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Peter Sellers tem vida e obra retratados em filme


Cássio Gomes Neves
Do Diário do Grande ABC

08/09/2005 | 08:22


Multifacetado. Houve algum outro ator, além de Peter Sellers, a ostentar tal qualificação de forma incontestável? Até existiu, mas não com a versatilidade do intérprete britânico que, se não tivesse morrido em 24 de julho de 1980 por ataque cardíaco, completaria 80 anos nesta quinta-feira. Sellers não estabeleceu padrões: primeiro, por ser inimitável em seu ofício; segundo, porque é complicado classificar seu trabalho segundo algum método que não o pessoal. De tal maneira que é a ele atribuída a seguinte frase: "Se me pedirem para representar a mim mesmo, não saberia o que fazer. Não sei quem ou o que sou".

Voltamos então à questão do multifacetado, cuja prova maior está nas duas colaborações de Sellers com Stanley Kubrick, Lolita (1962) e, sobretudo, Doutor Fantástico (1964). Em ambos, Sellers encarna mais de um personagem. Em Doutor Fantástico, vive o presidente dos Estados Unidos, um cientista nazista e um militar perdido em meio a uma guerra nuclear que opunha as potências de então (EUA e União Soviética). Não existe artifício, exceto a persuasão artística de Sellers e os respectivos figurinos, de discernimento entre um e outro personagem. Nada de máscaras ou trucagens, comuns a obras como O Professor Aloprado (com Eddie Murphy) e Austin Powers em o Homem do Membro de Ouro (com Mike Myers). Era Sellers por Sellers, e isso bastava. Sua representação para as brigas entre o nazista Doutor Strangelove e seu braço biônico – monólogos à paisana que parodiavam o Metrópolis de Fritz Lang – é inigualável.

Lolita é caso clássico de roubo de cena. Sellers, cooptado para o coadjuvante (e intrigante) Clare Quilty, desviou os holofotes de James Mason e Sue Lyon, o casal central do drama inspirado no romance de Vladimir Nabokov. Reza a lenda que Kubrick alterou o roteiro e a metragem do filme para prolongar a participação de Sellers em Lolita; e olhe que, em se tratando do diretor de Laranja Mecânica, dono de famoso egocentrismo artístico, isso é uma façanha e tanto.

Filho de pai e mãe atores na Inglaterra, nascido Richard Henry Sellers, foi mestre da interpretação, portanto incompatível com a limitação à moldura de comediante. Fazia rir, não duvide, mas com uma combinação dramática de gente grande, sem o apelo dos bordões e trejeitos de sitcom. Nesse segmento, a química com o diretor Blake Edwards formulou uma tabela periódica própria, em longas como Um Convidado Bem Trapalhão (1968) e os cinco filmes protagonizados pelo Inspetor Clouseau – entre os quais A Pantera Cor-de-rosa (1963), o primeiro, e Um Tiro no Escuro (1964), o melhor.

Papéis múltiplos também foram sua especialidade em O Rato que Ruge (1959), sátira política de Jack Arnold. Sellers, acredite, interpretou James Bond – no paródico Casino Royale (1967). E, como não poderia ser diferente, seu último papel foi memorável: o Chance de Muito Além do Jardim (1979), um sujeito que amadurece diante da TV, isolado do mundo exterior, gênese do conceito de videota.

Enfim, Sellers, um homem que levou o cinema norte-americano para além da mediocridade e da estandardização na interpretação, tal qual Hitchcock na direção. E, igual ao cineasta de Psicose, não foi reconhecido pelo Oscar, a premiação que em tese sublinha a excelência. Um homem cuja vida e obra foi recentemente perscrutada pelo diretor Stephen Hopkins e reinterpretada pelo ator Geoffrey Rush (de Shine – Brilhante) na ficção Vida e Morte de Peter Sellers, recém-lançado nas locadoras do país.



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