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‘Gaijin’: mais da diáspora japonesa


Cássio Gomes Neves
Do Diário do Grande ABC

02/09/2005 | 08:12


Como costuma acontecer com quase tudo no cinema brasileiro, Gaijin – Ama-me como Sou demorou a sair do papel. A propósito, demorou mais que a parcela majoritária da produção nacional, porque o filme é a materialização de um desejo que a diretora Tizuka Yamasaki nutre há mais de duas décadas: prolongar em uma seqüência o relato pessoal-histórico de Gaijin – Os Caminhos da Liberdade (1980), filme que a lançou no ofício da direção. Finalmente, anos depois e com o currículo de Tizuka inflado por filmes para Xuxa (Popstar, Lua de Cristal) e para Renato Aragão (Noviço Rebelde), Gaijin 2 chega ao circuito comercial, com três salas da região no pacote de lançamento. Anunciado como furacão, chegou como brisa.

O longa-metragem levou quatro Kikito em Gramado – filme, direção, música (para Egberto Gismonti) e atriz coadjuvante (Aya Ono) – e se aproximou da ovação do primeiro Gaijin que, no mesmo festival, há 25 anos, conquistou cinco prêmios. Era para tanto? Festival enche a barriga do cinema, técnica e esteticamente falando? Não. O filme em si é que deve ser a tal ambrosia do cinema.

Então, vamos a ele: Gaijin – Ama-me como Sou tem ponto de partida interessantíssimo, ao concentrar-se em uma imigrante que deixa o Japão natal em 1908 em direção ao Brasil, até seu retorno para o Oriente, nos anos 90. Nesse meio tempo, Titoe, a imigrante em questão, experimenta em Londrina (PR) as conseqüências da diáspora japonesa nos primeiros anos do século passado, do crash econômico de 1929, do preconceito que a Segunda Guerra impôs aos japoneses emigrados, a asfixia econômica do Plano Collor, a situação dos dekassegui (brasileiros que se submetem a empregos temporários no Japão) e suas dificuldades correlatas...

Na condição de franja dessa tapeçaria histórica, uma tragédia familiar recorrente: as mulheres da família tendem à auto-suficiência por ocasião das mortes precoces de seus maridos. Assim foi com a pioneira Titoe (interpretada por Kyoko Tsukamoto na idade adulta e, na maturidade, por Aya Ono, uma feirante de 77 anos em seu primeiro papel no cinema e carismática como poucos); assim foi com Shinobu (Nobu McCarthy), filha de Titoe; e tudo indica que assim será com Maria (Tamlyn Tomita) e com Yoko (Lissa Diniz), respectivamente neta e bisneta da matriarca.

Existe um elemento em Gaijin 2 presente também no recente Casa de Areia, de Andrucha Waddington, e que promove toda a combustão narrativa de ambos os filmes: o estabelecimento da mulher como modelo do sacode-a-poeira nacional; por sua condição de minoria numa sociedade patriarcal e as humilhações a isso associadas, suas vitórias finais são infinitamente mais gratificantes. Em Gaijin 2, importa menos a condição de imigrante de Titoe (expressa na promessa da protagonista junto aos pais de um dia voltar ao Japão) que sua condição de fêmea, de mulher. E aqui a atuação de parteira da personagem, com mais de 8 mil nascimentos nas costas, é fundamental para tal caracterização. Uma função específica, de mulher para mulher – sem querer plagiar slogan de ninguém.

É quando Gaijin 2 aposta nessa preservação da feminilidade que transparecem os momentos menos frustrantes do filme. Agora, quando o assunto é a personalização da história mundial, a obra de Tizuka desliza feito gelo no mármore.

Existe uma narração em off, feita pelo neto de Titoe, Kazumi (Kissei Kumamoto), que localiza os eventos da narrativa na cronologia histórica. É evidente que Tizuka procurou abrasileirar o drama histórico que não é especialidade nossa e peca por acreditar que boa história faz verão sozinha. Frustra por não implantar ousadia alguma e sequer cumprir os ditames do gênero – exemplo são algumas das performances dramáticas, situadas abaixo da linha do teatro amador. Elementos que procuram (e falham) compensar o descrédito da imagem em Gaijin 2, estéril para além da simples exposição dos fatos narrados. Enfim, entra para a história como um documento pessoal da cineasta, porto-alegrense descendente de imigrantes japoneses.

Gaijin – Ama-me como Sou – (Brasil, 2005). Dir.: Tizuka Yamasaki. Com Aya Ono, Nobu McCarthy, Kyoko Tsukamoto, Jorge Perugorría, Tamlyn Tomita, Lissa Diniz, Kissei Kumamoto. Estréia nesta sexta-feira no ABC Plaza 8, Extra Anchieta 8, Mauá Plaza 3 e circuito. Censura: 14 anos.



