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Fãs brasileiros se preparam para show de despedida do RBD

Sexteto mexicano se apresenta no próximo dia 29 no Anhembi, levando legião de fãs a acampar no local


Gustavo Uribe
Especial para o Diário OnLine

19/11/2008 | 07:00


Aflitos, mas sem perder as esperanças, cerca de 380 jovens estão há dois meses acampados na frente da portaria do Centro de Eventos do Anhembi, à espera do dia em que darão adeus à banda mexicana RBD. Desde o anúncio da data do show de despedida, em 15 de agosto, os fãs vagam em romaria pelo local, carregando fotos e cartazes do grupo, em busca de bons lugares onde possam ver pela última vez juntos os seis integrantes do conjunto.

Como em um camping de férias, só que sem monitores, os tietes passam o dia demonstrando em alto e bom som o amor que nutrem pelo grupo, embalados pelas coreografias e canções da banda. "Há muita gente que nos critica, mas nós não estamos nem aí. Não somos drogados nem prostitutos. Só compartilhamos um amor em um mundo cada vez mais cheio de ódio e violência", indigna-se Mariana Correia, 17 anos. "Duvido que nossos pais não tenham feito loucuras semelhantes em sua adolescência."

A fila de barracas é organizada por um grupo que se auto-intitula "Família do Morumbi", em referência ao primeiro show da banda no Brasil (no estádio de futebol). Cada um dos fãs, interessados em conquistar um bom lugar no show - já que os lugares não são numerados-, tem o seu nome em uma lista organizada pela coordenadora do grupo, Roberta Vilarinho de Freitas, 24, que exige o cumprimento de algumas regras por parte dos tietes.

"Os fãs incluídos nas listas devem ter uma freqüência na barraca de, no mínimo, três horas por semana e são obrigados a comparecer, todos os domingos, às 15h, para a nossa reunião semanal", explica Roberta. "Mas é claro que sempre se dá um jeitinho. Caso alguém não possa atingir a meta de três horas, pode nos pagar uma quantia de R$ 20 para que outra pessoa fique em seu lugar." A coordenadora também conta que este dinheiro é usado para manter o grupo e ajudar no pagamento de seguranças no local. "É a forma de mantermos a nossa credibilidade."

Perguntada se é verídica a informação de que há o consumo de bebidas alcoólicas por menores na fila, além de um caso de uma garota de 14 anos que supostamente teria engravidado, Roberta é enfática. "Bebida eu não posso dizer que não rola, mas não é nossa obrigação disciplinar os garotos. Já relação sexual é um boato totalmente infundado. É proibido relacionamento sexual no interior das barracas", pontua.

Tudo pelos ídolos - Assim como os jovens que passam noites ao relento em nome de seus ídolos, os outros fãs da banda não poupam esforços para tirar uma lasquinha do grupo, ainda mais depois do anúncio de que o RBD vai acabar. "É agora ou nunca. Caso não consiga entrar no camarim neste último show no Brasil, comprarei ingressos para as apresentações no Chile e no Peru", revela Viviane Previde, 18, presidente em São Paulo do fã-clube Sin Limites Brasil - o mais popular da banda no país. "Se até já arrisquei minha vida por eles! Por pouco eu e minha irmã não fomos pisoteadas na sessão de autógrafos no estacionamento do Extra [em 4 de fevereiro de 2006]. Vi uma menina morta na minha frente", relatou.

Marcado para o dia 29 de novembro, no Anhembi, o último show da banda no país faz parte da turnê pela América Latina de despedida do RBD, que no próximo ano deixará de existir. "Chorei três dias seguidos e fiquei um dia sem falar com a minha mãe. Foi um desastre", conta Yohana Benedetti, 15, presidente do fã-clube Nación RBD Brasil. "Ligava para amigos, aos prantos, perguntando: E agora?".

Não conformada, Viviane e seu fã-clube organizaram uma passeata na avenida Paulista, rechaçando a resolução da produtora do grupo em acabar com a banda. "Os integrantes não queriam o fim do RBD. Não sei o que deu nos organizadores", contou, indignada. Do vão do Masp ao início da rua Brigadeiro Luis Antônio, mais de dois mil fãs protestaram aos berros a favor de um "sonho que lhes foi tirado". "Só queremos explicações", protestou.

