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Ibrahim Ferrer morre em Cuba


Gislaine Gutierre
Do Diário do Grande ABC
Com Agências

08/08/2005 | 08:28


Uma das vozes mais famosas e queridas de Cuba calou-se para sempre na noite de sábado. Eram 17h20 (19h20 no horário de Brasília) quando morreu, no Centro de Pesquisas Médico-Cirúrgicas (Cimeq) de um hospital em Havana, Ibrahim Ferrer, um dos integrantes do grupo Buena Vista Social Club. O cantor, de 78 anos, estava internado há alguns dias com sintomas de gastroenterite. O enterro será realizado hoje e ontem ocorreria o velório em Havana.

A notícia foi dada por sua mulher, Caridad Díaz. "Ele foi uma pessoa muito digna, de admirar, não apenas como músico, mas como pai e marido (...) Estamos muito abalados", afirmou. Ela disse, ainda, que Ferrer havia acabado de chegar de uma turnê de sucesso de um mês pela Europa, incluindo Holanda, Suíça, França, Espanha, Áustria e Grã-Bretanha.

Seu empresário, Daniel Florestan, confirmou que Ferrer já chegou doente à sua terra natal, na última quarta-feira: "Quando voltou de viagem, ele foi internado no hospital e sua condição se agravou. Ele morreu de falência múltipla de órgãos", disse. O enterro foi marcado para hoje para que o filho do cantor, que mora na Argentina, pudesse comparecer.

Ferrer, que em junho do ano passado contabilizava cinco filhos, 15 netos, cinco bisnetos e três cachorros, nasceu em 20 de fevereiro de 1927 no meio de um salão de baile em Santiago de Cuba, quando sua mãe entrou em um trabalho de parto inesperado. Quando menino, quase morreu de tétano. Sonhava em ser médico, mas com a morte da mãe, quando tinha 12 anos de idade, passou a vender caramelos nas ruas.

Com um primo, montou uma banda chamada Los Jovenes del Son, para tocar em festas de bairro. Seu primeiro sucesso ocorreu em 1955, quando gravou com a orquestra mais popular de Santiago, Chépin-Choven, o disco El Platanar Del Bartolo. O trabalho fez sucesso dentro e fora da ilha, mas infelizmente o material saiu sem seu nome nos créditos. À época, ficou chateado, mas resignou-se: ao menos a música provou ser popular.

As grandes mudanças vieram após sua mudança para Havana, em 1957. Além de tocar com o prestigiado Beny Moré, integrou a banda los Bocucos, de Pacho Alonso, onde cantava guarachas e sons. Pertencia ao universo do bolero. "Mas sempre me diziam que eu não era suficientemente bom, que minha voz só era adequada para canções de baile".

Sentido querido pelo público, mas sabotado pelos colegas de banda, Ferrer começou a ficar desestimulado. Com a banda, até chegou a fazer uma turnê por países socialistas em 1962 e sentou-se ao lado do primeiro-ministro soviético, Nikita Kruschev, em plena crise dos mísseis – embora nem tivesse idéia do que estava acontecendo.

O ápice de seu descontentamento foi quando emplacou, na TV cubana, a música La História de Benetín, que seus colegas classificaram como uma "imundície". "Essa decepção me marcou para sempre. Depois disso, perdi meu entusiasmo pela música". Ferrer deixou los Bocucos em 1991, aliviado. Passou a viver de engraxar sapatos e vender loterias.

Estrelato – Até que um dia bateu à sua porta o produtor Juan de Marcos González. A pedido de Ry Cooder, procurava uma voz cálida para formar o Buena Vista Social Club, grupo composto pela nobre velha guarda da música cubana. A princípio, relutou em acompanhá-lo até o estúdio Egrem, em Havana.

Ao chegar, porém, ficou surpreso: lá estavam Compay Segundo, Rubén González, e um time de feras que ele sempre admirou. Quando interpretou Dos Gardênias, estavam todos convictos de que ele era a pessoa certa. E assim tornou-se um ícone da música cubana, dentro e fora da ilha.

A carreira solo também foi marcada por êxitos. Vendeu 1,5 milhão de cópias de seu primeiro álbum, Buena Vista Social Club Apresenta Ibrahim Ferrer, e ganhou um Grammy com Buenos Hermanos, prêmio que não pôde receber porque os Estados Unidos negaram seu visto.

Foi com Buenos Hermanos que Ferrer veio se apresentar no Brasil, em junho do ano passado. Durante entrevista coletiva realizada em São Paulo, à época, disse orgulhoso que "a juventude cubana não bailava mais, não cantava", mas que depois do sucesso do Buena Vista, os jovens voltaram a apreciar o son. "Em toda esquina hoje se vê alguém tocando a música tradicional cubana".

Ele também comentou sobre a varinha que trazia consigo, uma espécie de amuleto que ganhara da mãe e com a qual posou para fotos ao lado de Che Guevara, no pequeno povoado de Moa. Ferrer estava desolado porque perdeu seu precioso objeto em uma viagem de Quito (Equador) a Barcelona, com escala em Madrid (Espanha). No site de seu empresário, havia um apelo para que a devolvessem, o que nunca ocorreu.

Ferrer também estava preparando um disco novo, só de boleros. E foi justamente esse repertório que ele havia começado a trabalhar nos palcos da Europa.



