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Bela entre as feras

Longa 'Lua Nova' é cinema ruim que deve fazer
história; mais de 100 mil ingressos já foram vendidos



20/11/2009 | 07:00


Vamos direto ao ponto - sob certos (múltiplos) aspectos, Lua Nova, que estreia hoje em 602 salas de todo o País (15 delas na região), é horrível como 2012, que estreou na sexta passada. A dramaturgia do filme do alemão Roland Emmerich é o que Hollywood tem de mais raso.

Resumindo - trata-se de uma saga familiar, discutindo a autoridade (do pai) e na qual o mundo quase acaba para que uma menininha resolva seu problema de fazer xixi na cama. Mas os efeitos são tão impressionantes que - Deus nos livre - só mesmo o apocalipse real, antecipado pelos maias em seu calendário para daqui a três anos, poderá sobrepujar a fantasia de horror proposta pelo cinema. O mundo não acaba em Lua Nova, mas, para Bella, ser abandonada por Edward Cullen é pior que isso.

Você pode nem estar ligado no saga Crepúsculo, mas com certeza já ouviu falar que se trata de um fenômeno. A série de livros de Stephenie Meyers virou o hit entre adolescentes do mundo todo.

Crepúsculo foi um grande sucesso sem investimentos exagerados, até porque foi feito por uma empresa produtora independente, a Summit, depois que a major Warner não se interessou pelo projeto. Com Lua Nova, já houve mais investimento, não apenas na produção, com efeitos mais caros - tudo o que envolve os lobisomens -, mas também no lançamento.

O filme começa a ser exibido à meia-noite de hoje. Antecipadamente, mais de 100 mil ingressos foram vendidos para o primeiro fim de semana na rede Cinemark. Assistir a Lua Nova em meio a uma plateia de adolescentes é uma experiência e tanto. As garotas, principalmente, se descontrolam.

Logo no começo, Bella chega à escola em sua velha caminhonete. Ela conversa com colegas. Entra em cena o carro do ‘gostoso' - isto é, Edward, o doce vampiro.

O diretor Chris Weitz adota o ponto de vista da garota. Edward desce do carro e avança em direção a ela. Weitz desacelera o movimento, cria um efeito de câmera (meio) lenta. Edward caminha como quem balança o corpo, como James Dean caminhava ao encarnar a rebeldia da juventude nos anos 1950.

Mais tarde, Edward desapareceu - Bella pensa que ele a abandonou por não gostar mais dela - e aí é a vez do amigo Jacob tirar a camisa e exibir os bíceps reforçados. Esse desenvolvimento muscular tem razão de ser, mas Bella ainda não sabe.

O importante é o impacto da primeira cena de Jake sem camisa, que leva as garotas - e os garotos, alguns por desejo, outros porque gostariam de ser ele - a uma explosão de histeria.

Nada disso prepara o espectador mais adulto para o que ocorre no desfecho. O filme termina com uma pergunta de Edward a Bella, que o diretor corta antes da resposta, que fica para o próximo exemplar da série, Eclipse. Houve pandemônio na pré-estreia na quarta-feira à noite, no Cinemark Eldorado. As garotas levantaram-se das poltronas, aplaudiram, pularam, choraram.

É a vitória do romantismo. Lua Nova não é só romântico - é exageradamente romântico.

Kristen Stewart, a Bella, disse que Lua Nova não tem nada a ver com as velhas perversões dos filmes de vampiros. O filme retorna a Romeu e Julieta, cujos versos o Romeu das trevas recita de forma lânguida.

Edward é o vampiro que não beija o pescoço da amada, não lhe suga o sangue. Sua atração sobre as plateias femininas vem disso. Apesar dos símbolos fálicos presentes ao longo do filme, Edward nem Jake concretizam as fantasias de sexo de quem quer que seja, incluindo as próprias.

Lua Nova é um permanente coito interrompido. A pergunta final do herói fornece a chave para o que ele pretende - comprometimento. Edward não é um vampiro tradicional. É o príncipe encantado, daí as reações que ele (ainda) provoca.

Lua Nova pode ser ruim como cinema. Não importa. É um fenômeno. Nasceu com a vocação de cult e, isso sim, para seu público, é o que conta.



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