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Frutos da maturidade


Márcio Maio
Da TV Press

03/02/2008 | 07:08


Alexandre Borges começou tarde na TV. O ator, que interpreta o psicanalista Escobar em Desejo Proibido, estreou na Manchete em Guerra Sem Fim, em 1994, e de lá para cá, colecionou vários personagens metidos a conquistadores, como o gigolô Bruno de A Próxima Vítima. Mas, aos 41 anos, Alexandre percebe que agora tem mais oportunidades de conseguir papéis densos e com outras motivações além de “tops” e minissaias. “Não deixaria de aceitar um trabalho com medo de ficar rotulado. Mas a idade atrai uma profundidade maior para os personagens”, avalia. Em sua primeira novela de época, o ator prefere não se prender apenas a dados históricos e tenta dar um tom contemporâneo à sua atuação. “Não trabalho em museu e não estou restaurando nada. Acho que os sentimentos e a necessidade de expressão são inerentes ao homem”, explica.

Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista:

Em Desejo Proibido, que se passa no Brasil dos anos 1930, você interpreta um psicanalista que se apaixona pela paciente. Você condena seu personagem por isso?
ALEXANDRE BORGES – Estudando para a composição, vi que era algo comum antigamente. Só depois que constataram os malefícios desse tipo de envolvimento, começaram a tomar cuidado para que não se repetisse. Mas isso é uma coisa legal: abordar a psicanálise. As novelas costumam tratar de temas populares e estou lidando com uma ciência um pouco elitista no Brasil. Acho importante mostrar porque ela existe e que resultados pode trazer, mesmo que dentro de uma temática de época.

Você encontrou alguma dificuldade por ser sua primeira novela de época?
BORGES – Não me prendo muito a esse tipo de característica. É lógico que existem certos códigos que demandam estudo. Mas a própria produção de arte da novela ajuda. E, de alguma maneira, tudo isso está dentro de você. Por mais estranho que pareça, o que procuro é ter algum dado contemporâneo. Acho que os sentimentos e a necessidade de expressão são inerente ao homem. Busco uma emoção atual.

Durante alguns anos, você interpretou personagens que tinham sua sensualidade bem explorada. Em Desejo Proibido, apesar do clima de romance, essa abordagem é diferente. Você acha que a maturidade trouxe novas oportunidades na TV?
BORGES – Até percebia esse lado, mas não ficava grilado. Não vou deixar de fazer um personagem só para mostrar que quero fugir de rótulos. Mas é claro que a maturidade me traz coisas novas. Acho que atrai uma profundidade maior em algum sentido. Vejo como um caminho natural.

Você deveria ter estreado em O Marajá, na Manchete, mas a novela foi embargada e substituíram-na por Guerra Sem Fim, em 1994. Como você lidou com essas incertezas na época?
BORGES – É muito estranho ver um trabalho seu proibido de ir ao ar. Mas acho que Guerra Sem Fim foi um grande marco da teledramaturgia e me orgulho muito de ter participado. Foi ela que me levou para a Globo. Acho engraçado porque hoje todos consideram ousado usar favelas como locação de novelas, abordar o tráfico de drogas, mas a gente fez isso há 13 anos. Não quero tirar o mérito de Vidas Opostas, mas fizemos um grande trabalho. Gravávamos na Mangueira e falávamos de Comando Vermelho e da “patricinha” que se mudava para a favela e virava mulher do chefe do morro. Parece que esqueceram que isso já foi feito. Guardo grandes lembranças dessa época, porque estreei na TV, recebi o convite para a Globo e conheci a Júlia Lemmertz, minha esposa, nas gravações.

Você e a Júlia estão, mais uma vez, trabalhando na mesma novela. Mesmo em núcleos diferentes, isso facilita o trabalho de vocês?
BORGES – É engraçado esse ‘mais uma vez’, porque a gente realmente faz muita coisa junto. Mas é pura coincidência. A melhor vantagem é que tiramos férias juntos, mas também rola de um ajudar o outro a decorar o texto. E, em cenas mais difíceis, a gente acaba ensaiando junto. Torna-se uma segurança a mais, sem dúvida. Mesmo com 20 anos de carreira, ainda tenho aquele frio na barriga com qualquer trabalho. Sempre rola aquele medo do projeto não dar certo.

Esse medo tem alguma relação com a baixa média de 23 pontos de audiência que Desejo Proibido tem conseguido?
BORGES – Não. Mas não vou dar uma de hipócrita e dizer que nem me preocupo com o Ibope. Só não sou imediatista. Acho que a novela está começando e tem tudo para reconquistar a audiência do horário. A gente vai aprendendo ao longo da carreira que vários fatores ajudam e atrapalham as novelas. O horário de verão, festas de fim de ano e Carnaval, por exemplo, são inimigos da faixa das 18h. Prefiro dar tempo e ver o que acontece.

Depois de 20 anos de carreira, 13 deles na TV, como você avalia sua trajetória profissional?
BORGES – Procuro viver o meu momento, sem idealizar demais. Fiquei nove anos em um grupo de teatro de São Paulo. Me preparei, me dediquei e as pessoas viram isso, resolveram apostar em mim. Até quando isso vai durar ou até quando isso vai ser na Globo, eu não sei. Não paro para pensar nessas coisas. Prefiro aproveitar o hoje e esperar que ele me traga oportunidades melhores amanhã. E isso sempre deu certo.

Trajetória na TV
Guerra Sem Fim
(Manchete, 1993) – Cacau.

Incidente em Antares
(Globo, 1994) – Padre Pedro Paulo.

Engraçadinha... Seus Amores e Seus Pecados
(Globo, 1995) – Luis Claudio.

A Próxima Vítima
(Globo, 1995) – Bruno.

Quem é Você?
(Globo, 1996) – Afonso Marcondes Aguiar.

Zazá
(Globo, 1997) – Solano.

Pecado Capital
(Globo, 1998) – Nélio Porto Rico.

A Muralha
(Globo, 2000) – Guilherme Schetz.

Laços de Família
(Globo, 2000) – Danilo Albuquerque.

As Filhas da Mãe
(Globo, 2001) – Leonardo Brandão.

O Beijo do Vampiro
(Globo, 2002) – Rodrigo.

Celebridade
(Globo, 2003) – Cristiano Reis.

Belíssima
(Globo, 2005) – Alberto Sabatini.

Amazônia – De Galvez a Chico Mendes (Globo, 2007) – Plácido.

Desejo Proibido
(Globo, 2007) – Escobar.



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