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Ibrahim Ferrer morre em Cuba

Gislaine Gutierre
Do Diário do Grande ABC
Com Agências

08/08/2005 | 08:28


Uma das vozes mais famosas e queridas de Cuba calou-se para sempre na noite de sábado. Eram 17h20 (19h20 no horário de Brasília) quando morreu, no Centro de Pesquisas Médico-Cirúrgicas (Cimeq) de um hospital em Havana, Ibrahim Ferrer, um dos integrantes do grupo Buena Vista Social Club. O cantor, de 78 anos, estava internado há alguns dias com sintomas de gastroenterite. O enterro será realizado hoje e ontem ocorreria o velório em Havana.

A notícia foi dada por sua mulher, Caridad Díaz. "Ele foi uma pessoa muito digna, de admirar, não apenas como músico, mas como pai e marido (...) Estamos muito abalados", afirmou. Ela disse, ainda, que Ferrer havia acabado de chegar de uma turnê de sucesso de um mês pela Europa, incluindo Holanda, Suíça, França, Espanha, Áustria e Grã-Bretanha.

Seu empresário, Daniel Florestan, confirmou que Ferrer já chegou doente à sua terra natal, na última quarta-feira: "Quando voltou de viagem, ele foi internado no hospital e sua condição se agravou. Ele morreu de falência múltipla de órgãos", disse. O enterro foi marcado para hoje para que o filho do cantor, que mora na Argentina, pudesse comparecer.

Ferrer, que em junho do ano passado contabilizava cinco filhos, 15 netos, cinco bisnetos e três cachorros, nasceu em 20 de fevereiro de 1927 no meio de um salão de baile em Santiago de Cuba, quando sua mãe entrou em um trabalho de parto inesperado. Quando menino, quase morreu de tétano. Sonhava em ser médico, mas com a morte da mãe, quando tinha 12 anos de idade, passou a vender caramelos nas ruas.

Com um primo, montou uma banda chamada Los Jovenes del Son, para tocar em festas de bairro. Seu primeiro sucesso ocorreu em 1955, quando gravou com a orquestra mais popular de Santiago, Chépin-Choven, o disco El Platanar Del Bartolo. O trabalho fez sucesso dentro e fora da ilha, mas infelizmente o material saiu sem seu nome nos créditos. À época, ficou chateado, mas resignou-se: ao menos a música provou ser popular.

As grandes mudanças vieram após sua mudança para Havana, em 1957. Além de tocar com o prestigiado Beny Moré, integrou a banda los Bocucos, de Pacho Alonso, onde cantava guarachas e sons. Pertencia ao universo do bolero. "Mas sempre me diziam que eu não era suficientemente bom, que minha voz só era adequada para canções de baile".

Sentido querido pelo público, mas sabotado pelos colegas de banda, Ferrer começou a ficar desestimulado. Com a banda, até chegou a fazer uma turnê por países socialistas em 1962 e sentou-se ao lado do primeiro-ministro soviético, Nikita Kruschev, em plena crise dos mísseis – embora nem tivesse idéia do que estava acontecendo.

O ápice de seu descontentamento foi quando emplacou, na TV cubana, a música La História de Benetín, que seus colegas classificaram como uma "imundície". "Essa decepção me marcou para sempre. Depois disso, perdi meu entusiasmo pela música". Ferrer deixou los Bocucos em 1991, aliviado. Passou a viver de engraxar sapatos e vender loterias.

Estrelato – Até que um dia bateu à sua porta o produtor Juan de Marcos González. A pedido de Ry Cooder, procurava uma voz cálida para formar o Buena Vista Social Club, grupo composto pela nobre velha guarda da música cubana. A princípio, relutou em acompanhá-lo até o estúdio Egrem, em Havana.

Ao chegar, porém, ficou surpreso: lá estavam Compay Segundo, Rubén González, e um time de feras que ele sempre admirou. Quando interpretou Dos Gardênias, estavam todos convictos de que ele era a pessoa certa. E assim tornou-se um ícone da música cubana, dentro e fora da ilha.

A carreira solo também foi marcada por êxitos. Vendeu 1,5 milhão de cópias de seu primeiro álbum, Buena Vista Social Club Apresenta Ibrahim Ferrer, e ganhou um Grammy com Buenos Hermanos, prêmio que não pôde receber porque os Estados Unidos negaram seu visto.

Foi com Buenos Hermanos que Ferrer veio se apresentar no Brasil, em junho do ano passado. Durante entrevista coletiva realizada em São Paulo, à época, disse orgulhoso que "a juventude cubana não bailava mais, não cantava", mas que depois do sucesso do Buena Vista, os jovens voltaram a apreciar o son. "Em toda esquina hoje se vê alguém tocando a música tradicional cubana".

Ele também comentou sobre a varinha que trazia consigo, uma espécie de amuleto que ganhara da mãe e com a qual posou para fotos ao lado de Che Guevara, no pequeno povoado de Moa. Ferrer estava desolado porque perdeu seu precioso objeto em uma viagem de Quito (Equador) a Barcelona, com escala em Madrid (Espanha). No site de seu empresário, havia um apelo para que a devolvessem, o que nunca ocorreu.

Ferrer também estava preparando um disco novo, só de boleros. E foi justamente esse repertório que ele havia começado a trabalhar nos palcos da Europa.

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