A jovem Yohana também fez loucuras em nome do grupo. "Levantei às 2h, na véspera do show da banda no Via Funchal [em maio deste ano], só para tentar vê-los no hotel Hilton, onde o conjunto estava hospedado", conta. "Quando amanheceu, tinha uma dor terrível nos pés e estava morrendo de fome".

Junto à multidão que se acotovelava na frente do hotel, estava também Viviane que, diferente de Yohana, não tinha um pingo de fome. "Paguei um café da manhã no Hilton e aproveitei para tentar entrar no quarto dos meninos. Fui expulsa do hotel duas vezes." Era 9 de maio, véspera do Dia das Mães. "Todos nós éramos capazes de tudo pelos nossos ídolos. Se até passamos o dia 10 longe de nossas mães!", conta Yohana.

A mãe de Viviane, Eliane Previde, 43, até concorda com o amor da filha pela banda, mas o considera exagerado. "Minha mãe até deu graças a Deus quando soube do anúncio do fim da banda. Ela acredita que eu passo dos limites". Segundo Mariana, que há dois meses acampa em frente ao Anhembi, seus pais não sabem que, entre as 9h e as 16h, ela se encontra com amigos na fila, ao invés de freqüentar o colégio. "Para mim, isso é muito mais importante no momento." O mesmo acredita Roberta que, em nome dos ídolos, deixou o curso de jornalismo em uma faculdade particular de São Paulo. "Deixei o ensino superior no momento, mas não parei de trabalhar. Entro às 18h, quando acaba o meu expediente na fila, e só saio à 0h. Faço isso em nome do RBD", concluiu.

"Heróis de Areia" - Ter um ídolo, segundo a professora de hebiatria (medicina adolescente) Maria Regina de Azevedo, da Faculdade de Medicina do ABC, faz parte da síndrome da adolescência normal, ou seja, não tem nada de incomum. "Quando as figuras paterna e materna deixam de ser heróis aos adolescentes, eles recorrem a artistas ou esportistas, que norteiam as suas ações e os inspiram", explica a doutora. "É muito saudável a um jovem ter um referencial a seguir, ajudando-o a tomar decisões e contribuindo no amadurecimento de sua personalidade". Maria Regina também considera normal um adolescente reproduzir os estilos e comportamentos de seus ídolos. "Quantos pais, no auge do Chitãozinho e Xororó, cortaram o cabelo de seus filhos à la sertanejo [arrepiado na frente e comprido atrás]. É uma forma de demonstrar o seu amor por alguém", explica.

Para a médica, no entanto, tudo tem um limite. Quando o jovem perde parte de suas peculiaridades e o "seu jeito próprio de ser", os pais devem ficar de olho. "Aí não existe mais idolatria, mas fixação", alerta. "O adolescente começa a viver em um mundo paralelo, perdendo a consciência de sua realidade. Entra em um estado de alienação."

Os sintomas para esse tipo de "esquizofrenia" são a perda do interesse em praticar atividades que antes lhe eram prazerosas, a tentativa insistente de se assemelhar ao ídolo - recorrendo até mesmo à pintura de cabelo e a processos cirúrgicos -, e o pedido para que os outros o chamem pelo nome da figura amada. A médica recomenda aos pais que identificarem esses sintomas no comportamento de seus filhos que procurem um psicólogo ou uma orientação médica.

Quanto à atitude dos fãs da banda RBD em esperarem pelo show na porta do Anhembi, a médica vê com certa preocupação a idolatria dos jovens. "Por ser um grupo musical que usa o nome de personagens de uma novela teen, creio que haja a formação de heróis de areia", explica. "Ou seja, pessoas cuja personalidade verdadeira é furtada dos fãs, fazendo-os se inspirarem por algo que não existe, por ídolos imaginários".

Maria Regina alerta ainda que "adolescentes cujos ídolos são de areia, serão adultos de areia" (sem caráter bem definido), e defende maior zelo dos pais em relação aos filhos. "A relação familiar deve ser pontuada pela conversa entre pais e filhos, o que esclarece aos jovens os limites entre ser fã ou esquizofrênico", conclui.



