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Rally dos Sertões não poupa ninguém!


Paulo Prado
Especial para o Veículos

17/08/2005 | 20:18


A visão da cidade de Goiânia, que aparece vistosa em ponto alto da BR 060, rodovia  que liga a capital goiana à Brasília, teve o mesmo efeito de alguém que está perdido no deserto e encontra um oásis. O suspiro simultâneo que eu e o fotógrafo Marcelo Busch, meu companheiro nessa aventura, demos ao ver a cidade refletiu a sensação de alívio que ambos sentimos. Depois de comer poeira, mas muita poeira, por quase 5.000 km, aquela visão era o direito a um bom banho, uma refeição degustada sem presa e uma noite bem dormida.         

Cobrir o Rally dos Sertões é oportunidade única e sem precedentes no automobilismo nacional. Nesses treze anos a prova tornou-se a maior da América Latina e a segunda no mundo. O abalo físico e mental no dia-a-dia da competição não poupa ninguém. E seja lá qual for a função que você exerça dentro da prova, o desgaste é o mesmo para todos. Aqueles que se propõem a competir fazem treinamento físico, o que não é o caso de quem vai trabalhar em outras áreas, como a imprensa, por exemplo.   

Nos dez dias da prova percorremos quatro estados. Partimos de Goiás rumo ao Mato Grosso, Tocantins, Distrito Federal e voltamos novamente a Goiás, totalizando 4.630 quilômetros. Como nossa aventura começou em Santo André, acrescentamos outros 2.000 km ao nosso currículo, ou seja, fizemos uma média de 550 quilômetros, dos quais mais da metade por estradas de terra. Após os três primeiros dias o cansaço parece ter chegado ao máximo. Daí em diante tivemos que conviver com o cansaço, a tensão diária e buscar muita determinação para chegar ao final, superando todos os obstáculos.

No ambiente da prova todas as atenções estão nos competidores e ao enorme esforço a que são submetidos. Fora a adrenalina a que são submetidos, pode-se dizer que o restante da estrutura aplica o mesmo ou até mais esforço físico do que aqueles que estão competindo. É que a rotina das equipes dos serviços de apoio e da imprensa tem sempre menos horas de sono. Freqüentemente são os últimos a chegar ao acampamento e conseqüentemente a dormir, e os primeiros a acordar todos os dias.

Em busca das posições que garantam as melhores imagens, os repórteres e os fotógrafos são obrigados a traçar uma estratégia para cada etapa. E, diga-se de passagem, é dar inveja a muitas equipes de apoio dos competidores. Isso implica, qualquer que seja a hora da noite, analisar a planilha do dia seguinte com muita atenção e definir os pontos específicos para uma melhor visão da prova, o que garante sempre boas imagens.

Mas tem um detalhe. Para entrar nos trechos das especiais (os que são cronometrados), é preciso chegar pelo menos 1h30 antes da largada das primeiras motos, o que quase sempre significava estar de pé lá pelas quatro ou cinco horas da manhã. Detalhe: o corpo tinha tomado a posição horizontal três ou quatro horas antes. Aliás, deitar para dormir é apenas força de expressão, pois como o rally passa por regiões afastadas, qualquer pensãozinha, quando existe, ganha ares de hotel cinco estrelas. Por isso, na maioria das vezes a cama é, na verdade,  o banco do carro ou uma rede entre duas árvores.

Por razões de segurança, uma vez dentro dos trechos das especiais, não se pode sair ou se locomover antes do último veículo passar. Já imaginaram o calor no interior do centro-oeste em tempos de inverno, o que também significa época das secas? Pois então vai uma dica. Temperatura quase sempre na casa dos 400 C e quando os veículos passam com o acelerador na posição full deixam para traz um cortina de poeira. E como toda poeira baixa, já imaginaram aonde, não?

O melhor dessa experiência é conhecer lugares que você nunca imaginaria ver um dia. Curioso é que a oportunidade também é única, pois você deixa o lugar jurando que um dia retornará, o que nunca acontece. Pontos turísticos como Aruanã, e toda a margem do Rio Araguaia, em Goiás, e as cachoeiras de Natividade, no Tocantins, são indescritíveis. E nesse aspecto levamos vantagem em relação ao que estão na competição. Como a velocidade é bem mais baixa, isso nos permite apreciar um pouco mais a paisagem.

