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Chet Baker: o louco por trás do trompete


João Marcos Coelho
Especial para o Diário

25/11/2001 | 18:03


Em seus cem anos de vida, o jazz cultivou o estereótipo do artista maldito como seu modelo. Os exemplos mais perfeitos desse estigma são sem dúvida Charlie Bird Parker e Chet Baker. Quando os dois tocaram juntos – e isso aconteceu no início dos anos 50, por breves meses –, rolou tanta droga que Parker acabou dormindo com o cigarro aceso e incendiou o colchão e seu quarto de hotel. No quarto ao lado, chapado de maconha e heroína, estava Baker. Claro, nem todos os grandes músicos de jazz foram junkies, viciados em drogas (Dizzy Gillespie, por exemplo, sempre foi absolutamente limpo). Mas, naqueles loucos anos 50, era difícil resistir. A espiral era clara: grandes improvisadores entregavam-se às drogas de todo calibre e, de mazela em mazela, acabaram autodestruídos. É o que conta o próprio trompetista Chet Baker (1929-1988) em Memórias Perdidas, que a Zahar em boa hora coloca nas livrarias em ótima tradução de Luiz Orlando Carneiro.

Na realidade, as memórias – originalmente publicadas há apenas quatro anos nos Estados Unidos – dedicam mais espaço às trips (viagens) alucinógenas do que propriamente à música. Mas ajudam a entender o músico capaz de uma entonação tão límpida ao trompete, sutil e refinado a ponto de jamais emitir um fortíssimo, dono de uma maneira especialíssima de cantar, tão hesitante e fluida quanto seu trompete. Um contraste absoluto com sua vida (“fiquei tão chapado”, diz ele às tantas, “que acordei no dia seguinte com um monte de baratas passeando em meu corpo”). A música era seu nirvana – era por intermédio da droga que ele tentava inconscientemente reproduzir os momentos raros de criação musical. É uma explicação, porém incompleta e vaga como a própria figura de Chet Baker.

Bossa nova – Que o Jazz West Coast, florescido na passagem dos anos 40 e 50 na Califórnia, foi determinante para as bases da bossa nova de Tom Jobim, ninguém duvida. Chet Baker, ao lado do sax-barítono Gerry Mulligan, Shorty Rogers, Monte Budwig, Art Pepper, Shelly Manne e muitos outros, fez o som da west coast – e depois influenciou com sua maneira de cantar João Gilberto e Caetano Veloso, para ficar somente nos mais conhecidos.

Na gíria norte-americana atual, cool é sinônimo de legal, ótimo. Cool foi a música genial de Baker, contraposta à vida atormentada. Estas memórias cobrem um período de vinte anos, entre os anos 50 e o final dos anos 70. A leitura fácil – o livrinho tem apenas 128 páginas em formato pequeno e pode ser lido rapidamente – contrasta com os elementos trágicos da vida deste notável músico. Os namoros com a droga, da maconha à heroína e à cocaína; as dezenas de prisões nos Estados Unidos, França, Itália e muitos outros países; a surra que levou em 1968 que lhe arrancou todos os dentes; o roubo de seu trompete, em 1962, num clube de Paris, e o flugelhorn à mão que se transformou em seu instrumento pelos oito anos seguintes (o flugelhorn é um a espécie de trompete avantajado, como diz Luiz Orlando Carneiro, de som mais encorpado). Estas são algumas passagens das memórias, que devem ser lidas, de preferência, com um fundo musical especial: as gravações de Baker.

Aqui vai uma escolha pessoal: a caixa com quatro CDs da Pacific Jazz, de 1994, que reúne todas as gravações do mais célebre grupo de Baker, o Mulligan pianoless quartet, o quarteto sem piano em que o sax-barítono de Mulligan fazia delicados arabescos com o trompete de Baker; e Once Upon a Summertime, onde Baker canta maravilhosamente.

Nos anos 80, Baker tocou no Rio de Janeiro, em um Festival de Jazz no Hotel Nacional. Sua figura dava pena. Totalmente desdentado (impossível imaginar como fazia para tocar trompete), magro como um cão sarnento, seu rosto muito encovado era o oposto de suas fotos dos anos 50, com um topete à la Elvis e ar muito semelhante ao de James Dean, o ícone daquela década.

Sandálias franciscano, sentou-se numa cadeira simples e, de pernas cruzadas, começou a tocar, secundado por uma cretina seção rítmica formada por músicos brasileiros. Não lembro o nome do baterista, que de qualquer jeito não merece ser mencionado. O imbecil fazia um barulho ensurdecedor – e logo para acompanhar o mais sutil dos trompetistas, o mais cool, justamente aquele que melhor soube explorar a dinâmica – mezzoforte até o pianissimo.

Uma pena. Baker tocava, nem queria saber quem estava no palco com ele. Chapado, parecia voar só alma, por sobre este mundo terrível. Nas memórias, quando tocou com Parker, ele usa a expressão “voar” para caracterizar a música incendiária do maior gênio do jazz moderno. Pois ele também voou, só que para a morte, em 1988, do segundo andar de um hotelzinho na Dinamarca. Vida e destino trágicos – e um legado musical fascinante, que ainda hoje soa atual e moderno.