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Fãs brasileiros se preparam para show de despedida do RBD

Sexteto mexicano se apresenta no próximo dia 29 no Anhembi, levando legião de fãs a acampar no local

Gustavo Uribe
Especial para o Diário OnLine

19/11/2008 | 07:00


Aflitos, mas sem perder as esperanças, cerca de 380 jovens estão há dois meses acampados na frente da portaria do Centro de Eventos do Anhembi, à espera do dia em que darão adeus à banda mexicana RBD. Desde o anúncio da data do show de despedida, em 15 de agosto, os fãs vagam em romaria pelo local, carregando fotos e cartazes do grupo, em busca de bons lugares onde possam ver pela última vez juntos os seis integrantes do conjunto.

Como em um camping de férias, só que sem monitores, os tietes passam o dia demonstrando em alto e bom som o amor que nutrem pelo grupo, embalados pelas coreografias e canções da banda. "Há muita gente que nos critica, mas nós não estamos nem aí. Não somos drogados nem prostitutos. Só compartilhamos um amor em um mundo cada vez mais cheio de ódio e violência", indigna-se Mariana Correia, 17 anos. "Duvido que nossos pais não tenham feito loucuras semelhantes em sua adolescência."

A fila de barracas é organizada por um grupo que se auto-intitula "Família do Morumbi", em referência ao primeiro show da banda no Brasil (no estádio de futebol). Cada um dos fãs, interessados em conquistar um bom lugar no show - já que os lugares não são numerados-, tem o seu nome em uma lista organizada pela coordenadora do grupo, Roberta Vilarinho de Freitas, 24, que exige o cumprimento de algumas regras por parte dos tietes.

"Os fãs incluídos nas listas devem ter uma freqüência na barraca de, no mínimo, três horas por semana e são obrigados a comparecer, todos os domingos, às 15h, para a nossa reunião semanal", explica Roberta. "Mas é claro que sempre se dá um jeitinho. Caso alguém não possa atingir a meta de três horas, pode nos pagar uma quantia de R$ 20 para que outra pessoa fique em seu lugar." A coordenadora também conta que este dinheiro é usado para manter o grupo e ajudar no pagamento de seguranças no local. "É a forma de mantermos a nossa credibilidade."

Perguntada se é verídica a informação de que há o consumo de bebidas alcoólicas por menores na fila, além de um caso de uma garota de 14 anos que supostamente teria engravidado, Roberta é enfática. "Bebida eu não posso dizer que não rola, mas não é nossa obrigação disciplinar os garotos. Já relação sexual é um boato totalmente infundado. É proibido relacionamento sexual no interior das barracas", pontua.

Tudo pelos ídolos - Assim como os jovens que passam noites ao relento em nome de seus ídolos, os outros fãs da banda não poupam esforços para tirar uma lasquinha do grupo, ainda mais depois do anúncio de que o RBD vai acabar. "É agora ou nunca. Caso não consiga entrar no camarim neste último show no Brasil, comprarei ingressos para as apresentações no Chile e no Peru", revela Viviane Previde, 18, presidente em São Paulo do fã-clube Sin Limites Brasil - o mais popular da banda no país. "Se até já arrisquei minha vida por eles! Por pouco eu e minha irmã não fomos pisoteadas na sessão de autógrafos no estacionamento do Extra [em 4 de fevereiro de 2006]. Vi uma menina morta na minha frente", relatou.

Marcado para o dia 29 de novembro, no Anhembi, o último show da banda no país faz parte da turnê pela América Latina de despedida do RBD, que no próximo ano deixará de existir. "Chorei três dias seguidos e fiquei um dia sem falar com a minha mãe. Foi um desastre", conta Yohana Benedetti, 15, presidente do fã-clube Nación RBD Brasil. "Ligava para amigos, aos prantos, perguntando: E agora?".

Não conformada, Viviane e seu fã-clube organizaram uma passeata na avenida Paulista, rechaçando a resolução da produtora do grupo em acabar com a banda. "Os integrantes não queriam o fim do RBD. Não sei o que deu nos organizadores", contou, indignada. Do vão do Masp ao início da rua Brigadeiro Luis Antônio, mais de dois mil fãs protestaram aos berros a favor de um "sonho que lhes foi tirado". "Só queremos explicações", protestou.