Ter contato com a vida miserável dos sertanejos também enriquece essa experiência. No Jalapão, região desértica do Tocantins, recebemos uma carta de um retirante pedindo que a entregássemos ao Presidente Lula. Nela, ele relatava a miséria em que vivia e pedia ajuda. Entregue ao governo de Goiás, a carta, afirmaram, tomaria o rumo de Brasília. Humildes, os sertanejos mostram uma hospitalidade que nós, urbanos de cidade grande, nem sonhamos que possa existir. E chegam a ponto de sugerir a divisão do pouco de comida que possuem.

E no meio de tantos buracos, sacolejos e poeira, a confiança depositada no carro que se utiliza precisa ser total. No caso da nossa equipe, optamos por uma Chevrolet Blazer que não vacilou e até chegou a servir de guincho por 160 km para um colega que se viu sem mecânico com uma Mitsubishi L200 Sport no meio do sertão. Como a estrutura toda funciona para a competição, o apoio que se tem dos outros em situações de emergência é muito importante, principalmente porque boa parte dos jornalistas que estão na prova não tem muito conhecimento sobre como utilizar corretamente um veículo 4x4.

Estar preparado para os imprevistos é recomendação básica. Isso significa não ter telefone para se comunicar, ter no carro alguns equipamentos básicos e nunca se esquecer de tomar vacinas dos mais diferentes tipos. Para o carro as precauções são as mesmas, ou seja, checar óleo e água todos os dias e a calibragem dos pneus é rotina diária. Imaginem ficar parado em lugar nenhum, longe de tudo, com um pneus do carro furado.

Outra preocupação é com a qualidade do combustível que se encontra pelo caminho. Como a rotatividade dos postos de abastecimento nesses lugares é pequena, o combustível muitas vezes é velho e está contaminado, o que pode trazer problemas para o motor, como aconteceu com alguns carros que chegaram a ter o motor fundido. No caso da Blazer, tivemos sorte de não pegar nenhum combustível batizado e fizemos uma média geral de 8 km/l. Na estrada de terra, usando tração 4x4, a média caia para 5 a 6 km/l.


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Rally dos Sertões não poupa ninguém!

Paulo Prado
Especial para o Veículos

17/08/2005 | 20:18


A visão da cidade de Goiânia, que aparece vistosa em ponto alto da BR 060, rodovia  que liga a capital goiana à Brasília, teve o mesmo efeito de alguém que está perdido no deserto e encontra um oásis. O suspiro simultâneo que eu e o fotógrafo Marcelo Busch, meu companheiro nessa aventura, demos ao ver a cidade refletiu a sensação de alívio que ambos sentimos. Depois de comer poeira, mas muita poeira, por quase 5.000 km, aquela visão era o direito a um bom banho, uma refeição degustada sem presa e uma noite bem dormida.         

Cobrir o Rally dos Sertões é oportunidade única e sem precedentes no automobilismo nacional. Nesses treze anos a prova tornou-se a maior da América Latina e a segunda no mundo. O abalo físico e mental no dia-a-dia da competição não poupa ninguém. E seja lá qual for a função que você exerça dentro da prova, o desgaste é o mesmo para todos. Aqueles que se propõem a competir fazem treinamento físico, o que não é o caso de quem vai trabalhar em outras áreas, como a imprensa, por exemplo.   

Nos dez dias da prova percorremos quatro estados. Partimos de Goiás rumo ao Mato Grosso, Tocantins, Distrito Federal e voltamos novamente a Goiás, totalizando 4.630 quilômetros. Como nossa aventura começou em Santo André, acrescentamos outros 2.000 km ao nosso currículo, ou seja, fizemos uma média de 550 quilômetros, dos quais mais da metade por estradas de terra. Após os três primeiros dias o cansaço parece ter chegado ao máximo. Daí em diante tivemos que conviver com o cansaço, a tensão diária e buscar muita determinação para chegar ao final, superando todos os obstáculos.

No ambiente da prova todas as atenções estão nos competidores e ao enorme esforço a que são submetidos. Fora a adrenalina a que são submetidos, pode-se dizer que o restante da estrutura aplica o mesmo ou até mais esforço físico do que aqueles que estão competindo. É que a rotina das equipes dos serviços de apoio e da imprensa tem sempre menos horas de sono. Freqüentemente são os últimos a chegar ao acampamento e conseqüentemente a dormir, e os primeiros a acordar todos os dias.