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Chet Baker: o louco por trás do trompete

João Marcos Coelho
Especial para o Diário

25/11/2001 | 18:03


Em seus cem anos de vida, o jazz cultivou o estereótipo do artista maldito como seu modelo. Os exemplos mais perfeitos desse estigma são sem dúvida Charlie Bird Parker e Chet Baker. Quando os dois tocaram juntos – e isso aconteceu no início dos anos 50, por breves meses –, rolou tanta droga que Parker acabou dormindo com o cigarro aceso e incendiou o colchão e seu quarto de hotel. No quarto ao lado, chapado de maconha e heroína, estava Baker. Claro, nem todos os grandes músicos de jazz foram junkies, viciados em drogas (Dizzy Gillespie, por exemplo, sempre foi absolutamente limpo). Mas, naqueles loucos anos 50, era difícil resistir. A espiral era clara: grandes improvisadores entregavam-se às drogas de todo calibre e, de mazela em mazela, acabaram autodestruídos. É o que conta o próprio trompetista Chet Baker (1929-1988) em Memórias Perdidas, que a Zahar em boa hora coloca nas livrarias em ótima tradução de Luiz Orlando Carneiro.

Na realidade, as memórias – originalmente publicadas há apenas quatro anos nos Estados Unidos – dedicam mais espaço às trips (viagens) alucinógenas do que propriamente à música. Mas ajudam a entender o músico capaz de uma entonação tão límpida ao trompete, sutil e refinado a ponto de jamais emitir um fortíssimo, dono de uma maneira especialíssima de cantar, tão hesitante e fluida quanto seu trompete. Um contraste absoluto com sua vida (“fiquei tão chapado”, diz ele às tantas, “que acordei no dia seguinte com um monte de baratas passeando em meu corpo”). A música era seu nirvana – era por intermédio da droga que ele tentava inconscientemente reproduzir os momentos raros de criação musical. É uma explicação, porém incompleta e vaga como a própria figura de Chet Baker.

Bossa nova – Que o Jazz West Coast, florescido na passagem dos anos 40 e 50 na Califórnia, foi determinante para as bases da bossa nova de Tom Jobim, ninguém duvida. Chet Baker, ao lado do sax-barítono Gerry Mulligan, Shorty Rogers, Monte Budwig, Art Pepper, Shelly Manne e muitos outros, fez o som da west coast – e depois influenciou com sua maneira de cantar João Gilberto e Caetano Veloso, para ficar somente nos mais conhecidos.

Na gíria norte-americana atual, cool é sinônimo de legal, ótimo. Cool foi a música genial de Baker, contraposta à vida atormentada. Estas memórias cobrem um período de vinte anos, entre os anos 50 e o final dos anos 70. A leitura fácil – o livrinho tem apenas 128 páginas em formato pequeno e pode ser lido rapidamente – contrasta com os elementos trágicos da vida deste notável músico. Os namoros com a droga, da maconha à heroína e à cocaína; as dezenas de prisões nos Estados Unidos, França, Itália e muitos outros países; a surra que levou em 1968 que lhe arrancou todos os dentes; o roubo de seu trompete, em 1962, num clube de Paris, e o flugelhorn à mão que se transformou em seu instrumento pelos oito anos seguintes (o flugelhorn é um a espécie de trompete avantajado, como diz Luiz Orlando Carneiro, de som mais encorpado). Estas são algumas passagens das memórias, que devem ser lidas, de preferência, com um fundo musical especial: as gravações de Baker.

Aqui vai uma escolha pessoal: a caixa com quatro CDs da Pacific Jazz, de 1994, que reúne todas as gravações do mais célebre grupo de Baker, o Mulligan pianoless quartet, o quarteto sem piano em que o sax-barítono de Mulligan fazia delicados arabescos com o trompete de Baker; e Once Upon a Summertime, onde Baker canta maravilhosamente.

Nos anos 80, Baker tocou no Rio de Janeiro, em um Festival de Jazz no Hotel Nacional. Sua figura dava pena. Totalmente desdentado (impossível imaginar como fazia para tocar trompete), magro como um cão sarnento, seu rosto muito encovado era o oposto de suas fotos dos anos 50, com um topete à la Elvis e ar muito semelhante ao de James Dean, o ícone daquela década.

Sandálias franciscano, sentou-se numa cadeira simples e, de pernas cruzadas, começou a tocar, secundado por uma cretina seção rítmica formada por músicos brasileiros. Não lembro o nome do baterista, que de qualquer jeito não merece ser mencionado. O imbecil fazia um barulho ensurdecedor – e logo para acompanhar o mais sutil dos trompetistas, o mais cool, justamente aquele que melhor soube explorar a dinâmica – mezzoforte até o pianissimo.

Uma pena. Baker tocava, nem queria saber quem estava no palco com ele. Chapado, parecia voar só alma, por sobre este mundo terrível. Nas memórias, quando tocou com Parker, ele usa a expressão “voar” para caracterizar a música incendiária do maior gênio do jazz moderno. Pois ele também voou, só que para a morte, em 1988, do segundo andar de um hotelzinho na Dinamarca. Vida e destino trágicos – e um legado musical fascinante, que ainda hoje soa atual e moderno.

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