A jovem Yohana também fez loucuras em nome do grupo. "Levantei às 2h, na véspera do show da banda no Via Funchal [em maio deste ano], só para tentar vê-los no hotel Hilton, onde o conjunto estava hospedado", conta. "Quando amanheceu, tinha uma dor terrível nos pés e estava morrendo de fome".

Junto à multidão que se acotovelava na frente do hotel, estava também Viviane que, diferente de Yohana, não tinha um pingo de fome. "Paguei um café da manhã no Hilton e aproveitei para tentar entrar no quarto dos meninos. Fui expulsa do hotel duas vezes." Era 9 de maio, véspera do Dia das Mães. "Todos nós éramos capazes de tudo pelos nossos ídolos. Se até passamos o dia 10 longe de nossas mães!", conta Yohana.

A mãe de Viviane, Eliane Previde, 43, até concorda com o amor da filha pela banda, mas o considera exagerado. "Minha mãe até deu graças a Deus quando soube do anúncio do fim da banda. Ela acredita que eu passo dos limites". Segundo Mariana, que há dois meses acampa em frente ao Anhembi, seus pais não sabem que, entre as 9h e as 16h, ela se encontra com amigos na fila, ao invés de freqüentar o colégio. "Para mim, isso é muito mais importante no momento." O mesmo acredita Roberta que, em nome dos ídolos, deixou o curso de jornalismo em uma faculdade particular de São Paulo. "Deixei o ensino superior no momento, mas não parei de trabalhar. Entro às 18h, quando acaba o meu expediente na fila, e só saio à 0h. Faço isso em nome do RBD", concluiu.

"Heróis de Areia" - Ter um ídolo, segundo a professora de hebiatria (medicina adolescente) Maria Regina de Azevedo, da Faculdade de Medicina do ABC, faz parte da síndrome da adolescência normal, ou seja, não tem nada de incomum. "Quando as figuras paterna e materna deixam de ser heróis aos adolescentes, eles recorrem a artistas ou esportistas, que norteiam as suas ações e os inspiram", explica a doutora. "É muito saudável a um jovem ter um referencial a seguir, ajudando-o a tomar decisões e contribuindo no amadurecimento de sua personalidade". Maria Regina também considera normal um adolescente reproduzir os estilos e comportamentos de seus ídolos. "Quantos pais, no auge do Chitãozinho e Xororó, cortaram o cabelo de seus filhos à la sertanejo [arrepiado na frente e comprido atrás]. É uma forma de demonstrar o seu amor por alguém", explica.

Para a médica, no entanto, tudo tem um limite. Quando o jovem perde parte de suas peculiaridades e o "seu jeito próprio de ser", os pais devem ficar de olho. "Aí não existe mais idolatria, mas fixação", alerta. "O adolescente começa a viver em um mundo paralelo, perdendo a consciência de sua realidade. Entra em um estado de alienação."

Os sintomas para esse tipo de "esquizofrenia" são a perda do interesse em praticar atividades que antes lhe eram prazerosas, a tentativa insistente de se assemelhar ao ídolo - recorrendo até mesmo à pintura de cabelo e a processos cirúrgicos -, e o pedido para que os outros o chamem pelo nome da figura amada. A médica recomenda aos pais que identificarem esses sintomas no comportamento de seus filhos que procurem um psicólogo ou uma orientação médica.

Quanto à atitude dos fãs da banda RBD em esperarem pelo show na porta do Anhembi, a médica vê com certa preocupação a idolatria dos jovens. "Por ser um grupo musical que usa o nome de personagens de uma novela teen, creio que haja a formação de heróis de areia", explica. "Ou seja, pessoas cuja personalidade verdadeira é furtada dos fãs, fazendo-os se inspirarem por algo que não existe, por ídolos imaginários".

Maria Regina alerta ainda que "adolescentes cujos ídolos são de areia, serão adultos de areia" (sem caráter bem definido), e defende maior zelo dos pais em relação aos filhos. "A relação familiar deve ser pontuada pela conversa entre pais e filhos, o que esclarece aos jovens os limites entre ser fã ou esquizofrênico", conclui.

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