciais se chocando contra dois prédios altos, criando grandes explosões, e pequenas figuras humanas pulando do alto dos prédios. "É nojento", disse Cutting.

Os tapetes claramente não impressionaram Cutting, mesmo quando informado que foram entrelaçados por tribos do centro da Ásia, e que a cena das torres gêmeas levou mais de um mês para ser feita. "Eu não quero saber quem os fez ou de onde eles são", disse Cutting. "Isso não deveria ser permitido. Eu acredito na liberdade de expressão, mas há uma coisa chamada auto-censura", afirmou.

Ele disse que estava na base dos prédios no dia 11 de setembro, esperando uma ordem para entrar, e depois passou quase um ano procurando seus amigos na pilha de escombros do marco zero. "Eu tinha 343 colegas que morreram lá", contou.

O homem que vendia os tapetes, Kevin Sudeith, 38 anos, do Queens, afirmou que muitos clientes do mercado consideraram os tapetes simpáticos aos Estados Unidos. Ele mostrou outros modelos: uma pomba com um ramo de oliva e uma aeronave norte-americana despachando jatos.

Greg Masters, 52, um escritor que vive perto do mercado, disse: "Eu não sei dizer se essas imagens estão comemorando ou lamentando os ataques. Eles são ambígüos. É uma espécie de kitsch do 11 de setembro?". Por US$ 150 cada, os tapetes do 11/9 são os produtos mais baratos de Sudeith. Pedidos do mundo inteiro (bem como irritadas mensagens de e-mail) têm sido numerosos em seu site, www.warrug.com.

Mesmo assim, afirmou, ele ainda não vendeu nenhum alusivo ao 11/09 nas ruas de Nova York. "Eu acho que os nova-iorquinos ainda não estão prontos para isso", disse. Masters afirmou que não compraria nenhum. "Muitos de nós ainda tentam entender os ataques", disse. "Ainda temos uma ferida. Essa é a primeira expressão artística do 11/09 que eu vejo. Como nova-iorquino, é pacífico porque é uma visão infantil de um evento violento".

Desde 1996, Sudeith vende os chamados tapetes de guerra, que surgiram na década de 80 durante a ocupação soviética do Afeganistão. Em vez de desenhar camelos, frangos ou jarras de água, muitos artistas começaram a documentar a destruição da guerra criando imagens de rifles Kalashnikov, tanques russos e jatos MIG. O negócio cresceu após os atentados devido ao crescente interesse pelo Afeganistão.

Sudeith começou a receber os tapetes do 11/9 de um negociador de tapetes do Paquistão, em North Bergen, New Jersey. Ele também os oferece em um mercado no Brooklyn. Um cliente, Luis Jimenez, 63, escultor do Novo México, disse ver uma mensagem simpática nos tapetes, mas acrescentou que "essas peças foram feitas no mesmo lugar onde os terroristas foram treinados". "Fico impressionado em ver como esses eventos se integraram à arte folclórica", afirmou. "Eles já são uma forma de arte". Não para Cutting, que foi entrevistado enquanto caminhava pela tenda dos tapetes. Ele inicialmente disse que não queria seu nome publicado, mas mudou de idéia depois de ver as tapeçarias.




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