Em busca das posições que garantam as melhores imagens, os repórteres e os fotógrafos são obrigados a traçar uma estratégia para cada etapa. E, diga-se de passagem, é dar inveja a muitas equipes de apoio dos competidores. Isso implica, qualquer que seja a hora da noite, analisar a planilha do dia seguinte com muita atenção e definir os pontos específicos para uma melhor visão da prova, o que garante sempre boas imagens.

Mas tem um detalhe. Para entrar nos trechos das especiais (os que são cronometrados), é preciso chegar pelo menos 1h30 antes da largada das primeiras motos, o que quase sempre significava estar de pé lá pelas quatro ou cinco horas da manhã. Detalhe: o corpo tinha tomado a posição horizontal três ou quatro horas antes. Aliás, deitar para dormir é apenas força de expressão, pois como o rally passa por regiões afastadas, qualquer pensãozinha, quando existe, ganha ares de hotel cinco estrelas. Por isso, na maioria das vezes a cama é, na verdade,  o banco do carro ou uma rede entre duas árvores.

Por razões de segurança, uma vez dentro dos trechos das especiais, não se pode sair ou se locomover antes do último veículo passar. Já imaginaram o calor no interior do centro-oeste em tempos de inverno, o que também significa época das secas? Pois então vai uma dica. Temperatura quase sempre na casa dos 400 C e quando os veículos passam com o acelerador na posição full deixam para traz um cortina de poeira. E como toda poeira baixa, já imaginaram aonde, não?

O melhor dessa experiência é conhecer lugares que você nunca imaginaria ver um dia. Curioso é que a oportunidade também é única, pois você deixa o lugar jurando que um dia retornará, o que nunca acontece. Pontos turísticos como Aruanã, e toda a margem do Rio Araguaia, em Goiás, e as cachoeiras de Natividade, no Tocantins, são indescritíveis. E nesse aspecto levamos vantagem em relação ao que estão na competição. Como a velocidade é bem mais baixa, isso nos permite apreciar um pouco mais a paisagem.

Ter contato com a vida miserável dos sertanejos também enriquece essa experiência. No Jalapão, região desértica do Tocantins, recebemos uma carta de um retirante pedindo que a entregássemos ao Presidente Lula. Nela, ele relatava a miséria em que vivia e pedia ajuda. Entregue ao governo de Goiás, a carta, afirmaram, tomaria o rumo de Brasília. Humildes, os sertanejos mostram uma hospitalidade que nós, urbanos de cidade grande, nem sonhamos que possa existir. E chegam a ponto de sugerir a divisão do pouco de comida que possuem.

E no meio de tantos buracos, sacolejos e poeira, a confiança depositada no carro que se utiliza precisa ser total. No caso da nossa equipe, optamos por uma Chevrolet Blazer que não vacilou e até chegou a servir de guincho por 160 km para um colega que se viu sem mecânico com uma Mitsubishi L200 Sport no meio do sertão. Como a estrutura toda funciona para a competição, o apoio que se tem dos outros em situações de emergência é muito importante, principalmente porque boa parte dos jornalistas que estão na prova não tem muito conhecimento sobre como utilizar corretamente um veículo 4x4.

Estar preparado para os imprevistos é recomendação básica. Isso significa não ter telefone para se comunicar, ter no carro alguns equipamentos básicos e nunca se esquecer de tomar vacinas dos mais diferentes tipos. Para o carro as precauções são as mesmas, ou seja, checar óleo e água todos os dias e a calibragem dos pneus é rotina diária. Imaginem ficar parado em lugar nenhum, longe de tudo, com um pneus do carro furado.

Outra preocupação é com a qualidade do combustível que se encontra pelo caminho. Como a rotatividade dos postos de abastecimento nesses lugares é pequena, o combustível muitas vezes é velho e está contaminado, o que pode trazer problemas para o motor, como aconteceu com alguns carros que chegaram a ter o motor fundido. No caso da Blazer, tivemos sorte de não pegar nenhum combustível batizado e fizemos uma média geral de 8 km/l. Na estrada de terra, usando tração 4x4, a média caia para 5 a 6 km/l.

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