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‘Gaijin’: mais da diáspora japonesa

Cássio Gomes Neves
Do Diário do Grande ABC

02/09/2005 | 08:12


Como costuma acontecer com quase tudo no cinema brasileiro, Gaijin – Ama-me como Sou demorou a sair do papel. A propósito, demorou mais que a parcela majoritária da produção nacional, porque o filme é a materialização de um desejo que a diretora Tizuka Yamasaki nutre há mais de duas décadas: prolongar em uma seqüência o relato pessoal-histórico de Gaijin – Os Caminhos da Liberdade (1980), filme que a lançou no ofício da direção. Finalmente, anos depois e com o currículo de Tizuka inflado por filmes para Xuxa (Popstar, Lua de Cristal) e para Renato Aragão (Noviço Rebelde), Gaijin 2 chega ao circuito comercial, com três salas da região no pacote de lançamento. Anunciado como furacão, chegou como brisa.

O longa-metragem levou quatro Kikito em Gramado – filme, direção, música (para Egberto Gismonti) e atriz coadjuvante (Aya Ono) – e se aproximou da ovação do primeiro Gaijin que, no mesmo festival, há 25 anos, conquistou cinco prêmios. Era para tanto? Festival enche a barriga do cinema, técnica e esteticamente falando? Não. O filme em si é que deve ser a tal ambrosia do cinema.

Então, vamos a ele: Gaijin – Ama-me como Sou tem ponto de partida interessantíssimo, ao concentrar-se em uma imigrante que deixa o Japão natal em 1908 em direção ao Brasil, até seu retorno para o Oriente, nos anos 90. Nesse meio tempo, Titoe, a imigrante em questão, experimenta em Londrina (PR) as conseqüências da diáspora japonesa nos primeiros anos do século passado, do crash econômico de 1929, do preconceito que a Segunda Guerra impôs aos japoneses emigrados, a asfixia econômica do Plano Collor, a situação dos dekassegui (brasileiros que se submetem a empregos temporários no Japão) e suas dificuldades correlatas...

Na condição de franja dessa tapeçaria histórica, uma tragédia familiar recorrente: as mulheres da família tendem à auto-suficiência por ocasião das mortes precoces de seus maridos. Assim foi com a pioneira Titoe (interpretada por Kyoko Tsukamoto na idade adulta e, na maturidade, por Aya Ono, uma feirante de 77 anos em seu primeiro papel no cinema e carismática como poucos); assim foi com Shinobu (Nobu McCarthy), filha de Titoe; e tudo indica que assim será com Maria (Tamlyn Tomita) e com Yoko (Lissa Diniz), respectivamente neta e bisneta da matriarca.

Existe um elemento em Gaijin 2 presente também no recente Casa de Areia, de Andrucha Waddington, e que promove toda a combustão narrativa de ambos os filmes: o estabelecimento da mulher como modelo do sacode-a-poeira nacional; por sua condição de minoria numa sociedade patriarcal e as humilhações a isso associadas, suas vitórias finais são infinitamente mais gratificantes. Em Gaijin 2, importa menos a condição de imigrante de Titoe (expressa na promessa da protagonista junto aos pais de um dia voltar ao Japão) que sua condição de fêmea, de mulher. E aqui a atuação de parteira da personagem, com mais de 8 mil nascimentos nas costas, é fundamental para tal caracterização. Uma função específica, de mulher para mulher – sem querer plagiar slogan de ninguém.

É quando Gaijin 2 aposta nessa preservação da feminilidade que transparecem os momentos menos frustrantes do filme. Agora, quando o assunto é a personalização da história mundial, a obra de Tizuka desliza feito gelo no mármore.

Existe uma narração em off, feita pelo neto de Titoe, Kazumi (Kissei Kumamoto), que localiza os eventos da narrativa na cronologia histórica. É evidente que Tizuka procurou abrasileirar o drama histórico que não é especialidade nossa e peca por acreditar que boa história faz verão sozinha. Frustra por não implantar ousadia alguma e sequer cumprir os ditames do gênero – exemplo são algumas das performances dramáticas, situadas abaixo da linha do teatro amador. Elementos que procuram (e falham) compensar o descrédito da imagem em Gaijin 2, estéril para além da simples exposição dos fatos narrados. Enfim, entra para a história como um documento pessoal da cineasta, porto-alegrense descendente de imigrantes japoneses.

Gaijin – Ama-me como Sou – (Brasil, 2005). Dir.: Tizuka Yamasaki. Com Aya Ono, Nobu McCarthy, Kyoko Tsukamoto, Jorge Perugorría, Tamlyn Tomita, Lissa Diniz, Kissei Kumamoto. Estréia nesta sexta-feira no ABC Plaza 8, Extra Anchieta 8, Mauá Plaza 3 e circuito. Censura: 14 anos.

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